Irene

Irene… Irene…

Ele balbuciava o nome dela sentado num canto do escuro quarto. Raios de sol já anunciavam a manhã chegando. Na cama, lençóis manchados, em desalinho.

Irene… Irene…

Irene costumava sentar-se numa velha poltrona com espuma solta, enrolada apenas numa toalha… Ficava horas e horas lendo livros, com os seios expostos, o cabelo molhado espalhado no busto, num contraste entre a pele branca e os negros cabelos.

Irene… Irene…

Ele balbuciava o nome dela, com a garganta dolorida, e um frio que nunca passava. A boca seca, as mãos trêmulas e o fedor do matadouro de porcos que nunca passava. Se abrisse as janelas, teria a visão dos urubus empoleirados na cerca esperando os porcos pararem de gritar.

Por que os porcos choram? – perguntava Irene…

Irene, quando viu as lágrimas descerem dos olhinhos misericordiosos dos porcos diante da morte, nunca mais comeu carne.

Não consigo dormir querido… Os porcos estão gritando… Faça-os parar, por favor.

Os gritos dos porcos na fila do abate foram enlouquecendo Irene. Aos poucos, assim como a camiseta suja de sangue do marido, voltando para almoçar.

Estou com fome querida…

E o cheiro de ferrugem eviscerada enchia a cozinha.

Na hora do almoço, os porcos paravam de gritar para dar lugar aos gritos dela enquanto sodomizada com as mãos amarradas para trás.

Irene… Irene… Você amava isso.

Dominação, submissão.

Irene… Não me abandone Irene!

Saiu do canto escuro do quarto, entrou no caótico e sujo banheiro. O espelho quebrado denunciava vários personagens, vários sorrisos sádicos, piadas sujos de humor negro, um riso forçado, ares cruéis vomitando sangue e obscenidades.

Molhou as mãos, lavou o rosto, coçou a barba áspera perto das têmporas. A água fria paralisou a face. Arrancou as roupas, foi para o banho quente e mordaz. Um pedaço velho e de sabonete jazia nas imundícies do box cheio de limbo. Os azulejos antes brancos, misturavam-se na brancura do corpo sinuoso de Irene. O riso dela abafava-se quando ele tocava subitamente entre as pernas roliças e fundiam-se em um só contra a parede entre espasmos, gritos e prazer. Ele sabe que para Irene as lembranças são como quadros abandonados em corredores escuros de museus decadentes.
Irene… Você não se importa mais.
 O sabonete velho não mais faz espuma.

Irene… Irene…

Irene, indefectível, simples… Humana… Irene nua, Irene de quatro, Irene de joelhos, Irene gritando, Irene gemendo, Irene implorando…

Lembranças que passam como frames.

Masturbou-se numa tristeza que doía.

I-RE-NE…

Vestiu a última peça de roupa limpa disposta no armário. Desceu as escadas, devagar, em passos leves, segurando no corrimão, com medo da própria queda.

Irene… dizia ele, enquanto descia as escadas, na dor cambaleante de quem já se cansou de silêncios.

Fale comigo Irene. Pare de me torturar…

Irene ignorou. Irene apenas fala com os olhos.

Ele sofre de refluxo estomacal cada vez que senta ao lado dela e tenta uma aproximação.

Irene estava sentada na poltrona da sala em volta da mesa de jantar com os olhos mirando o infinito, em um universo particular.

Fale comigo Irene…

Irene não escutava nada. Mas ela tinha um sorriso cheio de silêncio, no canto da boca.

Ao chegar na sala, Irene o ignorou. Continuou olhando para a janela com as cortinas fechadas. Ele abriu as cortinas, deu-lhe um sorriso na espera de uma retribuição. Os urubus estavam nas cercas, nas árvores, alguns com as asas abertas, outros pulando de jeito engraçado pra um lado e para outro. O fedor do matadouro de porcos os atiçavam, o mau cheiro, de carne apodrecida. Ele já não se importava mais. Ele acreditava que Irene também se acostumou, pois ela não reclama mais.

Irene… Você sempre odiou esse lugar…

O sol iluminava o corpo de Irene. Ela continuava sorrindo tristezas com os olhos, continuava dolorida, horrorizada com a paisagem cheia de urubus. Irene odiava aquele lugar, odiava o cheiro, as moscas. Moscas nas janelas, moscas em todos os lugares. Ela, pobre mulher, fragmentada, com as asas partidas, sem ter por onde fugir, presa em uma cadeira.

Irene, você não come, você não bebe. Por que você está fazendo isso comigo Irene? Eu lhe prendi tanto assim? O que eu fiz pra você?

Nada… Você não fez nada… – disse os olhos de Irene.

Ele acendeu um Luke Strike, deu uma tragada.

Quer um cigarro pelo menos? A comida que eu lhe fiz ontem você também não comeu. Faz sete dias que você não come… Irene… Fale comigo Irene…

Ele colocou metade do cigarro na boca dela. Os lábios, semiabertos,  pintavam uma paisagem de sorriso triste e pálido. O cigarro queimava, envenenando o ambiente, com as cinzas caindo no vestido.

Ele se ajoelhou aos pés dela, afagou-lhe as pernas, afastou-as, acariciando as coxas. Olhou para Irene, o rosto pálido, cheio de sardas, os olhos inchados cheio de olheiras.

