Mortos não tem expressão

Todos os dias eu acordava às seis horas da manhã numa preguiça imunda. Uma preguiça quase que de gente morta. Acariciava o gato e partia para o banheiro arrastando meu corpo, este enorme fardo de colesterol e triglicérides nas alturas. Em resumo, sou um grande filho da puta gordo e preguiçoso. Em dias de frio, lavo apenas as partes. O cheiro de sabonete ia embora após o preparo de três defuntos. O fedor de líquido cavitário já não me incomodava mais. Quem é agente funerário, ou se conforma ou… Se conforma. Eu entrei numa vida cheia de conformismos… Ela começou a se desmoronar quando me dei conta que parte das minhas ilusões foram perdidas:

Mortos não tem expressão.

Nenhum deles.

Já perdi as contas de quantos defuntos eu já preparei. Quando ainda existia um rosto, todos eles, não tinham expressão.

Nos filmes de terror que eu assistia, os Mortos tinham expressão. Começou aí a minha sina.

Eu tinha um amigo que realizava stand-up comedy na região em que eu morava. O nome dele era Marcelo Moreira. O apelido dele era Moreira. Particularmente, “O Moreira”. Era o cara mais engraçado da turma. Um dia ele foi me procurar na funerária. Mandou-me uma mensagem via Whatsapp:

“Estou no saguão do velório da senhora Vanessa Dias Guzmão”.

Eu estava terminando de colocar crisântemos nos caixões de uma mãe e filha mortas pelo marido surtado. Sabe, esses caras loucos que matam a família e depois se suicidam? Pois então, já era o terceiro caso no mês, mas eu já estou calejado de tragédias. Dei um belo rosto para as cabeças explodidas da mãe e filha: sete horas de reconstrução facial… E nenhuma expressão. Na foto para molde as duas sorriam. Mas era apenas na foto.

“Ohhh ela parece estar em paz… Que serenidade”

É isso que os familiares diziam. Eu olhava para as duas defuntas e elas continuavam sem expressão nenhuma. Totalmente apáticas. Olhei para o rosto da mãe:

Sorria desgraçada… Ou tu eras uma infeliz a vida toda?

A morta olhou pra mim e abriu um sorriso. Mas são devaneios. Ela continuava sem sorrir e com cara clichê de defunta.

Mortos não tem expressão…

Eu sempre pensava assim. Até eu ouvir risos no saguão dos velórios. Era O Moreira.

Tirei meu jaleco, ajeitei os cabelos, e fui até o saguão, fingindo serenidade. Ao redor do caixão de Dona Guzmão, entes queridos e familiares gargalhavam em alto e bom som.

Risos. Gargalhadas…

Num velório, em pleno inverno.

O filho da puta do Moreira era tão bom na arte do riso, que fez as pessoas rirem num velório. Neste dia, O Moreira virou uma lenda. A família Guzmão sempre ia nos espetáculos de piadas:

“Esse cara nos fez rir no enterro da Vovó!”

Eles sempre contavam essa história.

Cinco meses depois, O Moreira jazia frio e roxo na minha mesa. Morreu de enfarte, talvez de tanto rir e fazer rir, ou por ter zombado da Morte, naquele dia do velório.

Mortos não tem expressão. Foi isso o que meu professor de conservação de cadáveres me disse. A voz do desgraçado ecoava na minha cabeça e pelas quatro paredes do laboratório de preparação de defuntos. Enquanto eu preparava o corpo do Moreira, tirando a merda do intestino, drenando sangue e outras coisas que a maioria das pessoas nem sonha que seja feita antes de ver tudo bonitinho, asséptico e cheio de florzinhas, eu ria sozinho lembrando das piadas que ele contava, fazendo a multidão do teatro rir em uníssono.

O Moreira morto não tinha expressão alguma no rosto. O Moreira era um cara que sempre estava rindo. Ele estava indo para um caixão, todo ornamentado, com o rosto coberto de base chinesa vagabunda e aquela mesma cara de defunto que todos os defuntos possuem.

Mortos não tem expressão… Mortos não tem expressão.

Com exceção do Moreira.  Uma hora antes do velório, quebrei-lhe os maxilares e abri um sorriso na cara do desgraçado, mostrando todos os dentes com facetas de porcelana que ele meteu nos dentes. Um sorriso. De ponta a ponta, sustentado com linha cirúrgica, numa técnica que desenvolvi ao longo dos anos porque sempre quis encher os defuntos de sorrisos.

Um lindo sorriso risonho, pois O Moreira era o cara mais feliz e engraçado que passou na minha vida.

A família está me processando. Fui demitido da funerária. Nunca mais consigo emprego na área. Mas eu tenho certeza que O Moreira está fazendo uma boa piada sobre isso, lá no céu dos comediantes.

Mortos não tem expressão…

Menos O Moreira.

