Misofonia

Alessandra era linda. Compreensiva, dona de um rosto e corpo de medidas perfeitas. Além de tudo, era extremamente inteligente. Mas Alessandra tinha um problema. Ela comia de boca aberta, fazia barulho para sorver sopa e demais líquidos quentes e isso era o que eu mais odiava na vida. Meu pesadelo era levá-la ao cinema ou ao parque, pois ela comia pipoca, amendoim ou chips de uma maneira absurdamente irritantes. Mas não pense, meus caros, que isso sempre foi assim. A viborazinha me enganou!

Eu sempre saí para comer sozinho. Até mesmo em confraternizações em família, eu fazia apenas a social. Quando começavam a fartar os pratos de comida, eu me retirava para o meu quarto, longe de todo tipo de barulho que envolvesse bocas mastigando. Eu só me alimento usando fone de ouvido, pois o barulho de minha própria boca mastigando também me irrita. Passei por 4 psicólogas. Nenhuma resolveu o meu problema. Aprendi, à meu modo, a lidar com o meu próprio fardo.

Quando eu saía com alguma garota, eu convidava para jantar ou ir ao cinema. Se fizesse barulho para comer, eu dispensava. Dava um belo de um “perdido”, como diz meu sobrinho de 18 anos. Flertar e testar mastigações femininas e um era exercício de alta tortura, mas chegou uma hora ao qual eu cansei de me masturbar no banheiro vendo vídeos pornôs no celular. Pornô no mudo. Barulho de sexo oral também me irritava, afinal eram bocas quase engolindo outras coisas. Quando eu fazia sexo, era sempre com som alto. Usar fone de ouvido poderia ser ofensivo. Eu sou, acima de tudo, um gentleman.

Bom, eu estava falando da Alessandra. Ahhh a Alessandra, essa dissimulada ao qual eu me casei. Na minha concepção, uma verdadeira dama jamais faz barulho para comer. E nada de amendoim (em pasta pode, desde que puro, sem torradas, pois fazem “crec”), batatas chips, mandiopã, massa folheada entre outros… Poderia ser a mulher mais linda, meu coração se partia em pedaços. Mas Alessandra… Ahhh!!! A vadia era mestra. Ela soube disfarçar. Revelou sua verdadeira deglutinação após 1 ano de casamento!

Mas eu resolvi… Afinal, eu amo muito Alessandra.

Um belo dia, inventei que eu teria de trabalhar até mais tarde. Comprei capuz, máscara, luvas e um revólver de brinquedo. Invadi minha própria casa, simulei um assalto. No primeiro grito de desespero, eu a ataquei, Quebrei-lhe o maxilar e abri um ângulo de 90 graus esgarçando-lhe os maxilares daquele rostinho tão lindo. Hoje ela se alimenta via sonda e eu sempre seguro suas mãozinhas bem-feitas e delicadas enquanto uma mistura pastosa e bege entra pelas narinas.

Um dia normal

“Sobre aquilo que nada pode ser dito, devemos manter o silêncio.” (Wittgenstein)

Acordei cedo. Fiz o café, esfreguei a cara amassada, analisei meu rosto enrugado e cansado no espelho do banheiro. Olhei para a cama que refletia no espalho ao fundo, Lilly estava estirada na cama com seu pijama velho e furado. O gato lambia as patinhas freneticamente, numa perfeição meticulosa que doía. Entre uma lambida e outra, o gato me encarava: provavelmente ele estava me julgando. Abri o registro do chuveiro, esperei uma coluna de vapor tomar conta do banheiro. Tomei um banho escaldante, como se eu estivesse sentindo a pele caindo ao chão em pedaços. Lilly deixou a camisa e a calça impecavelmente  passada e pendurada no cabideiro. Eu amo o perfeccionismo dela, e ela ama o meu silêncio e ausências. No fundo, ela sabe que eu sou o homem que na ausência foi o mais presente na vida dela. Depois da roupa vestida, barba asseada, peguei as chaves do carro, coloquei um sorriso falso de gratidão na cara e segui em direção ao trabalho.

Cheguei ao escritório, cumprimentei à todos. Talvez, por mera educação. Meu pai sempre me ensinou que por mais vontade que temos de socar a cara de certos indivíduos, a cordialidade sempre tem de vir acima do rancor. Depois de alguns tapinhas hipócritas nas costas, sentei em minha grande mesa e fiz um check-in nos e-mails importantes. Depois, visualizei algumas mensagens nos grupos de Whatsapp. Filtrei apenas aquilo que me interessava. Meu chefe pediu a última projeção. Atualizei os dados, refiz alguns cálculos, relatório salvo e entregue, ao qual minutos depois pula uma mensagem de notificação: “Ótimo”. Depois, ele me avisou que eu iria acompanhá-lo no chão de fábrica para verificar de perto se a projeção será alcançada. 5000 travesseiros teriam de estar prontos e na expedição até às 17h00. Eu respondi: “OK”, seguido de um emoticon “joinha” ao qual eu odeio com todas as minhas forças. Na minha mesa, estava sorrindo, mas por dentro eu estava com ódio. Mas meu pai sempre dizia: é preciso ser gentil, sempre.

