Übermensch Untermensch

“Como você e eu somos afortunados, num lar que é intemporal: nós que descemos das fragrantes montanhas de neve eterna agora para brincar com mistérios como o nascimento e a morte um dia (ou talvez ainda menos)” (E.E Cummings)

Deus é a criação humana. Homens são criação de Deus? Eu, você, nós. O que somos, quem somos? Quem te observa? O que pensa além, acima, fora, ao redor, de nós, pequenos seres à engolirmos grandes verdades, fartas mentiras? Eu olho meu hambúrguer pairando na bandeja, enquanto meu carro funerário está estacionado numa rua erma e distante para não assustar as pessoas do restaurante. Eu tirei meu terno. Visto calça social preta e camisa branca. Impecável, tal como o cadáver inerte e frio rodeado de flores num caixão feito de madeira nobre. Esse pobre humano descansa o sono dos justos, no meu carro preto adaptado. O velório será daqui 2 horas. Enquanto seus familiares se preparam para o luto, enquanto a esposa tira as vestes pretas do armário cheirando à naftalina e a filha de 2 anos pergunta “Papai já voltou da viagem? ”, eu estou num fastfood, do lado de fora, rodeado de prédios altos, com suas janelas com algumas luzes amarelas, outras brancas, outras penumbras, outras… sombras. Ahhh as sombras, quais são a minhas sombras? A sombra está ao meu lado esquerdo. De vez em quando eu escuto a gargalhada. A penumbra está ali, na rua erma que eu estacionei o carro, as minhas luzes eu carrego aqui, à minha direita. Às vezes elas falam comigo e quando isso acontece, a minha cabeça dói, meu peito aperta e acelera. Minha esposa perguntava se meus exames estavam em dia. Eu apenas respondia, “sim”. Um sim seco. Mas não era porque assim queria, mas porque as vozes gritam tão alto que eu mal entendo as simples palavras de minha filha pedindo um pedaço do pão com resto de carne de ontem que jazia em cima do fogão.

         A cada mordida gordurosa, cheia de nervos, tendões, carne vermelha, tomate, alface, bacon e molhos, eu penso na sordidez humana, na beleza, no amor, na raiva, nas intempéries, nos desafetos, nos afetos. Antônimos, sinônimos, frases e termos desconexos, mas que na minha cabeça talvez, faça algum sentido. Na minha vida de 20 anos recolhendo e tratando defuntos, muitas coisas eu vi e, ali, engolido por pequenas janelas de prédios imensos, sinto-me observado. Eu, ali, talvez super-homem, à olhos próximos, mas também um homem diminuto aos olhos das pessoinhas que habitam aquele prédio, e ainda mais diminuto ao universo como um todo. O que Deus pensa quando me olha, eu, pobre diabo, sentado mordendo um hambúrguer cheio de colesterol e triglicérides que podem estourar minhas artérias e veias, igual o homem que eu carrego no caixão na traseira do meu carro? Ele tinha uma enorme placa de ateroma na carótida, veias estouradas no cérebro. E se eu morresse agora? Eu estaria tranquilo? E as pessoas que eu amei, nessa vida? Aqui jaz um homem, que gozou, gritou, amou sorriu, um homem com punhos de ferro, que cheiram à formol e crisântemos, que tenta, talvez em vão, entender todo e qualquer sentimento.

