Neste conto ninguém morre

“E fica na paz no meio dos seus trinta anos, movendo-se sem desgosto nem tropeço, entre os cadáveres pavorosos de antigas ambições, das formas repulsivas de sonhos que se foram gastando sob a pressão distraída e constante de tantos milhares de pés inevitáveis.” (“Bem vindo Bob – Juan Carlos Onetti”)

Vai começar de novo. Eu vou abrir os olhos, olhar para o teto, ver as luzes da manhã batendo no meu corpo estirado na cama. Levantar tem sido uma súplica. Viver tem sido uma súplica. O que me faz permanecer aqui? Os livros empilhados na mesa ao lado da cama, preciso estudar, mas preciso pagar os boletos, alguns atrasados. E parece que o mundo vai desabar. Sinto uma pressão no peito, parece que o telhado da casa velha e alugada vai despencar. Apenas em mim. Apenas o meu telhado desaba neste momento. Eu sinto meus orifícios respiratórios sendo sufocados pela ação indireta de tijolo, concreto e telhas. De longe, meu gato me observa. O quão patética eu sou agora. São sete e meia da manhã e minha respiração está ofegante. A cachorra lambe meus pés. Neste momento, volta a ficar tudo bem. Eu me arrasto até o banheiro, numa comiseração que dói. Olho no espelho: é por pouco tempo. Vai passar filha. Vai passar… Não sei quem fala isso pra mim, sou eu mesmo ou quem anda comigo e eu não enxergo?

Vai passar filha. Vai passar filha…

Todos os dias de manhã espero o ônibus passar. Espero as horas passarem, espero as pessoas passarem por mim. Espero o sinal abrir, espero os olhares pousarem em mim, espero… Espero o amor passar. E sorrir, com os olhos.

Olhos delineados, boca nude. Finjo um sorriso, mas por dentro é tristeza. No íntimo estou cantando Nick Cave, e murmuro:

Well a girl’s gotta make ends meet… Even down jubilee street

Chego na “clínica”. Organizo as coisas, acendo incenso, peço paz, peço calma, peço perdão.
Vai passar filha.
A voz de novo. O quase choro. De novo. Engulo o meu coração e tento amar por dentro.
Vai passar filha.
Canto um ponto. Faço uma prece, faço um poema, faço notas mentais. Não faço amor.
Faz tempo.
Por alguns momentos passa.
Cliente chega. Eu o vejo chegar através da janela de vidro da frente da recepção. Estaciona o carro importado na frente. Adesivo de família feliz no carro.
Eu o recepciono. Ficar na recepção, cuidar da planilha, atender telefone, responder mensagens no Whatsapp faz as horas passarem um pouco mais rápido. Mas eu também faço massagem, eu me apresento…
Olá, eu sou a Bee. Aceita uma água ou um café?
Aí o desgraçado me olha como uma presa indefesa.
E eu gostaria de dopar o filho da puta e cometer um homicídio qualificado. Hediondo.
E se eles me escolhem, os levo até o quarto, aguardo o filho da puta tomar banho, ele deita, eu faço massagem. Procuro fazer o meu melhor e eu torço, pra eles sentirem prazer em silêncio. Mas dificilmente é assim.
Começa a tortura…

Que corpo lindo você tem – eles sempre dizem isso

Obrigada! – mas na verdade eu penso: Por favor, cale a boca.

E eles não param de falar enquanto faço massagem.

Querem saber da minha vida, onde eu moro, qual o meu nome verdadeiro, qual a minha idade, quando comecei a fazer massagem. Tentam criar intimidade para perguntar o clichê de sempre:

Você não faz nada diferente?

Diferente do quê?

Bem, diferente… Sabe? Um agrado… um presente…

Não, só faço massagem.

Nenhuma finalização diferente?

Não, finalização só manual.

Nem pagando a mais?

Não. Aqui é uma clínica de massagens, não um prostíbulo.

Mas as outras garotas fazem. Porque você não?

Eu não sou todo mundo.

Eles riem. Na minha cara. Bem na minha cara de idiota.

Eles riem.

Eu dou risada também. Mas é por escárnio. Porque eu penso em como gastaria meu réu primário com um filho da puta desse. Eu poderia estripá-lo com uma faca, arrancando-lhe os intestinos, amontoando as tripas ao lado do corpo, enquanto o desgraçado agoniza perdendo litros de sangue num pequeno corte na carótida, ou na femural. Seria lindo, o filho da puta pregador da boa moral e bons costumes, com foto da filha e da esposa na foto do whatsapp, mas pagando massagem e tentando final feliz com a infeliz aqui. O melhor final feliz seria o pau e as bolas ensaguentadas do desgraçado na minha mão,  e eu ficaria sacudindo elas no alto, pra ele olhar bem, porque a presa agora não é mais eu:

O JOGO VIROU QUERIDINHO.