Quando bate 09h30 no relógio, religiosamente eu tomo meu sagrado café com 4 gotas de adoçante e um pão com manteiga. Tomo na varanda da cafeteria da firma, que fica de frente para uma garagem. A empresa fica perto da rodovia. Da varanda eu consigo ver os carros, caminhões, motos e ônibus correndo na rodovia, nos dois sentidos. Do outro lado da rodovia, dá pra ver um muro cinza, pichado com letras estranhas. “É um grafite”, disse uma amiga minha, quando eu tentei entender o que estava escrito ali. Ela também não entendia, mas ela respondia sempre: “é um grafite, é arte”. Atrás do muro, há uma árvore com poucas folhas. Acredito que a árvore está morrendo, ou que já esteja morta há tempos, com folhas secas que teimam em não cair. No meio disso tudo, fios emaranhados, postes e pássaros. Nada de novo, mas eu sempre me sento de frente para a rodovia e o muro, analisando as mesmas coisas. Rotina, sempre a tenha se não queres enlouquecer.

Um carro preto luxuoso, 4 portas, vidros escuros parou no meio fio da calçada do muro.Estacionou. Ficou um tempo parado. O motorista provavelmente deveria estar olhando algo no celular. A emergência de responder algo na hora nos enlouqueceu. Diante de tanta aproximação, ficamos cada vez mais distantes. Tudo é virtual, tudo é falso, beijos e palavras vazias. O motorista saiu do carro, aparentemente estava nervoso. Do lado do passageiro saiu uma mulher loira muito bonita. Os dois, ainda que na distância, aparentavam ser muito bonitos e imponentes. Mas isso não importa, o que importava naquele momento, eram os meus goles de café e a cena toda. A Mulher gesticulava, levava as mãos em prantos ao rosto. O Homem gesticulava, meio que implorava, quase querendo se ajoelhar. Só estava eu na varanda da cafeteria, e hoje eu fiquei mais tempo que o normal. Aquela cena me intrigou, só existia aquela paisagem ali, aquela rua paralela ao muro e a rodovia com motoristas concentrados demais mais para ver a discussão que estava ficando cada vez mais intensa. A Mulher foi se exaltando, encostou no muro, continuou gesticulando, numa cena digna de pena. O Homem estava próximo do carro, apoiava a cabeça nas mãos, em cima do capô do carro. De repente ouço três barulhos seguidos, que quase foram abafados pelo barulho dos carros na pista. O Homem entrou no carro e saiu na calmaria. Olhei para o muro. Algumas letras do grafite estavam escarlate. Tinha uma mancha vermelha bem no cinza. Sangue quente, pedaços de massa encefálica explodidas no muro. Eu estava longe, mas tenho certeza que era uma sujeira igual era nos filmes de assassinatos. Três tiros na cabeça. O carro preto estava descendo a rua, passando por baixo da ponte ao qual passa a rodovia. Ele passou ao lado da firma, o vidro do carro estava aberto, eu estava ainda na varanda, meio petrificado, meio extasiado. Ele, o assassino, olhou pra mim, eu olhei pra ele. Ele sorriu, eu também. Agora eu e aquele homem temos um segredo. Eu não anotei a placa. Tudo tem um motivo, uma razão. Terminei meu café. Levei o prato e a xícara para a garçonete, que ela loira igual a mulher executada. Agradeci: “Tenha um bom dia!”. Seja cordial. SEMPRE. Seja gentil. SEMPRE. Guarde seus segredos e silêncios. SEMPRE.

Três tiros. SEMPRE. Que é pra garantir. Foi isso que eu aprendi hoje.

