Um dia normal

“Sobre aquilo que nada pode ser dito, devemos manter o silêncio.” (Wittgenstein)

Acordei cedo. Fiz o café, esfreguei a cara amassada, analisei meu rosto enrugado e cansado no espelho do banheiro. Olhei para a cama que refletia no espalho ao fundo, Lilly estava estirada na cama com seu pijama velho e furado. O gato lambia as patinhas freneticamente, numa perfeição meticulosa que doía. Entre uma lambida e outra, o gato me encarava: provavelmente ele estava me julgando. Abri o registro do chuveiro, esperei uma coluna de vapor tomar conta do banheiro. Tomei um banho escaldante, como se eu estivesse sentindo a pele caindo ao chão em pedaços. Lilly deixou a camisa e a calça impecavelmente  passada e pendurada no cabideiro. Eu amo o perfeccionismo dela, e ela ama o meu silêncio e ausências. No fundo, ela sabe que eu sou o homem que na ausência foi o mais presente na vida dela. Depois da roupa vestida, barba asseada, peguei as chaves do carro, coloquei um sorriso falso de gratidão na cara e segui em direção ao trabalho.

Cheguei ao escritório, cumprimentei à todos. Talvez, por mera educação. Meu pai sempre me ensinou que por mais vontade que temos de socar a cara de certos indivíduos, a cordialidade sempre tem de vir acima do rancor. Depois de alguns tapinhas hipócritas nas costas, sentei em minha grande mesa e fiz um check-in nos e-mails importantes. Depois, visualizei algumas mensagens nos grupos de Whatsapp. Filtrei apenas aquilo que me interessava. Meu chefe pediu a última projeção. Atualizei os dados, refiz alguns cálculos, relatório salvo e entregue, ao qual minutos depois pula uma mensagem de notificação: “Ótimo”. Depois, ele me avisou que eu iria acompanhá-lo no chão de fábrica para verificar de perto se a projeção será alcançada. 5000 travesseiros teriam de estar prontos e na expedição até às 17h00. Eu respondi: “OK”, seguido de um emoticon “joinha” ao qual eu odeio com todas as minhas forças. Na minha mesa, estava sorrindo, mas por dentro eu estava com ódio. Mas meu pai sempre dizia: é preciso ser gentil, sempre.

Quando bate 09h30 no relógio, religiosamente eu tomo meu sagrado café com 4 gotas de adoçante e um pão com manteiga. Tomo na varanda da cafeteria da firma, que fica de frente para uma garagem. A empresa fica perto da rodovia. Da varanda eu consigo ver os carros, caminhões, motos e ônibus correndo na rodovia, nos dois sentidos. Do outro lado da rodovia, dá pra ver um muro cinza, pichado com letras estranhas. “É um grafite”, disse uma amiga minha, quando eu tentei entender o que estava escrito ali. Ela também não entendia, mas ela respondia sempre: “é um grafite, é arte”. Atrás do muro, há uma árvore com poucas folhas. Acredito que a árvore está morrendo, ou que já esteja morta há tempos, com folhas secas que teimam em não cair. No meio disso tudo, fios emaranhados, postes e pássaros. Nada de novo, mas eu sempre me sento de frente para a rodovia e o muro, analisando as mesmas coisas. Rotina, sempre a tenha se não queres enlouquecer.

Um carro preto luxuoso, 4 portas, vidros escuros parou no meio fio da calçada do muro.Estacionou. Ficou um tempo parado. O motorista provavelmente deveria estar olhando algo no celular. A emergência de responder algo na hora nos enlouqueceu. Diante de tanta aproximação, ficamos cada vez mais distantes. Tudo é virtual, tudo é falso, beijos e palavras vazias. O motorista saiu do carro, aparentemente estava nervoso. Do lado do passageiro saiu uma mulher loira muito bonita. Os dois, ainda que na distância, aparentavam ser muito bonitos e imponentes. Mas isso não importa, o que importava naquele momento, eram os meus goles de café e a cena toda. A Mulher gesticulava, levava as mãos em prantos ao rosto. O Homem gesticulava, meio que implorava, quase querendo se ajoelhar. Só estava eu na varanda da cafeteria, e hoje eu fiquei mais tempo que o normal. Aquela cena me intrigou, só existia aquela paisagem ali, aquela rua paralela ao muro e a rodovia com motoristas concentrados demais mais para ver a discussão que estava ficando cada vez mais intensa. A Mulher foi se exaltando, encostou no muro, continuou gesticulando, numa cena digna de pena. O Homem estava próximo do carro, apoiava a cabeça nas mãos, em cima do capô do carro. De repente ouço três barulhos seguidos, que quase foram abafados pelo barulho dos carros na pista. O Homem entrou no carro e saiu na calmaria. Olhei para o muro. Algumas letras do grafite estavam escarlate. Tinha uma mancha vermelha bem no cinza. Sangue quente, pedaços de massa encefálica explodidas no muro. Eu estava longe, mas tenho certeza que era uma sujeira igual era nos filmes de assassinatos. Três tiros na cabeça. O carro preto estava descendo a rua, passando por baixo da ponte ao qual passa a rodovia. Ele passou ao lado da firma, o vidro do carro estava aberto, eu estava ainda na varanda, meio petrificado, meio extasiado. Ele, o assassino, olhou pra mim, eu olhei pra ele. Ele sorriu, eu também. Agora eu e aquele homem temos um segredo. Eu não anotei a placa. Tudo tem um motivo, uma razão. Terminei meu café. Levei o prato e a xícara para a garçonete, que ela loira igual a mulher executada. Agradeci: “Tenha um bom dia!”. Seja cordial. SEMPRE. Seja gentil. SEMPRE. Guarde seus segredos e silêncios. SEMPRE.

Três tiros. SEMPRE. Que é pra garantir. Foi isso que eu aprendi hoje.

5 comentários sobre “Um dia normal

  1. Olá, Ana (: depois de ter gostado muito dos seus contos no Expresso 666 (particularmente o Misofonia, que é um dos meus favoritos do livro), planejo ler tudo ou quase tudo do que está aqui no seu blog. Curto o seu estilo. Cruel, honesto, bem escrito. Isso é raro. Parabéns!

    Tem planos de alguma publicação mais extensa?

    (Ah, sim, tem um micro erro de revisão, aí, creio: “que ela loira igual a mulher executada.” – seria “que era loira”, não?)

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