 

A Foda

“pura convenção achar o sexo obsceno” – Lygia Fagundes Telles, “As meninas”

A xícara de café estava quente, cheia e densa. Meu corpo, tremia, numa ode de obscenidades, enquanto sorvo o café, aperto as coxas, uma na outra, numa tentativa frustrada de tentar conter o gozo. Para quê conter? Eu poderia ir ao banheiro, deixar as coisas numa prateleira, dentro da cabine, abaixar minhas meias e me tocar até não sentir mais minha própria musculatura, tensões e nervos à flor da pele. Mas eu não poderia gritar. Não poderia gemer. Eu gosto do grito, do sussurro, a voz, a boca, o gemido. Todos os sons do prazer estarrecido são como uma sinfonia para os ouvidos. Fazem parte do meu, do seu prazer. Tomei mais um gole de café, apertei-me mais um pouco, coxa contra coxa, mais um espasmo, mais uma onda de calor. Penso mais uma vez no poder sinuoso e úmido das palavras. Palavras são como flechas certeiras:

” Estou procurando um lugar para lhe comer em pé”

Comer, foder, meter, transar, fazer sexo, gozar.

Em pé.

Há uma força irresistível no ato. As mãos, fortes , o corpo, a sustentação, as mãos segurando as coxas, num ato de compressão de dedos e pele, em suspensão. O corpo, o meu, prensado na parede, palavras de baixo calão ao pé do ouvido:

“Cala a boca e me chupa”

E então eu tomo o teu vinho. Faço de teu pau a minha taça. Tomo até o último gole, até tuas pernas e teu gozo convulsionarem em espasmos e gemidos. No último gole, na borda da taça, limpo o canto da boca e alcanço com a língua a sinuosidade de tua virilha. Alcanço-lhe o peito, o pescoço, afundamos nossos corpos e prazeres um no outro, contra a parede, entre gemidos e espasmos tornamos-nos licores um do outro. Lábios nos lábios, deixo as palavras bonitas e bem colocadas do lado de fora:

Cala a boca e me fode. Com Força.

O apanhador de gritos

Sou um eterno apaixonado pelo som mais aterrorizador que pode sair da garganta de um ser humano: o grito. Qualquer tipo de grito, mas aquele que eu mais amo é o grito que exprime dor e desespero.

Em minha casa tenho uma sala de torturas. Coloco um anúncio no jornal que é publicado duas vezes por semana nos classificados de vários jornais. Também publico anúncios nas redes sociais, através de fóruns e grupos de Facebook. Muitas pessoas me procuram. Eu me alimento e gozo a partir do grito delas. É tudo realizado com muita responsabilidade, pois eu respeito os limites. Quando imploram por misericórdia eu paro. Eu amo quando os olhos se enchem de lágrimas, a pele fica tensa e cheia de marcas, os músculos e tendões retidos, e aquela boca tremendo de dor. E os olhos que ficam pequenos, de tanto se apertarem de dor e tensão… O som da dor… impecável, avassalador, trêmulo… de nervos e partes baixas. Mas não faço sexo. Não tenho interesse no sexo, por mais que 80% dos que me procuram implorem por isso, eu não tenho interesse algum. Quero apenas a dor e o barulho dos gritos, acompanhados por “1812” de Tchaikovsky.

Um dia recebi uma mensagem no Whatsapp. Uma moça muito bonita e dona de uma delicadeza digna de realeza, isso à medir-se apenas pela foto redonda do perfil. Na mensagem, ela me disse que adorava sentir dor, mas que ela tinha limitações e acreditava que eu poderia ajudá-la. Marcamos um encontro numa cafeteria, para falarmos da proposta e caso ela topasse, iríamos para minha residência.

Ela chegou usando um vestido branco, com um cinto azul e um lenço de organza vermelha no pescoço. Ela estava longe de ter um perfil agressivo. Tudo nela era delicadeza e pureza. O nome dela era Lúcia. Lúcia era linda. Eu adoraria escutar todos os gritos de dor, desespero e misericórdia que emanariam daquele ser. Mas, Lúcia era muda. Nunca falou, nunca gritou. As cordas vocais dela nunca emitiram nenhum som. Ela usava linguagem de sinais para comunicar-se, mas eu não entendia, então conversávamos um com o outro pelo celular, mesmo que lado a lado. Foi nessas conversas que ela me contou que gostava de apanhar, mas que nunca conseguiu expressar seu prazer em forma de gritos. Ela me disse:

“Quero que você capture o meu grito”.

Ela queria que eu conseguisse capturar o grito dela, porque o prazer dela nunca era completo. Estava ali um desafio. Eu amava os gritos. Como eu conseguiria sentir prazer com alguém que não tinha aquilo que eu mais amava?

Fizemos sessões de spanking, amarrações e eletrochoque usando vários tipos de instrumentos. Lucia sentia prazer, Lucia chorava como uma criança, e as lágrimas que escorriam daquele rosto rubro de agonia por culpa de meu chicote, eram protagonistas de uma beleza que nenhuma pessoa com cordas vocais plenas e perfeitas conseguiam emitir.

Lucia fazia das próprias lágrimas, os seus gritos. Os gritos mais perfeitos, descendo dos olhos, sem nenhuma diluição. Puro, belo, triste e sem precedentes. Uma natureza selvagem. E sem som. Eu não aguentei. A carne estremeceu.

Fizemos sexo.

Lúcia conseguia exprimir o prazer em forma de silêncio. Isso extravasou todas as minhas convicções de que quanto mais alto, trêmulo e desesperado fosse o grito, mais prazer eu teria. Eu já não sou mais um sádico pervertido em busca de gritos. O silêncio de Lúcia agora me basta.