Engole

“Vede a criança, rodeada de porcos a grunhir,
Desarmada, encolhendo os dedos dos pés.
Chora, não sabe fazer mais nada senão chorar.
Será alguma vez capaz de ficar de pé e de caminhar?
(Friedrich Nietzsche, in “A Gaia Ciência”)

Quando eu era menino, meu pai tinha uma criação de porcos. Nós éramos em três meninos e uma menina. Quando não tínhamos obediência para com ele, ele nos mandava para o chiqueiro de porcos e lá tínhamos de ficar o dia inteiro, no meio da sujeira e dos grunhidos. Nosso pai sempre foi muito rígido com tudo, até com ele mesmo.  Nunca nos deu um abraço, um elogio. Nada. Ele sentava à mesa na hora das refeições e entrelaçávamos as mãos para as orações. As mãos de minha mãe sempre tremiam. Eu achava que elas tremiam apenas em dias chuvosos, ou prenúncio de chuva, pois ela sempre dizia:

“Uma tempestade se aproxima querido. Eu tenho medo de tempestade”.

Depois, com a idade, descobri que minha mãe sempre tremia, mesmo em dias de céu limpo e ensolarados. Ela tremia, em todos os momentos aos quais meu pai estava por perto.  As mãos dela era de uma delicadeza áspera, mas ao mesmo tempo cheia de ternura, ainda que as mãos tremessem…

De medo.

Hoje eu entendo…

Fazíamos as orações e comíamos sempre religiosamente no mesmo horário. Após as orações mantínhamos os olhos baixos no prato de comida e as bocas ocupadas, mastigando e bebendo em silêncio. Um dia o silêncio foi cortado porque minha irmã saiu da mesa e não pediu licença. Ela foi dormir com a boca sangrando e com o rosto com um grande hematoma que demorou dias para sair. Um único tapa, e o sermão enérgico e cheio de ódio de meu pai:

– Engole o teu choro e peça desculpas agora…

-Mas… Mas…

-Engole…

-Des-des-culpa pai…

-Engole teu choro, fale mais alto. Eu não ouvi. Vocês ouviram?

Eu e meus irmãos engolíamos a sopa rasa à seco e em silêncio.

-Não ouvíamos… Mais alto irmã… Não ouvimos.

Não ousávamos contrariar os sermões do pai. Se ele dizia que não ouviu nada, todos nós concordávamos com ele.

– Des-des-des-cul-pa.

– Suba. E você vai limpar o chiqueiro amanhã. Suba em silêncio. Engole esse teu choro que se eu te escutar chorando de novo vai apanhar até desmaiar.

Naquele dia a sopa rala foi ainda mais seca que as outras. O pão, feito à tarde, parecia que foi feito dias atrás, deixado ao ar livre, até endurecer. Comíamos em silêncio, as orações eram o único momento ao qual escutávamos nossas próprias vozes.

No dia seguinte, fui procurar minha irmã no chiqueiro. Meu pai ordenou que ela o lavasse e trocasse a lavagem velha dos porcos. Os grunhidos dos porcos sujos e imensos eram altos, a imundície continuava lá, espalhada, as larvas consumiam o resto de lavagem. Minha irmã estava encolhida num canto, com os joelhos abraçados, chorava alto, bem alto, mas os grunhidos dos porcos abafavam o choro. Ela sempre fazia isso. Chorava no meio dos porcos, da imundície, dos grunhidos, pois no meio dos porcos, ela não precisava engolir o choro.

-Engole…

-Engole… Issoooo, engole tudo…

-Engole… engole. Boa garota…

-Engula. Engula tudo…

-Engole sem cuspir? Até a última boca, sem chorar?

Palavras recorrentes ditas à minha irmã quando abandonou a casa aos 17 anos e foi morar na cidade, num cortiço-prostíbulo, vendendo o corpo por 30 reais a hora, para garantir a sobrevivência.

Ela engolia o choro, engolia álcool barato, engolia fumaça de cigarros paraguaios, engolia fumaça de maconha para relaxar, engolia as porras, engolia o orgulho, mas nunca mais voltou pra casa e para os sermões do pai.