Stains on the memory

Não se discute. O silêncio perante uma série de discussões sem razão na noite de domingo, enquanto a televisão vomitava seu lixo indigesto. Fui picando uma folha de papel abandonada na escrivaninha da sala. Enquanto as pessoas riam das desgraças alheias e alguns tinham sorrisos incontidos dentro das calças. Cada pedaço de folha branca rasgado às mínguas, papéis sem importância, despedaçados. Sinto o vinho dilacerar a alma como se quisesse me cortar em pedaços. Minutos antes, eu ouvia o tilintar de copos, garfos, facas, bocas se mexendo, comida sendo mastigada. Mais um pouco de percepção, eu poderia ouvir a comida caindo no estômago e o barulho do ácido gástrico queimando o pedaço de carne ao molho madeira sendo destruído. E as bactérias dos intestinos alheios fazendo festa. Era só mais um pouco para escutar a festa torpe de todos os humores da sala e os mesquinhos pensamentos de uma vida vazia e sem pretensões. Era só mais um copo de vinho, para adormecer com a cara na mesa, e em sonhos desconexos eu ver os rostos das pessoas que eu mais amei, misturando-se em desenhos e manchas de paredes. Eu acordei, com uma cara embasbacada, amassada, assustada com os olhares alheios de quem disse que eu falava sozinho. O jornal noturno passando na televisão, a desgraça do acidente de caminhão com engavetamento, “Morreram todos, que desgraça, que desastre”, “Morreram todos”, “O motorista estava bêbado”… E aqueles olhares perdidos, balbuciando que eu perdi a programação de domingo, como se eu realmente me importasse com aquilo tudo. E a garrafa de vinho quase vazia com seu conteúdo vermelho me ditando as desgraças e os sentimentos desentendidos do mundo. No dever de esvazia-la, lanço meu copo a toda sorte de calor e bem aventurança, a toda sorte de acordar no dia seguinte com a ressaca me questionando os porquês, com aquela dor de cabeça gritando aos quatro ventos, e os olhares de reprovação, com o zíper da calça aberto, com os botões da camisa aberto, toda em desalinho.  A barba por fazer, “como um irresponsável”, diz a minha falecida avó. A empregada perguntando se eu quero um copo de café, e eu apenas querendo fazer uma pequena festa entre o meio das pernas dela. O café quente e forte… Posso sentir o cheiro de sabonete exalando do pedaço de pele me servindo, mas eu gosto mais do cheiro do final do dia, aquele suor, misturado com o desespero de querer voltar para casa. Eu poderia espiar a sua nudez no banheiro, ao tirar as roupas velhas de trabalho, mas minha cabeça dói demais, e a cada gole de café eu me lembro daqueles tempos de menino, em que as meninas impúberes iam para escola e em suas camisetinhas brancas eu via a ponta dura dos mamilos ainda em formação. Apenas menininhas, menininhas em hormônios a festejar, me olhavam com desejo, eu sei, mas a garota Suzy… Ahhh Suzy! A única que me deixou ir além. Eu me recordo ainda hoje, aquele beijo molhado e desajeitado, aos meus treze anos, encostado na mureta, longe de olhares. Atrevi-me, e senti aqueles peitos macios escondidos por trás de um sutiã de algodão, e aquela pressão, aquela coisa, o desespero de achar o local certo ao colocar meu tímido e desajeitado pau no meio daquelas roliças pernas de Suzy. A empregada aparece de novo, fazendo contato, o braço dela perto do meu, e sem perguntar se eu desejava mais café, encheu minha xícara, e aqueles braços, aquele perfume. Um dia me apaixonei pelos braços da vizinha. Estava na soleira da porta de casa, numa mágoa adolescente, vi aquela senhora balzaquiana chegando com sacolas pesadas. Pude ver todos aqueles tendões e veias saltadas. Ofereci ajuda, carreguei algumas sacolas. Ganhei biscoitos e chocolate quente. Ela me falava da vida, enquanto amassava a massa do pão. Aquela penugem rala dos pelos, embranquecida com a farinha, e o movimento sublime dela lavando os braços, embaixo da água fria da pia da cozinha, e aquele olhar de que sabia que eu a desejava, mas eu queria apenas amar aqueles braços, aqueles tendões, aquela brancura, a extensão para as mãos cujos dedos finos ela lambia para experimentar a massa de bolos que ela achava que me agradava. E ela achava, ela achava que eu frequentava a casa dela por causa de biscoitos e doces. Eu era apenas um adolescente inocente, apaixonado pelos braços. O tempo passou, os amores vieram, e também se foram, e hoje, eu sou apenas um homem em devaneios de ressaca aquecendo a garganta e a alma com café amargo. A empregada me dá um sorriso, faço-me por desentendido, pego mais café e sento no sofá da sala. E fico ali, olhando