Sua insônia piorou Irene. Vai ficar doente desse jeito. Deixe-me cuidar de ti…

E enfiou três dedos entre as pernas… E lambeu os três dedos.

Você nunca teve um gosto tão forte quanto agora… Aceita um café querida?

Irene sorriu com o olhos…

Isso é um sim? Você nunca negou um bom café!

Ele foi ao armário, pegou a cafeteira italiana e o pote de café extra-forte. Matou a barata que passeou em volta dos pés. Outra subiu pelas pernas. Ele chacoalhou as pernas, como numa dança insana. A barata caiu e ele pisou em cima, veio outra, mesma coisa.

Irene… você descuidou da casa. O que está acontecendo contigo Irene? E as lembranças?Lembra querida? Você gostava de dançar. Você me chamou pra dançar várias vezes, mas eu sempre recusava. E quando eu finalmente aceitei, você me pegou e conduziu. Hoje sou eu que cuido de você querida. Eu lhe conduzo, e faço isso porque eu te amo.

O café começou a subir com a pressão dentro da cafeteira…

Querida, o café… Quer mais um cigarro? Prometa pra mim que vai comer. Se fizer isso, prometo vou levá-la para ver o pôr do sol, vou-lhe tirar deste inferno, eu não vou mais matar os porcos, vou abrir outro negócio, e os abutres vão embora da nossa cerca. E essas moscas? Eu vou proteger a casa inteira. Eu vou proteger você. Promete? Promete querida?

Os olhos dela sempre concordavam com tudo, e deles, dos olhos de Irene, um grito interno que partia sem voz, era um pedido de liberdade.

Ele levou as torradas com mel e uma xícara de café duplo e sem açúcar. Era assim que ela gostava, de coisas fortes e intensas. O aroma do café misturava-se com o ar pútrido vindo do matadouro. Irene continuava com aquele olhar.

Está calor querida, deixe-me tirar suas roupas?

Ele abriu os botões do vestido com os dentes.  Rasgou o tecido com uma força bruta de um homem sedento, beijou cada mamilo, as linhas do pescoço, beijou a boca, a boca inteira como um garotinho afoito que não sabia beijar. A pele dela grudava no corpo dele, o cheiro dela tempestuava os poros… Um sexo sujo, sedento e selvagem. Quase um canibalismo. Ele transou como um animal, ela era sua presa, indefesa, tão paralisada, fria, cansada, se desmanchando, pouco a pouco, e sua alma se esvaindo, o corpo aos poucos caindo ao chão. Mas ele a amava… Ela o amava. Seu corpo se esvaiu, explodiu. E nele a sujeira rastejava, o desgosto pousava. Ele gania, como um animal, um lobo predador. Um animal fragmentado na própria dor e desespero.

Irene caindo da escada, degrau a degrau…

Ele se lembra disso enquanto penetra nas frias carnes de Irene. Ele urra de prazer enquanto as lágrimas de tormenta escorrem…

Irene caindo da escada. Irene batendo a cabeça, Irene desacordada. Irene dizendo: Eu sempre te amei. Mas agora…

Nunca mais.

Você precisa ir embora Irene. Para sempre.

Os urubus crocitavam, pulando de um lado para o outro.

Chegou a hora querida… Está na hora de você ficar livre.

Beijou-a, mordendo os lábios. Irene sorriu, depois de sete dias sem ter expressão alguma no rosto.

Mas eu quero partir com teu gosto nos lábios.

Beijou-a novamente, mordendo os lábios, enquanto as larvas caiam das órbitas oculares.

Não chore querida… não chore. Eu sempre vou te amar, mas agora chegou a hora partir.

Pra sempre.

Tirou as próprias roupas, colocou o corpo decomposto de Irene no chão. Sentou completamente nu na poltrona onde o corpo de Irene apodreceu durante 7 dias seguidos, após ter caído da escada depois de uma sórdida discussão sobre divórcio.

Lembra Irene? Quando você chegava do trabalho, eu pedia pra você arrancar as roupas, deitar-se no chão e se tocar só pra mim? Eu sentava nessa poltrona e apenas te olhava. Você sempre foi uma sádica desgraçada, submissa e sem limites.

Irene não se tocava mais. Mas ele se tocou de novo e jorrou o resto de seu gozo, nos restos do que um dia foi a mulher que amava.

Irene… Irene. Adeus Irene.

Pegou a motosserra. Partiu Irene em pedaços: braços, pernas, tronco, pés e cabeça.

Abriu a porta, partiu ensanguentado levando numa carriola os pedaços e vísceras de Irene. Os urubus crocitavam e voaram para o lado oposto.

Os porcos ganiam, de maneira ensurdecedora. Estavam três dias sem comer.

Você nunca gostou deles né Irene? Porque sabia que todos iriam morrer, de forma cruel. Você odiava crueldades, mas adorava quando eu lhe amarrava e batia. Com força.

Esfregou as vísceras de Irene no corpo, abriu a porta do chiqueiro. Jogou os pedaços de Irene aos porcos. Deixou a cabeça por último, levantou-a para o alto:

Olha isso Irene… Eis o que nos restou. Jogou a cabeça dela longe, pegou o revólver que trazia junto ao corpo na carriola. Um único tiro certeiro, de dentro da boca cujo último nome sempre foi…

Irene.