Enquanto ele me olha com olhinhos misericordiosos, enquanto me chama de puta desgraçada sem eu ser uma puta, o sangue tinge a sala zen com imagens de buda e cheiro de incenso de sândalo e dama da noite. Mais alguns minutos e o sangue começa a oxidar. Um cheiro de ferrugem com incenso barato toma conta da sala.

Você não queria um final feliz? O final feliz, o oral que ele tanto pediu aconteceu! Eu faria o desgraçado engolir o próprio pau. A perícia ia encontrar o infeliz num mar de sangue, com o próprio pau na boca, com as tripas ao lado do corpo. Iria virar aquelas histórias tragicômicas que os policiais contam nos corredores da delegacia:

Nossa, esse caso foi muito legal. Homicídio numa clínica de massagem!

E o policial contador do caso vai fazer o sinal de aspas quando falar “clínica”. Os outros policiais vão rir. Eles entenderão a “referência”. Até porque policiais adoram tirar o stress do dia a dia nessas “clínicas”. Aí o policial prepara todo o clima para soltar essa:

A puta não quis fazer final feliz, cliente disse desaforo, a puta ficou “puta” de verdade e matou o cara.

kkkkkkkkk a puta ficou puta…

E todos darão risada.

E a puta que ficou puta? Pegaram ela?

Sim, a puta se entregou.

Sim, EU me entreguei.

Esperei na sala, sentada no sofá chique vermelho, pernas cruzadas, balançando um copo de uísque sem gelo, brindando a minha desgraça, numa tranquilidade que dói.

Mas isso é só imaginação. Continuo massageando o cara pelado no tatame que não cansa de me elogiar na tentativa de ter final feliz.

Mas eu só quero sair dali. Termino massageando o pau e o períneo do infeliz, que treme e geme, enquanto eu penso o quanto ele gritaria de dor se eu arrancasse aquele pau com uma faca em forma de gancho. Eu poderia esconder a faca embaixo do tatame. Mas não… ao final, eles gozam, botam um sorriso na cara…

E no final eles me agradecem… Eles gozam, eles tremem, eles gemem, e a cada “obrigado”, eles roubam um pedaço da minha alma.

Ahhhh se me esposa soubesse fazer isso… Ahhh, se você fosse minha namorada, eu casava.

Mentira. Pra vocês, eu sou uma puta. Uma mulher pra não ser apresentada pra família, uma mulher pra não sair de mãos dadas na rua. Afinal, não sou massagista, sou puta.

O que vocês querem é uma dama na sociedade e uma puta na cama. Não uma puta na sociedade e uma puta na cama.

Irônico né?

Enquanto o cara está no banho relaxando com a gozada, eu conto quantos cretinos possíveis cadáveres eu preciso massagear na semana para poder pagar meu aluguel. Quantos sorrisos falsos eu preciso distribuir para tentar seduzi-los? Será que eu vou conseguir seduzir alguém de novo querendo seduzir de verdade, com olhos, coração, corpo e espírito? Engulo meu coração, engulo o choro e tento me amar por dentro.

No intervalo, mando currículos. Pra voltar a ser “normal”. Uma dama na sociedade.

Preciso sair dessa para não enlouquecer.

Aluguel atrasado. Boleto da faculdade atrasado. Contas atrasadas, nome no Serasa.

De repente tudo desabou. Demissão, eu sem chão. Mercado competitivo, perder tudo ou continuar?

Eu já transpareço que estar ali é um suplício. Estar ali é quase uma tortura. Fico três dias sem conseguir atender cliente. Meu sorriso falso na cara já me entrega. As contas se atrasando, a vergonha tomando conta. é por tempo curto. Voltarei a ser uma “mulher normal”, e não uma massagista, uma personagem.

Vai passar filha. Vai passar… Tudo na vida é aprendizado.

Essa é a voz que eu ouço quando engulo o choro.

Cada cliente, cada toque, é um pedaço da minha alma que se quebra, em milhões de pedaços. Eu carrego os cacos e tento de novo. Na falsa paz dos meus trinta anos, sigo tropeçando, construindo de novo e de novo um vitral que se partiu em pedaços.

