O Cruzamento

“Não passas de uma alma carregando um pequeno cadáver”

 

Há uma lenda que ronda esta cidade há 5 anos. No cruzamento da Avenida dos Alemães com a Alameda São João, às duas e meia da manhã da primeira quinta feira do mês, se você estiver nesse horário em frente à primeira sinaleira em frente à Padaria dos Americanos, encontrará o seu fim. Não há censura, não há idade. Qualquer ser humano, encontrará o fim da vida ali. A Morte aparece e lhe conta um spoiler. Um spoiler do fim da sua plenitude, não importa se mesquinha ou gloriosa.

Algumas pessoas que eu conheci, morreram dias depois, após o “encontro”. Mortes horrendas. Mas eu não acreditava nisso. Eram boatos, as pessoas que morreram tinham uma vida suspeita, e em torno das coisas sórdidas, cria-se lendas. Eu não acreditava até acontecer com Dona Tânia, uma velha (literalmente) amiga que tagarelava comigo fazendo crochê nos finais de tarde. Na verdade ela tagarelava, eu apenas ouvia. Eu sempre passava na casa dela aos finais de tarde, para tomar um café e ouvir suas histórias. Na verdade, ela tentava me ensinar à fazer crochê: “Uma mulher prendada deve saber fazer crochê, algum tipo de artesanato”.

Eu não sabia fazer nada. Nunca soube. Eu acho.

Mas eu sabia observar. Ela tinha nas mãos marcas de queimadura. Diz ela que foi o pai que queimou as mãos dela dentro de um tacho de água quente, porque ela mexeu onde não devia. Desde então, Dona Tânia sempre teve medo de colocar as mãos naquilo que segunda ela “não lhe pertence”. Um vez ela me acompanhou numa loja de cosméticos. Ela gostou de um batom, um vermelho fechado, cor de telha molhada. Depois da discussão “marrom” ou “vermelho”, fiquei observando se ela pegaria o batom. Observei que as mãos dela tremiam. Eu disse: “Pega, experimenta o provador”. Ela se aproximava com as mãos trêmulas, mas as encolhia e apertava as mãos e dedos junto ao corpo, “Não posso”. O rosto de Dona Tânia era um misto de dor e tristeza. Ela só experimentou depois que a vendedora com muito jeito, explicou que era provador e que ela poderia pegar. As mãos dela tremiam tanto, que o batom saiu torto. Ela se irritou e disse que estava velha demais para “se atrever à vaidade”.

“Ainda hoje, aos 75 anos de idade, choro sozinha nesta poltrona. A lembrança de meu pai é só dor. Eu queria amá-lo. de verdade, mas o amor vai embora toda vez que eu olho para minhas mãos e vejo as marcas das queimaduras.”

Depois de muito tempo tentando aprender a fazer crochê e uma fileira horrenda de pontos entrecruzados de maneira porca, Dona Tânia chegou à conclusão que eu era apenas uma moça simpática, uma boa ouvinte de histórias, mas nunca uma “mulher prendada”. Algumas histórias ela contava mais de uma vez, mas pra ela, eram inéditas. Eu não falava nada, deixava ela falar. Ela ficava muito feliz. Numa das histórias, Dona Tânia contou-me do “Cruzamento”. Que receberia um sinal, um convite para saber qual seria sua morte. “Quero estar preparada, eu vou ao cruzamento, assim que eu receber o sinal.

Uma semana depois, ela me chamou pra tomar café. Foi numa quinta-feira, primeira quinta-feira de um gelado mês de julho. Ela estava usando luvas, e eu não via mais as cicatrizes de queimadura das mãos. Ela estava usando batom. O Batom. Aquele que ela disse que era pura vaidade. Estava impecavelmente vestida, embora as roupas estivessem cheirando à mofo. Ela carregava no pescoço um colar de pérolas genuíno, dado pelo falecido marido, às vésperas da morte. “Foi o Dito que me deu, no nosso jantar de despedida. Ele sabia que estava morrendo, mas queria me presentear de alguma forma”.  Perguntei porque ela me chamei, se aconteceu alguma coisa, pois ela estava toda elegante, e eu estava acostumada a vê-la usando calças velhas, chinelos ou pantufas, ou produções de crochê que ela fazia pra ela mesma. Ela me deu várias de presente, mas eu só usava quando ia visita-la, achava-as horríveis, mas eu vestia apenas para vê-la sorrir.

