O Silêncio

Perante a cólera nada é mais conveniente do que o silêncio. (SAFO)

 

Cheguei exausto no ponto de ônibus. Ando completamente estressado, conversando alto com meus próprios silêncios. A ansiedade gritando, ferindo minha mente com prazos e resoluções estouradas. Todo som é uma tormenta, mas o médico com cara de personagem alucinado de desenho animado diz que o que eu tenho é apenas cansaço.

-Você precisa descansar Anderson! Tirar umas férias, namorar, fazer o que ama.

Namorar… NA-MO-RAR

Namorar me deixa ainda mais estressado porque eu sempre tenho de corresponder às expectativas de alguém e eu nunca sou ou serei bom ou bastante para elas. No máximo um cara bonito pra elas mostrarem para as amigas. Ao final, apenas sento na mesa, coço minha barba e fumo um cigarro vendo elas irem embora sem nunca mais voltar. Pratos de comida à mesa, taças vazias, um gozo na boca e outra nos orifícios e mando elas para o limbo do esquecimento, porque nunca vou ser o suficientemente bom pra elas, porque geralmente elas acham que eu sou O CARA.

Mas eu não sou.

Será que eu já fui? Fico perguntando. Lili dizia que eu era encantador. Passados alguns meses ela mudou de opinião e disse para meio mundo que eu fiz da vida dela um inferno e que ela não queria mais olhar na minha cara. Desde então eu deixei a barba crescer, assim ela não tem de olhar para a mesma cara quando nos cruzamos no corredor do fórum. Falando em pelos na cara, dizem que o homem fica mais bonito. De fato, apareceu mais mulheres na minha vida, mas a barba apenas garantiu mais corpos. O tempo era o mesmo, os motéis também, os vinhos, copos e talheres à mesa. Depois, o vazio.. Mas é bom coçar a barba enquanto eu fumo, pensando no que eu fiz de errado. Foram 10 minutos de caminhada do fórum ao ponto de ônibus. Nestes dez minutos eu pensei em tudo isso. Eu só queria silêncio. Eu poderia pensar nas táticas de meditação que minha terapeuta passou. Respira fundo, encher os pulmões, reter o ar pelo dobro de tempo que levou para aspirar o ar, soltar o ar neste mesmo tempo, depois fazer três hiperventilações. Eu fiz. Minha barriga doeu. Fiquei mais ansioso. Fui interrompido. Por uma criança gritando. As palavras de veludo da terapia, as recomendações da terapeuta foram cortadas pela voz estridente indisciplinada.

Acendi um cigarro. A menina continuava gritando. A dona da prole incitava a criança, que estava gritando com a vó que tentava falar ao celular, gesticulando para que a menina ficasse quieta.

– Ooooooooooooo vóoooooooooooooooooooooooooooo. Vóoooooooooooooooooooooooo

A mãe ria, achando engraçado ver a vó da criança irritada.

-Vai lá, grita de novo, deixa a vó irritada!

-Oooooooooooo vóoooooooooooooooooooooooo… olha pra mim vóoooooooooooooo!!!

Gritos. Gritos. Gritos. Ela me irritava, já tinha os meus próprios gritos. Acendi outro cigarro. O ônibus estava atrasado. O lugar era quase ermo, o fórum ficava numa área afastada da cidade, fora o barulho de alguns carros, ônibus e advogados tagarelas, geralmente eu conseguia lidar com o barulho que ali existia. Mas ali, naquele momento os gritos da menina que além de gritar, ria estridentemente, estava cortando-me o fino fio da paciência. Eu olhei ao redor e vi as pessoas em silêncio, visivelmente incomodadas com o próprio silêncio sendo cortado por uma pirralha de talvez uns 7,8 anos no máximo.

-Vai lá filha, grita pra vovó ficar irritada.

-Ooooooooooo vóoooo!!! Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh, olha pra mim vó! Oooooooooooooooooooooo vó… Vem me pegar!

Os berros da criança. Agudos, irritando. A fumaça do meu cigarro entrava nos meus pulmões queimando. A voz ensurdecedora da criança consumia minha paciência, minha paz, meus silêncios.

A menina passava correndo ao meu lado, no beira fio da calçada.

Gritos, gritos, gritos

Ouvi meus próprios gritos, ouvi os gritos das mulheres que eu peguei enquanto eu me concentrava em dar prazer. Ouvi os gritos dos meus primos apanhando após quebrar a janela da vizinha, ouvi os gritos da minha velha mãe chorando na beirada do caixão do meu pai, aquele desgraçado. Ouvi os gritos de minha irmã que gritava enquanto meu ex-cunhado batia nela sem motivo.

Ela passou correndo novamente. Gritando. Veio um ônibus. Apenas um empurrão. Não teve tempo para freios, nem reações. Empurrei a pirralha na frente do ônibus.

De repente tudo ficou silencioso numa argamassa de sangue, vísceras e ossos. Ao menos pra mim. Pra sempre.

 

 

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