Vai passar filha. Vai passar. Uma oração, um prece, um ponto, um poema mental, uma canção.

Eu sei, vai passar. Arrumarei um emprego num escritório novamente, mas, futuramente, ainda carregarei nas costas, os cadáveres pavorosos de cada homem que massageei em troca de dinheiro. Meus cadáveres pavorosos, a pisarem no meu corpo, com os pés secos, pesados, a pressão constante, dezenas de pés me pisoteando como um animal hediondo.

Cada homem uma nova possibilidade de cometer meu primeiro crime. Já pensei em vários. Cada dia que passa, saio ilesa.

Todo dia uma oportunidade de perder o réu primário.

Você é muito linda

Obrigada

Você ainda vai transar comigo.

Não, não vou.

Passa uns minutos e o desgraçado desaba, dopado por mim, silenciosamente. E eu mato o filho da mãe com requintes de crueldade. Fico ao lado do corpo peludo do velho industriário nojento que insistia pra eu transar com ele. Ele morreu com os olhos bem abertos, espumando sangue porque ele ainda estava respirando quando eu cortei a garganta dele. Depois de morto eu ainda continuo olhando para os olhos dele e eu não sinto dó nenhuma. Olhos esbugalhados, implorando, suplicando pela vida. E eu ali, sem emoção, sem dó, sem piedade. Quando eu entro ali, eu deixo de lado todo o sentimento que eu ainda tenho. Ali eu sou apenas um corpo vazio que toca outros corpos em troca de dinheiro. Ali eu sou apenas um objeto. Vazio e gelado.

Mas o velho peludo e rico ainda está vivo. Falando sem parar, elogiando o meu corpo e pedindo coisas nojentas. Eu o matei em pensamento. E ele goza feito um porco. Eu tiro minhas luvas com nojo. Me recuso a fazer massagem íntima nesses desgraçados sem luva.

Mas você não faz programa? Pô nem um beijinho? Nem um agrado?

Meu agrado seria um golpe com a estátua de buda bem nas têmporas. Nessas clínicas eles colocam a imagem de buda para quebrar a estigma de “massacanagem”. As massagistas são terapeutas. Eu sou uma ótima terapeuta assassina e sádica. Vontade de matar, cada um deles, e contemplar a vingança ouvindo música brega relaxante, enquanto espero a polícia chegar.

Ninguém morre.

Ninguém morreu.

Ninguém morrerá.

Eu não mato.

Neste conto não morre ninguém.

Eu que morro, aos poucos.

Sabe? São os cadáveres pavorosos, que me matam aos poucos. Os cadáveres que eu gostaria de ter criado, dia após dia, toque após toque, gozo após gozo, elogio após elogio.

Minha cabeça dói. Meus ouvidos estão surdos, porque eu coloco a música no fone de ouvido em altos decibéis. Apenas para calar meus gritos. Faz 1 semana que pingo Cerumin no ouvido. E não passa. E eu sei a razão. Só vai passar quando eu acordar desse pesadelo. Da janela do ônibus eu tento silenciar meus gritos. Mas mesmo assim, eles estão me deixando surda. Mas tenho fé, que os cadáveres pavorosos dos homens que não matei, serão apenas alguns fantasmas vivos, andando na rua, com seus carros importados, com suas esposas dondocas e filhos mimados.

Vai passar filha.

Vai passar…

A cada dia quero gastar meu réu primário.

Crime hediondo.

Vai passar filha… Vai passar.

E eu rezo pra São Jorge

Vai passar filha…

E eu rezo para os anjos

Vai passar filha.

E eu atravesso a rua, de noite, voltando pra casa, carregando meus falsos fantasmas.

Mas…

Vai passar filha.

Todos os dias ergo minhas mãos aos céus.

Vai passar filha.

Deito meu corpo cansado, depois de um banho demorado, com a tentativa torpe de ter um abraço acolhedor ainda que seja apenas o meu próprio abraço, em pé, mas encolhida como um feto, mesmo que em metáfora. Seco-me, sento na beirada da cama. A cachorra lambe meus pés e pede carinho. O cansaço vem, eu me deito. Faço minha oração.

Seguro forte em minhas guias. E eu escuto:

Vai passar filha.

E adormeço.

E amanhã, serão apenas cadáveres.

Pavorosos.

Hediondos

Me pisoteando.

Inevitáveis.

Mas…

Vai passar filha.

Chen Yifei 11

Pintura de Chen Yifei, artista chinês.

 

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