“Meu pai me visitou”.

Mas o pai dela morreu. Anos atrás. Deu um tiro de espingarda na própria cabeça e Dona Tânia teve de limpar os ossos e massa encefálica do próprio pai, durante dois dias.

“Você sabia que quando a massa encefálica seca, parece pedacinhos de concreto? Parecia que a parede e teto tinha traços de pontinhos de cimento… como chama mesmo??” , “Chapisco”, eu disse. “Isso… eu fiquei dois dias raspando pedaços daquele desgraçado”.

Eu achei que eram os calmantes, mas depois me disseram que os tarja preta estavam intactos ao lado da cama de Dona Tânia…

Dona Tânia contava empolgada, o reencontro com o pai falecido…

“Então… meu pai apareceu ontem. Disse para eu me arrumar para o grande dia. Ele disse que eu poderia mexer nos seus papéis e canetas tinteiro, porque minhas cicatrizes estão intactas, e não vai mais doer, porque ele me perdoou.”

“Ele não vai mais brigar contigo Dona Tânia. Seu pai já morreu, teu medo deveria ter morrido junto, não é?”

Dona Tânia nunca me ouvia, nesse aspecto.

“Olha… peguei o baú dele no porão… olha que lindos esses papéis… e essa caneta de pena. A tinta do vidrinho ressecou, mas eu fiz uma boa limpeza e substituí o conteúdo. Ele disse que tudo que é dele, agora é meu. Ele estava lindo, e amoroso. Pai me deu um abraço, ele nunca me abraçou, em 75 anos de vida, ele nunca me abraçou tão forte. Ele quer ser bom novamente”.

“Porque você está usando luvas Dona Tânia? Nunca te vi usando luvas, nem mesmo no frio. As cicatrizes não doem mais?”

“Pai me disse que dói à ele ver as cicatrizes”

Ela me serviu café, fez bolo e torta. Ela sempre comprava coisas prontas. Desta vez, ela mesmo fez. A casa estava impecável. O pó tirado. Apareceu de repente quinquilharias, estátuas e quadros. Vários papéis e livros espalhados pela casa.

“Era tudo dele. Agora posso mexer em tudo”

Aquilo me perturbou, a ponto da torta invertida de maçã não me descer mais à garganta. O café tornou-se áspero e não era mais uma bebida incólume e cheia da razão. Me despedi, e aquela imagem de Dona Tânia, maquiada, de luvas e casaco longo cheirando à mofo e saudade, fixou na retina.

Encontrei Dona Tânia 5 dias depois, antes do nosso encontro semanal. A polícia me ligou, pediu pra eu comparecer à casa dela. Cheguei à casa, estava  cheia de viaturas e pessoas, desde o carteiro, vizinho, taxista e o entregador de jornal. Um cheiro muito forte emanava dali. Eu já pensei o pior.

“Você que é Dona Beatriz?”, “Sim”, “O que você é dela?”, “Quase uma neta”. Ela deixou um recado pra ti…”

E entregou-me uma carta, um papel velho, timbrado, com marca d’água do pai de Dona Tânia. No papel dizia:

Bea, fui no cruzamento. Eu me vi. Morta. Um carro de mortos apareceu, aquele que teu pai trabalhava, carregando os defuntos. O carro parou, meu pai desceu dele, abriu as portas e tirou a padiola. Eu estava lá dentro Bea. Estava toda queimada, com o corpo cheio de bolhas. Meu pai me pediu perdão por tanta dor, mas que para ser perdoado, eu deveria compreender a minha dor.

Deixei chá gelado e bolachas pra ti na geladeira. Meu pai tinha o mesmo gosto de livros que você, separei os livros pra ti. Estão na estante, aquela bonita, de madeira de lei que você gosta. Pode ficar com ela e os livros. E o jogo de chá que você adorava. Depositei 50 mil pra ti numa poupança, cujo número está ao final da folha. Eu sei que você é “uma ferrada na vida”, como você sempre disse. Sempre quis que você acreditasse que isso é falso, mas você não acredita. Eu acho que aquele moço não gosta de você. Ele é apenas um fósforo, uma chama que acende, apaga e você em vão, tenta acender novamente. Te amo Bea. 

Que Deus me perdoe. Que você me perdoe.