           Na mesa da frente, um grupo de amigos ri. Eu tento entender a graça, enquanto eu me recordo que já recolhi um corpo de uma mulher que se jogou do décimo oitavo andar do prédio em frente. Eu recolhi um corpo em pedaços, a velocidade da queda versus o impacto do chão duro ao qual pés cansados passam todos os dias é exatamente igual os experimentos de física na escola, ao qual jogamos uma melancia contra o chão, de uma determinada altura e ela se espatifa inteira em polpa vermelha e em casca verde e branca. Um corpo que cai tem o peso enorme. São pedaços de ossos, vísceras, pele e sangue. Muitas vezes eu raspo os pedaços do chão com uma pá, e você, super-humano, assiste, tira foto e manda as fotos do cadáver em grupos do WhatsApp. É neste ponto, neste momento, que reduzimos a humanidade à pó. E talvez nem isso. Você, super-humano, compartilhando a desgraça, torna-se, eternamente responsável pela sua pequenez, pela sua mesquinharia. E torna-te, humano novamente, quando oferece um prato de comida e um copo d’agua, para aquele que agoniza de fome e sede, na entrada do teu prédio. E sobe as escadas, inconformado, rogando à Deus, ou questionando, “Onde está Deus, nessas horas”?

               Deus é a criação humana. É isso que eu penso quando recolho um mendigo que morreu de frio ou de inanição. Eles bebem pinga e conhaque de qualidade duvidosa, na sórdida tentativa de enganar a mente já tão cansada e entregue nos prazeres de não estar mais numa realidade. A realidade não pertence e talvez nunca pertenceu à essas pessoas. Ou a realidade existe e ela é deveras pesada demais para elas. Mas elas agradecem, com os dois pés juntos, o prato de comida, o copo de água, qualquer coisa que você ofereça. Nas noites frias, o cobertor fino não é suficiente. Nos dias frios de chuva, as cobertas se encharcam, eles tomam mais conhaque, mais pinga e então meu telefone toca para eu buscar e entregar no IML. Quando eu chego, eles estão endurecidos e frios. De vez em quando eu ajudo a quebrar os ossos, para poder ser enterrados. Isso quando a família é encontrada. Quando não, tornam-se números e vão para geladeira ao qual dezenas de cadáveres contorcidos, velhos e amarelados esperam a cova, muitas vezes rasa, o caixão de madeira compensada ou apenas um saco e panos brancos. Morrem sozinhos, e terminam sozinhos, com um número no chão. “Que Deus te abençoe! ”, eles sempre dizem isso, quando uma alma boa lhes estende a mão. Às vezes eu sou essa alma boa. Mas fico puto quando mijam e cagam na entrada do meu prédio. Mas depois, depois de muito pensar, depois de ver cadáveres de mendigos mortos ao lado de uma garrafa cheio de mijo e uma lata com fezes… sinto vontade de chorar. Mas aqui irmão… aqui não tem mais nada. Engulo o choro, sou homem. Homem não chora. Nem por dor, nem por amor, é o que diz aquela canção que às vezes toca na rádio.

           Estou terminando meu hambúrguer, pedi um chá gelado estranho na torpe tentativa de amenizar aquela mastigação nada saudável. Entre o som interno da comida que eu mastigo, vozes das pessoas nas cadeiras à minha frente, o barulho do mundo lá fora, carros passando e enquanto isso continuo observando as centenas de janelas dos edifícios ao meu redor. Ali, pessoas que amam, odeiam, se entristecem, choram de amor, de alegria, grávidas acariciam as barrigas, casais copulam, vidas nascendo, parindo, sangue, grito, agonia, prazeres, desprazeres. Cada janela uma história, e talvez aquela história, um dia se cruze com a minha, em vida ou na morte. Morte para quem? Espero que não seja a minha. Eu queria que ninguém morresse, mas se ninguém morrer, eu fico desempregado. Mas eu peço, para esse Deus que muitas vezes eu questiono a existência, que não traga a mim, a morte de quem eu amo. É um fardo muito grande, tocar num corpo nu e frio, é um fardo muito grande, recolher um corpo em pedaços num asfalto que parece o inferno de tão quente. É um fardo muito grande, buscar um corpo no hospital. É um fardo muito grande, buscar um corpo encontrado em casa, depois de muito tempo, apodrecendo, porque morreu sozinho e ninguém se importou. Acontece muito. Com velhos e acredite, jovens também. Mas penso que culpar Deus pela morte dos entes queridos, é como culpar o sol pelas sombras em meu rastro.

