Jorge

 

“Perseverança, ganhou do sórdido fingimento
E disso tudo nasceu o amor
Perseverança, ganhou do sórdido fingimento
E disso tudo nasceu o amor

Ogan toca pra Ogum” (Jorge da Capadócia, Jorge Ben-Jor)

 

Corre. Corre menina. Mas não tenhas tanta pressa. Pare, observe e respire.

O meu suor escorria, e eu não sabia se era lágrima ou suor. Mas eu corria e bradava, “onde está a minha força”?

Respira menina. Aquiete-se. Olhe. Leia, escreva.

E eu continuei a correr, cantando ponto, fazendo oração.

E eu parei, fechei e abri os olhos, já cansados, já doloridos. E eu continuei a correr, errante na estrada, na terra, na chuva. Esfregando os pés, na terra vermelha, gelada, e um turbilhão de emoções me seguindo. Cadê Jorge, cadê a minha força? E então ela vinha, quando eu olhava o horizonte e apertava meus passos, eu me curava. Quando sentei em frente às águas doces, uma força imensa chegava de repente, pra me lembrar de que de fato, nunca estive sozinha. Jorge, na minha busca por águas calmas e cristalinas, você me pegou pela mão e me guiou por estradas imensas, de terra, vermelho-sangue.

Jorge, você sabe, que toda vez que a tristeza toma conta de mim, eu saio pra caminhar, eu saio pra correr, e isso é como se fosse a minha cura. E você sabe que eu percorro quilômetros, a esmo, sem hora pra voltar, e você sabe, que às vezes, já aconteceu de eu sair pra caminhar, e não querer voltar mais. Mas Jorge, você sempre me fez querer voltar, e eu sempre voltei, mais forte. Sempre.

Jorge, eu já não tenho mais medo. Eu entendo essa caminhada que está desenhada pra mim. Eu entendo, eu perdoo, eu compreendo, eu amo, eu choro, eu aceito minhas fraquezas, sendo perseverante para jogá-las ao vento e dizer: isso não mais me pertence. E me levanto, porque você Jorge, me olha e diz: “Levanta menina, corre menina”, e sempre nos momentos que eu engulo à seco meus silêncios, minha treva, me recolho na minha calçada, catando meus cacos, minhas pedras, sem deixar ninguém pisar, porque eu estou construindo meus caminhos, reconstruindo minha calçada. Quando chega alguém e pisa naquilo que eu acredito, na minha força, na minha fé, no meu amor eu respiro, respiro fundo.

 “Tá tudo bem filha”.

Jorge, você me ensinou que as pessoas chegam pra bagunçar nossas calçadas, mas que algumas delas chegam pra causar a desordem, pra trazer o caos, mas é um caos bom. Aquele que chega, bagunça, nos olha nos olhos (ou não) e nos mostra, por vezes, sem perceber, que a nossa força é maior que a bagunça que elas causaram. Que elas entraram na nossa vida pra causar o desconforto que precisávamos para evoluir na nossa jornada. Elas trazem aquele silêncio bom, aquela ausência que eu precisava para ouvir as minhas sombras e para que a minha vida possa se encher de luz novamente.

E então Jorge, eu olho pra trás, e eu agradeço, com os dois pés bem juntos, por ser imperfeita cercada de pessoas também imperfeitas, cheias de orgulho, de amor, de ego, de medo… Mas somos humanos. Somos pequenos. Diante de tua força, somos apenas seres que não sabem de nada. Somos apenas criaturas que temos um medo enorme de perder àquilo que nos pertence, mas que talvez, não nos cabe. Somente o tempo, carregado por Logunan, pode nos dizer, o que de fato, nos pertence.

Jorge, você sempre me disse, “Pega o que é teu filha. Pega o teu amor, pega o teu afeto, pega o seu zelo e entrega. Sem medo. Aquilo que é teu será teu. O resto filha, são águas passadas, e elas correm por teus rios, se tiver de voltar, somente o tempo, dirá.”

Palavras são como flechas.

O tempo também é.

Implacável.

Justo.

Tempo é cura.

Tempo é amadurecimento.

O fruto somente é colhido e sentido sua doçura, quando entendemos que é necessária paciência, zelo e amor, para colher aquilo que é bom, aquilo que nos eleva. Aquilo que nos desmorona, aquilo que nos tira a armadura e nos faz sorrir, por dentro e por fora, aquilo que nos faz sentirmos fortes, amados sem precisar nos vestir com uma carcaça que nos torna mesquinhos e encolhidos em ego e orgulho, cegos de nossas ações, de nossos sentimentos. Agressivos, passivos, sem amor.

Jorge, eu agradeço, pela tua Força, pela tua presença, que me acompanha desde sempre e que durante muito tempo eu fui cega de sua existência.

Jorge, você sempre se mostrou pra mim, mas eu não sabia ou não tinha olhos e coração para entender, para sentir, para acreditar.

Jorge, eu agradeço por estar sempre por aqui, fazendo a tua ronda, me estendendo a mão toda vez que eu penso em ir embora, talvez pra sempre. Jorge, você sabe quantas vezes eu já quis pegar a estrada e desaparecer, mas você sabe, que filha/filho teu jamais entrega a espada. E sendo filha da água doce, eu sei o quanto é imenso, o quão transparente, o quão profundo é o meu amor, a ponto de jamais abandonar as minhas águas. É nela a minha morada. E eu preciso da sua estrada para chegar nesse lugar que eu tanto amo. Eu preciso da sua estrada, para conduzir àqueles irmãos que precisam dessa cura. Eu preciso ser ponderada e cuidadosa, para que eu não afogue as pessoas nas minhas águas, na minha força, no meu afeto. Eu preciso ter o equilíbrio, para que eu estenda a mão e ensine à nadar, ou que eu abra a mão do meu orgulho, e acalme a minha correnteza para que possam entrar, sem medo. Apenas o Amor pode curar almas bagunçadas. Jorge, hoje eu entendo que uma alma bagunçada pode arrumar outra alma bagunçada. Na troca, na dor, na palavra, no silêncio, na sombra, na treva, no riso, no sorriso, no medo, no olhar, no abraço, no afeto, no desejo, no perdão. Vem e me bagunça. Depois se recolhe em um silêncio que dói, mas que me cura.

Jorge, talvez um dia, as pessoas entendam, que as coisas não são fruto do acaso. Jorge, um dia você me disse: “Calma filha”. Um dia uma canção me disse, que o meu sonho estava pronto e este sonho está me esperando. E eu sei Jorge, que só o Amor pode curar nossas dores. Somente o Amor, pode salvar a humanidade. O seu zelo, sua coragem, sua força, a força do arqueiro, o amor de minha mãe, que carrega o espelho numa mão e a espada na outra, são as vozes que me ensinaram que só me pertence aquilo que me cabe…