PS: quero ser cremada. Coloque minhas cinzas no vaso junto ao Dito”

Respirei fundo. Entre lágrimas tentava eu digerir aquele soco no estômago proferido em letras de velha. Acompanhei o policial. Atravessei a casa, que exalava um cheiro de coisas velhas, alfazema, rosa e ranço de cadáver. Eu me lembro bem do cheiro. Meu pai, famoso papa-defuntos da cidade, me levava para o necrotério quando eu era criança, ao qual eu brincava de Barbie na sala de ornamentação, em meio à caixões e coroas de flores. O barulho de ossos quebrados para fazer vestir as roupas em cadáveres endurecidos, fez parte da minha vida e isso se tornou normal.

Ao subir as escadas e entrar na suíte, o cheiro ficou mais forte. Não tinha mais traços de rosas, nem almíscar, nem mofo, nem pó. Era apenas ranço de cadáver. Ranço de Dona Tânia no quarto e sobretudo no banheiro. Sopa de Dona Tânia na banheira, pedaços de pele, solta, um líquido viscoso, e o braço e parte das pernas coberto de queimaduras e carne podre. E o calor, um calor dos infernos. Várias fotografias do pai espalhadas, pregadas na parede, um altar cheio de cera de vela, com Nossa Senhora Aparecida, Santo Antônio e São Miguel. metade da cara comida por Borges, o gato.

“Dona Tânia está morta há cerca de 5 dias. Achamos que foi um acidente, mas encontramos a carta. Ela provavelmente morreu cozida. Encheu a banheira com água quente, o que já provoca uma queda na pressão. O ar-condicionado estava ligado no ar quente. O banheiro virou uma sauna, e a banheira um caldeirão. Ela está com queimaduras pelo corpo inteiro. Ingeriu um coquetel de remédios, que talvez tenha sedado, e talvez, ela não tenha sofrido tanto.”

Cuidei do velório, avisei os filhos que estavam no exterior. Passei uma semana sórdida, cheia de avisos tristes, sem aquarelas furta-cor, apenas tons cinzentos. Afundei-me no próprio desespero.

“Você é uma ferrada na vida” – diz a rosto de Dona Tânia carcomido pelo gato, no box embaçado do banheiro.”

Estava tomando banhos quentíssimos, a minha pele saía vermelha, e de uma certa forma, ainda que metafórica, eu estava tentando entender a dor de Dona Tânia, a pele escaldada até a morte. Disseram que ela estava sedada. Será que doeu? À mim doeu, até hoje dói.

Nunca contei pra ninguém que Dona Tânia foi ao cruzamento da Avenida dos Alemães com a Alameda São João. Guardei pra mim, durante três meses. Depois desse tempo, descobri uma vontade imensa de saber qual seria o meu fim.

Mas o sinal nunca veio. Até que um dia um poema de Ezra Pound saltou-me aos olhos, e me perseguiu exaustivamente,

“O que amas de verdade permanece, o resto é escória
O que amas de verdade não te será arrancado
O que amas de verdade é tua herança verdadeira
Mundo de quem, meu ou deles
Ou não é de ninguém?
Veio o visível primeiro, depois o palpável
Elísio, ainda que fosse nas câmaras do inferno,
O que amas de verdade é tua herança verdadeira
O que amas de verdade não te será arrancado”

Interpretei o poema de Ezra como um sinal. Eu, inclusive, sonhei com este poema, ecoando em todos os lugares que eu frequentava, à ponto de não saber ao certo, o que era real, o que eram vozes. Vesti a minha melhor roupa, o sapato mais impecável, o batom vermelho, um penteado elegante. Duas e meia da manhã eu estava atravessando o cruzamento da Avenida dos Alemães com a Alameda São João, após um motorista do Uber que eu solicitei me deixar numa rua das proximidades. Ele deve ter achado estranho, mas eu inventei uma história que teria uma festa de casamento que aconteceria de manhã. Eu estava indo para encontrar-me com amigos para seguirmos viagem estrada afora. Eu acho que ele acreditou. Duas e meia da manhã é um horário plausível para se pegar a estrada sem grandes preocupações para um casamento matutino numa cidade distante.

Estava quase desistindo dessa loucura quando ao longe um carro papa defuntos apareceu. Todos os sons desapareceram e um vento gélido tremia meu corpo. Não sabia, ao certo, se era frio de temperatura, ou frio de medo.

