Jorge

 

“Perseverança, ganhou do sórdido fingimento
E disso tudo nasceu o amor
Perseverança, ganhou do sórdido fingimento
E disso tudo nasceu o amor

Ogan toca pra Ogum” (Jorge da Capadócia, Jorge Ben-Jor)

 

Corre. Corre menina. Mas não tenhas tanta pressa. Pare, observe e respire.

O meu suor escorria, e eu não sabia se era lágrima ou suor. Mas eu corria e bradava, “onde está a minha força”?

Respira menina. Aquiete-se. Olhe. Leia, escreva.

E eu continuei a correr, cantando ponto, fazendo oração.

E eu parei, fechei e abri os olhos, já cansados, já doloridos. E eu continuei a correr, errante na estrada, na terra, na chuva. Esfregando os pés, na terra vermelha, gelada, e um turbilhão de emoções me seguindo. Cadê Jorge, cadê a minha força? E então ela vinha, quando eu olhava o horizonte e apertava meus passos, eu me curava. Quando sentei em frente às águas doces, uma força imensa chegava de repente, pra me lembrar de que de fato, nunca estive sozinha. Jorge, na minha busca por águas calmas e cristalinas, você me pegou pela mão e me guiou por estradas imensas, de terra, vermelho-sangue.

Jorge, você sabe, que toda vez que a tristeza toma conta de mim, eu saio pra caminhar, eu saio pra correr, e isso é como se fosse a minha cura. E você sabe que eu percorro quilômetros, a esmo, sem hora pra voltar, e você sabe, que às vezes, já aconteceu de eu sair pra caminhar, e não querer voltar mais. Mas Jorge, você sempre me fez querer voltar, e eu sempre voltei, mais forte. Sempre.

Jorge, eu já não tenho mais medo. Eu entendo essa caminhada que está desenhada pra mim. Eu entendo, eu perdoo, eu compreendo, eu amo, eu choro, eu aceito minhas fraquezas, sendo perseverante para jogá-las ao vento e dizer: isso não mais me pertence. E me levanto, porque você Jorge, me olha e diz: “Levanta menina, corre menina”, e sempre nos momentos que eu engulo à seco meus silêncios, minha treva, me recolho na minha calçada, catando meus cacos, minhas pedras, sem deixar ninguém pisar, porque eu estou construindo meus caminhos, reconstruindo minha calçada. Quando chega alguém e pisa naquilo que eu acredito, na minha força, na minha fé, no meu amor eu respiro, respiro fundo.

 “Tá tudo bem filha”.

Jorge, você me ensinou que as pessoas chegam pra bagunçar nossas calçadas, mas que algumas delas chegam pra causar a desordem, pra trazer o caos, mas é um caos bom. Aquele que chega, bagunça, nos olha nos olhos (ou não) e nos mostra, por vezes, sem perceber, que a nossa força é maior que a bagunça que elas causaram. Que elas entraram na nossa vida pra causar o desconforto que precisávamos para evoluir na nossa jornada. Elas trazem aquele silêncio bom, aquela ausência que eu precisava para ouvir as minhas sombras e para que a minha vida possa se encher de luz novamente.

E então Jorge, eu olho pra trás, e eu agradeço, com os dois pés bem juntos, por ser imperfeita cercada de pessoas também imperfeitas, cheias de orgulho, de amor, de ego, de medo… Mas somos humanos. Somos pequenos. Diante de tua força, somos apenas seres que não sabem de nada. Somos apenas criaturas que temos um medo enorme de perder àquilo que nos pertence, mas que talvez, não nos cabe. Somente o tempo, carregado por Logunan, pode nos dizer, o que de fato, nos pertence.

Jorge, você sempre me disse, “Pega o que é teu filha. Pega o teu amor, pega o teu afeto, pega o seu zelo e entrega. Sem medo. Aquilo que é teu será teu. O resto filha, são águas passadas, e elas correm por teus rios, se tiver de voltar, somente o tempo, dirá.”

Palavras são como flechas.

O tempo também é.

Implacável.

Justo.

Tempo é cura.

Tempo é amadurecimento.

O fruto somente é colhido e sentido sua doçura, quando entendemos que é necessária paciência, zelo e amor, para colher aquilo que é bom, aquilo que nos eleva. Aquilo que nos desmorona, aquilo que nos tira a armadura e nos faz sorrir, por dentro e por fora, aquilo que nos faz sentirmos fortes, amados sem precisar nos vestir com uma carcaça que nos torna mesquinhos e encolhidos em ego e orgulho, cegos de nossas ações, de nossos sentimentos. Agressivos, passivos, sem amor.