“Fria é a jornada pela noite. Há tantos caminhos para as estrelas, e cada um procura por uma mão, que lhe acalente. ”

             É isso que eu penso, quando eu vejo todas aquelas janelas, é nisso que eu penso, quando eu passeio com o rabecão, para levar ou buscar. No meu plantão noturno, contemplo as alegrias, contemplo as tristezas, contemplo o amor, e também a solidão. Qual a mão que acalenta a tua fé? Qual a mão que lhe acaricia, quando uma cascata de dor pesa em teus ombros? Em quem você pensa quando deita a cabeça no travesseiro e agradece? Em quem teus olhos deitam, perdidos e encantados, por encontrar um ser humano, tão fodido quanto tu, mas mesmo assim, cheio de mistérios e encantos? Aquela pessoa que lhe faz sorrir com os olhos. Sabe?

      Termino o hambúrguer, limpo os dedos gordurosos no guardanapo, começou a garoar. Sigo em direção ao meu carro, aquele imenso e temeroso papa-defuntos. Falta uma hora para o velório ao qual vou deixar o corpo que ali está. Uma súbita vontade de ir para casa me acometeu. Uma súbita vontade de me aninhar aos braços da mulher que tropeçou no meu caminho no meu pior momento, ao qual eu quase beijei o suicídio, abraçando garrafas e juntando pinos de pó. Aquela que apareceu quando eu não queria mais ninguém na minha vida. Estacionei o carro na frente do prédio. Novamente eu estava rodeado de janelas. Deixei um hambúrguer para o morador de rua que vivia lá de vez em quando. Ele dormia, mas esfregou os olhos e arregalou-os quando sentiu o cheiro invadir as narinas. “Obrigada Doutor! Que Deus lhe abençoe! ”. Eles me chamam de Doutor, mas sou apenas um cara que se veste bem por obrigação. Subi as escadas, abri a porta de casa. Minha filha dormia com o gato no colo e o cachorro aos pés, enquanto o desenho passava na TV. Ela tinha medo que o defunto fosse pegar ela de noite. Meu plantão é noturno, quando estou de folga, ela diz que não tem medo, porque papai conversa com eles, os defuntos, e os manda embora. Para ela, eu sou um super-homem. Irene me observa com o corpo apoiado na parede. “Acabou o plantão? ”, “Não”. Meu “não” seco, que se diluiu quando ela me abraçou com seu corpo cheirando à sabão. Sem perfume, sem creme. Apenas sabonete. “Não estou fedendo à defunto? ”, “Está”… ela ri, uma risada de deboche, ao qual na minha seriedade, eu, homem taciturno, sempre amei, porque é esse deboche que destrói toda minha carcaça. E ela me abraça, me leva para o quarto, segurando minhas mãos. Ela sabe que eu estou cansado, mas eu olho para ela com meu olhar de homem cansado, mas sedento por aquele corpo quente imperfeito que eu tanto amo. Ela envelheceu, já tem rugas de expressão naquele rosto, mas ela nunca perdeu a essência peculiar que eu tanto neguei que amava. Fiquei escondido, mas sempre por perto, mas abri mão do meu orgulho, do meu pessimismo, da minha crença, de que somos feitos para estarmos sozinhos, mas no fundo, eu sabia que eu procurava uma mão que me acalentasse. E aquela criaturinha brava, teimosa, carregada de defeitos e qualidades, aquele ser humano que me arrasta para cama e me ama toda vez como se fosse última, descortinou meus olhos. E onde tinha apenas escuridão, fez-se luz. Me faço de difícil, “Acabei de comer, daqui 40 minutos tem velório”, “Foda-se”. E ela me cala, com a boca, com as coxas, com os seios.  Um dia ela me disse, que tal com o Deus Eleguá, eu levava a morte na nuca e a vida na cara. E era isso, uma das coisas que ela amava em mim. Minhas dualidades, a minha dúvida, minhas histórias com os defuntos, meus ossos do ofício. Ela é a água, ela é o vinho, ela é o pão. Uma mulher perfeita, àquela que me sorri com os olhos, e que me encarou no meu momento mais obscuro. Ela é a minha tempestade, o sol que me queima a pele. Fiquei olhando para ela enquanto vestia minha camisa. “Está amassada, tem outra no armário”. Dei-lhe um beijo na testa. Ela riu. “Por quê você está rindo? ”, “Agora você está cheirando à defunto e sexo”. E ela riu. Como sempre ria, a rainha do deboche. Fui para o chuveiro, mas não fui sozinho. Após o banho, vesti minha roupa de “Doutor dos defuntos”, olhei no relógio e vi que estava atrasado. Sorte que eu morava perto do velório. Em 5 minutos estaria lá. Já tinha ligação perdida no celular, respondi que estava a caminho. Beijei a testa de minha mulher e da minha criança. A cachorra levantou o focinho e abanou o rabo. Voltou a dormir. Ela está idosa. Eu sei que em breve, eu vou enterrá-la, num cemitério de cães, pois ainda não tive condições de comprar uma casa no campo, que eu tanto quero. Ela me acompanha há quinze anos. Desci as escadas, saí do prédio, o mendigo me cumprimentou de novo, e se cobriu. Ele disse que guardou metade do hambúrguer para mais tarde, pois ele não sabia quando iria comer de novo. Pensei de novo: “Deus é a criação humana”. Mas aí minha cabeça doeu e eu lembrei de eventos na minha vida que me fazem esquecer as indagações de Friedrich Wilhelm Nietzsche…