“O que amas de verdade é tua herança verdadeira
O que amas de verdade não te será arrancado”

As palavras de Ezra ecoaram na minha cabeça, naquele instante. O carro estacionou um pouco à minha frente. A porta do motorista se abriu. Era meu pai.  Da outra porta, uma mulher caolha com a boca torta e careca. Achei estranho, pai tinha se aposentado do papa-defuntos e o Jurandir, seu ajudante, ainda trabalhava no IML, no lugar antes ocupado por pai.

Meu pai tinha um semblante sério por demais na cara. Muito mais sério do que eu estava habituado. Não falou uma palavra. Estava tudo certo até então, porque ele realmente não falava muito comigo. Abriu a porta do rabecão, tinha uma bicicleta amarela, toda enferrujada e retorcida. Era a minha bicicleta. Eu ganhei ela quando eu tinha sete anos e não me esqueci até hoje que me pai me pegava pelo braço e me dizia que eu não conhecia nada da vida e era uma criança ingrata.

“A bicicleta, pai, continua velha e enferrujada. Eu sei que você vai virar pra mim, eu, mulher, com trinta anos nas costas, e dizer: você não conhece nada sobre vida”, e finalizar,  com o bigode cheio de sopa, “você é uma criança ingrata”. Você sempre me dava sermões à hora do jantar, com mamãe e irmãos à mesa, comendo em silêncio, a sopa de galinha que você fazia toda semana.

“E conheces?”

“Conheces o que?”

“E conhecer alguma coisa da vida, agora?”

“Não… ainda não”.

“O que você conhece?”

“Nada”

“O que você ama?”

“Minha família, meus livros, meus gatos, meus amigos”

“Tens amores?”

“Sim”

“Quantos?”

“Tive vários, um de cada vez.”

“Foram verdadeiros?”

“Apenas de minha parte”

“O que acontecia?”

“Veio o visível primeiro, nunca o palpável”

“És tola. Eu sempre lhe disse. Tola num mundo de sonhos, de amores que acha que são verdadeiros, mas nunca foram reais. Nunca me escutou”.

“Só tem essa bicicleta enferrujada aí dentro? Cadê o meu cadáver?”

“Tenho três cadáveres seus aqui dentro. Queres ver, pequena cabeça de vento?”

“Não vim aqui à passeio, pai…”

Meu pai tirou a primeira padiola. Jazia ali uma criança branquela, magrela, de cabelos pretos, disléxica e de dentes tortos.

“Eu não morri, porque estou aí? Do que eu morri quando criança? Eu estou viva de verdade?”

“Morrestes de Tristeza.”

“Por que? Você nunca soube, como soubestes agora, que eu era uma criança triste?”

“Lembra quando sua mãe tentou suicídio na tua frente? Foi tua primeira morte. Quer que eu explique ou é burra demais para entende metáforas?”

“Não. Não precisa explicar nada. Eu tentei me matar engolindo veneno, mas você me salvou. Você ficou bravo comigo quando eu sai correndo e bati a cabeça na quina do móvel e desmaiei. Você disse que eu quase morri, que eu poderia ter morrido, pois eu dava-lhe trabalho. Eu tomei veneno, passei mal e você achou que era intoxicação alimentar. Eu tentei não ser um estorvo na tua vida.”

“Eu usei muitas palavras duras. Foi desnecessário. Me desculpe.”

Colocou a padiola com meu cadáver infantil envenenado dentro do carro, com ajuda da Mulher Caolha.

Puxou a segunda padiola, era eu adolescente. Igualmente magra, igualmente branca, com todos os dentes arrancados da boca, a cara deformada, os seios e nádegas decepados. O nariz quebrado.

“O que você sentia, quando tinha seus dezesseis anos?”

“Eu me sentia como na música de Billy Idol, aquela que você cantava enquanto cortava cebolas na cozinha.”

Meu pai tirou uma cebola da padiola. A cebola estava ensaguentada, e com uma faca que trazia dentro das botas, começou a picar a cebola, em quadradinhos impecáveis. As cebolas em cubinhos iam caindo em cima do meu corpo destruído, enquanto ele cantava:

Well I’ll do anything
For my sweet sixteen
Oh I’ll do anything
For little runaway child

Well, memories will burn you
Memories grow older as people can
They just get colder
Like sweet sixteen

“Você nunca cortou as cebolas do jeito que eu lhe pedia. Mas fazia, do seu jeito. E você sempre chorou muito para cortá-las. Nunca soube dizer, doce garotinha de dezesseis anos, se você chorava de verdade ou se de fato a culpa era da cebola. Sabe me dizer porque está morta nessa padiola?”