para o teto pintado de um verde ridículo. Queria estar louco o suficiente para ver aquelas manchas dançando na parede, aquele mofo formando imagens desconexas, e minha mente voando em um turbilhão de luxúria, corpos ensandecidos como vermes, se misturando, tocando-se, em delírio de gemidos, dor e inconsciência. Mamãe me disse que eu era um doente sacana. Eu sou apenas um homem, que vivia constantemente em uma ressaca quase cigana, de bar em bar, após o trabalho, afogando minhas mágoas e desdém do mundo rançoso. As corporações. Eu poderia escrever um poema sujo e deslavado sobre elas. As pessoas, tão mesquinhas, falsas, a diretoria que nada sabe, as pessoas puxa-saco, lambe-saco, chupa-rolas. É como um prazer desnorteado, insano. Queria dar um tiro de fuzil em cada uma delas. Toda aquela frescura, aquela imundície. E o salário de merda todo final do mês, que minha mãe dizia “Ahhh o dinheiro abençoado”, só se for abençoada pela total falta de amor, todo o ódio dos sorrisinhos alheios das minhas companheiras de trabalho, toda falta de amor, mas excesso de tesão daquela recepcionista que me pedia aos gritos para que eu a levasse  ao delírio. Ela tinha uma bela bunda, peitos macios, mas uma boca que exalava esgoto. Eu a amava, desde que ela fosse como um vinho. Eu a amava, mantendo-a na horizontal, com a boca ocupada. Não é machismo meu caro amigo… Certas mulheres devem ser mantidas na horizontal, com uma rolha na boca, tal como o vinho, entende? Ouço seus pensamentos agora, exclamando “Machista de merda, desgraçado”. Pouco me importo, a sinceridade incomoda, o Amor incomoda.  O amor anda junto com o fracasso. Sentado nesta sala, vejo a empregada limpando o armário. Dá pra ver as marcas da calcinha cavada. Ela me solta outro sorriso sacana. Eu poderia amar essa mulher, essa mulher pode sentir algo por mim, ou apenas achar que eu posso dar-lhe uma boa vida. Estou suando… Suando como um porco, está calor lá fora, ela me diz… E olha para minha camisa suada. Diz que Dona Alzira, minha mãe, saiu. E as manchas na parede parecem estar sorrindo agora, e aquela calcinha cavada também me faz um sorriso. Ela está começando a ter aquele cheiro que eu gosto tanto. Eu poderia consumar o ato no sofá da sala. Tranco-me no quarto, e coloco-me a fitar os lençóis brancos chacoalharem no varal. Aquilo me acalma, por alguns momentos. Aquele desespero sufocante, me atiçando, crescendo e inflando minhas calças, e aqueles braços, o cheiro de café e sabonete, as roupas, os lençóis, a brisa plena da manhã das dez horas, o latido do cachorro, o olhar de desaprovação do gato no galho de árvore. Livre-me, livra-me ó Deus tolo… Dos pecados que me atormentam a alma. Livra-me da vontade de fazer cócegas e desejos molhados na pele daquela mulher. Livra-me de minha mãe dizendo que eu sou um vadio. Eu poderia desertar, me divertir em braços de prostitutas com gonorreia, o amor sufocado e contagioso que eu tanto preciso. Copos de conhaque,cigarros paraguaios, apostas que nunca findam, o dinheiro sujo me dando o poder que eu, um tolo, vulgar e sedento, tanto preciso. Ao final da noite e ao amanhecer satisfaço minhas vontades em uma mulher que eu não sei ou não me recordo o nome. Darei um beijo naqueles ombros, e a mandarei queimar no inferno. Encontro-lhe mais tarde, meu pedaço de prazer, acariciando suavemente teu íntimo, queimando em labaredas a lhe dizer um milhão de sacanagens ao pé da orelha. E eu vejo todas elas, as mulheres que eu amei, e as que eu fingi que amei, indo embora, com um sorriso no rosto, achando que eu realmente voltaria… Eu era… Minha amada, EU sou apenas um garotinho perdido, na soleira da minha porta, em sonhos, em devaneios, aquela falta de sorte regada com o desespero de ter beijos sórdidos todas as noites, de tomar um café ou tomar um vinho sem pensar no meu próprio desespero. Vou deitar nesta cama, cobrir-me com estes lençóis brancos, deitarei nu, com meu sexo totalmente ereto e livre de pudor, deixarei que a brisa noturna me leve todos os meus medos e desencantos. Abra a porta e me veja, contemplando o vazio, como se todas as estrelas do céu viessem me saudar. A velha garrafa jogada ao pé da cama. Entre conhaque, vinho e cigarros, sou apenas um garoto perfeito, uma explosão de vozes e loucura que nunca acaba. Sou apenas uma carícia infindável, aquela carícia que lhe deixa marcas. Eu sou apenas um homem minha querida, carregado nos ombros do pai e da mãe, carregado de sonhos de ir e vir.

 

(TEXTO ESCRITO EM 2013)

 

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