             Cheguei no velório, fiz uma oração antes de sair do carro. Crianças brincavam na praça em frente, afinal, são crianças e ainda não possuem noção de finitude. Para elas, a mentira de “papai foi fazer uma longa viagem” cola até o momento que se questionam que a “viagem” está deveras longa. As crianças com mais idade começam a questionar quando veem o ente querido com olhos fechados rodeados de flores. E vão ver que olhos não se abrem mais. Familiares se aglomeram ao redor do carro. A viúva desaba ao chão, consolada por outras mulheres. Os homens se reúnem ao redor do caixão e o carregam. A cena irá se repetir quando finalmente o caixão alcançar a cova. Quando eu perguntar se querem dar o último adeus antes de eu fechar a tampa do ataúde, a viúva, a mãe e o pai do cadáver, vão cair em prantos novamente. Quando a viúva se acalma, ela acaricia o rosto do esposo, bem cuidado com base e fluido embalsamador. Ela vai se aproximar e dizer: muito obrigada. É sempre assim. Um trabalho bem feito, ainda que em momentos de tristeza, é reconhecido. Após uma noite inteira de velório, ao qual me ausentei alguns momentos para buscar outros defuntos e preparar a sala de embalsamamento, eu volto ao velório e finalizo. Corpo enterrado, próximo defunto encaminhado para companheiros de profissão do turno do dia. Deixo o carro de defuntos na garagem da funerária, troco as roupas e vou para casa, atravessando o centro da cidade, com os prédios e suas janelas cheias de histórias, cheia de vida e cheia de morte. Toda a vida fervilhante do centro da cidade, cheirando à mijo, com gentes gritando muambas, pedindo dinheiro, fazendo dinheiro. Gentes de carro, gentes no ponto de ônibus, gentes vendendo fé, gentes sorrindo, gentes de olhos baixos, gentes tentando a sorte. Gentes que aos olhos e palavras de Eduardo Galeano, são como pequenas fogueirinhas, sendo que algumas são tão intensas que nos queimam. Gentes sofridas, gentes fodidas, gentes sagradas. Gentes que carregam nos ombros, cadáveres antigos, de antigas ambições. Gentes, super-homens, super-mulheres, que nos erros se tornam sub-humanos, mas que se erguem, numa força que me faz, de fato, desacreditar que Deus é a criação humana.

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