“Eu era uma adolescente feia. Me chamavam de magrela, desbundada, despeitada, nariguda.”

“Porque está com dentes quebrados, e faltando mais da metade?”

“Porque eu não gostava do meu sorriso, nem eu, nem eles”

A Mulher Caolha tirou o celular do bolso, tirou-me uma foto.

“Olha o passarinho querida”

Eu não consegui sorrir pra foto.

“Você nunca sorriu para fotos querida”

“É… nunca.”

Estamos chegando ao fim querida. Queres ver?

“Sim”

Ele e a Mulher Caolha tiraram a terceira padiola.

Estava eu ali, um corpo recente, na minha recente. Minhas pernas estavam quebradas, uma quase decepada, meus braços fraturados, um deles com fratura exposta. Eu tinha apenas um sapato calçado, o outro pé estava esmagado. Estava imersa no meu próprio sangue que saía da área fraturada e do ventre, mas parecia que eu sangrava por todos os poros. Eu estava com o vestido preto eu estava usando e o mesmo sapato. O mesmo batom vermelho, e o delineado borrado nos olhos. Meus olhos estavam arregalados, e a minha boca, muito aberta, como se eu tivesse soltado um grito.

“Isso é tudo minha querida. Você gritou muito querida. Sentiu muita dor, só posso dizer isso.”

“Me explica pai, não vai embora!”

“Amanhã, talvez, no jantar… “

“Por que talvez? Por queee?? Hey!!!”

“Aguarde amanhã, os sermões do pai…”

“Talvez”

Foi a última palavra que ouvi do meu pai. “Talvez”. Entrou no rabecão e foi embora. Eu  vi apenas as mãos manchadas dele, acenando.

Fiquei um tempo, sentada na sarjeta, pensando naquela loucura toda. Levantei-me, arrumei o vestido, tinha usado a barra dele para limpar as lágrimas, calcei os sapatos.

Fui atravessar o cruzamento, estava aturdida, confusa, não ouvia nada, apenas vozes. Vozes de Ezra Pound:

“Mundo de quem, meu ou deles
Ou não é de ninguém?
Veio o visível primeiro, depois o palpável
Elísio, ainda que fosse nas câmaras do inferno,
O que amas de verdade é tua herança verdadeira
O que amas de verdade não te será arrancado”

Tão confusa que não vi um carro em alta velocidade. Ele passou em cima de mim, gritando, com a cabeça para fora do vidro:

“Vadia”

Não obstante, voltou e passou em cima de novo, de ré:

“Vadia”

Era o motorista do Uber, aquele que me deixou nas proximidades, antes de eu conhecer meu trágico fim.  Ele não acreditou na minha história. Achou que eu era uma prostituta.

Eu apenas soltei um grito, meus maxilares estavam quase num ângulo de noventa graus. Olhei pra cima e apenas vi meu pai, com olhos de desaprovação, segurando a famosa pá de raspar pedaços de gente morta grudada no chão.

“Tolinha”

E então tudo escureceu. Sobrou apenas um gosto amargo na boca, misturado com meus dentes quebrados.

 

Egon-Schiele-Death-and-the-Maiden

Egon Schiele – Morte e a Dama

 

3 comentários sobre “O Cruzamento

    • Olá Marcelo! Fico muito feliz que tenha gostado e que tenha sentido aflição, pois o intuito do blog é a criação de temáticas que geram algum sentimento de medo, perturbação, que faça refletir sobre os aspectos mais tétricos e obscuros da humanidade em geral. O intuito é criar uma literatura mais crua, com personagens cheios de medos, um pouco loucos da cabeça, mas que questionam a própria (in)sanidade, por assim dizer. Este texto nasceu de um sonho meu, ao qual eu estava na esquina e aparecia um homem dirigindo um rabecão, e então ele estacionava, me chamava e eu enxergava a minha própria morte. Este foi um estopim. Então eu pensei, e se realmente existisse uma forma de ver a própria morte? Como seria? Obrigada pela leitura, um grande abraço!

      Curtido por 1 pessoa

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