Jorge, eu agradeço, pela tua Força, pela tua presença, que me acompanha desde sempre e que durante muito tempo eu fui cega de sua existência.

Jorge, você sempre se mostrou pra mim, mas eu não sabia ou não tinha olhos e coração para entender, para sentir, para acreditar.

Jorge, eu agradeço por estar sempre por aqui, fazendo a tua ronda, me estendendo a mão toda vez que eu penso em ir embora, talvez pra sempre. Jorge, você sabe quantas vezes eu já quis pegar a estrada e desaparecer, mas você sabe, que filha/filho teu jamais entrega a espada. E sendo filha da água doce, eu sei o quanto é imenso, o quão transparente, o quão profundo é o meu amor, a ponto de jamais abandonar as minhas águas. É nela a minha morada. E eu preciso da sua estrada para chegar nesse lugar que eu tanto amo. Eu preciso da sua estrada, para conduzir àqueles irmãos que precisam dessa cura. Eu preciso ser ponderada e cuidadosa, para que eu não afogue as pessoas nas minhas águas, na minha força, no meu afeto. Eu preciso ter o equilíbrio, para que eu estenda a mão e ensine à nadar, ou que eu abra a mão do meu orgulho, e acalme a minha correnteza para que possam entrar, sem medo. Apenas o Amor pode curar almas bagunçadas. Jorge, hoje eu entendo que uma alma bagunçada pode arrumar outra alma bagunçada. Na troca, na dor, na palavra, no silêncio, na sombra, na treva, no riso, no sorriso, no medo, no olhar, no abraço, no afeto, no desejo, no perdão. Vem e me bagunça. Depois se recolhe em um silêncio que dói, mas que me cura.

Jorge, talvez um dia, as pessoas entendam, que as coisas não são fruto do acaso. Jorge, um dia você me disse: “Calma filha”. Um dia uma canção me disse, que o meu sonho estava pronto e este sonho está me esperando. E eu sei Jorge, que só o Amor pode curar nossas dores. Somente o Amor, pode salvar a humanidade. O seu zelo, sua coragem, sua força, a força do arqueiro, o amor de minha mãe, que carrega o espelho numa mão e a espada na outra, são as vozes que me ensinaram que só me pertence aquilo que me cabe…

 

 

Übermensch Untermensch

“Como você e eu somos afortunados, num lar que é intemporal: nós que descemos das fragrantes montanhas de neve eterna agora para brincar com mistérios como o nascimento e a morte um dia (ou talvez ainda menos)” (E.E Cummings)

Deus é a criação humana. Homens são criação de Deus? Eu, você, nós. O que somos, quem somos? Quem te observa? O que pensa além, acima, fora, ao redor, de nós, pequenos seres à engolirmos grandes verdades, fartas mentiras? Eu olho meu hambúrguer pairando na bandeja, enquanto meu carro funerário está estacionado numa rua erma e distante para não assustar as pessoas do restaurante. Eu tirei meu terno. Visto calça social preta e camisa branca. Impecável, tal como o cadáver inerte e frio rodeado de flores num caixão feito de madeira nobre. Esse pobre humano descansa o sono dos justos, no meu carro preto adaptado. O velório será daqui 2 horas. Enquanto seus familiares se preparam para o luto, enquanto a esposa tira as vestes pretas do armário cheirando à naftalina e a filha de 2 anos pergunta “Papai já voltou da viagem? ”, eu estou num fastfood, do lado de fora, rodeado de prédios altos, com suas janelas com algumas luzes amarelas, outras brancas, outras penumbras, outras… sombras. Ahhh as sombras, quais são a minhas sombras? A sombra está ao meu lado esquerdo. De vez em quando eu escuto a gargalhada. A penumbra está ali, na rua erma que eu estacionei o carro, as minhas luzes eu carrego aqui, à minha direita. Às vezes elas falam comigo e quando isso acontece, a minha cabeça dói, meu peito aperta e acelera. Minha esposa perguntava se meus exames estavam em dia. Eu apenas respondia, “sim”. Um sim seco. Mas não era porque assim queria, mas porque as vozes gritam tão alto que eu mal entendo as simples palavras de minha filha pedindo um pedaço do pão com resto de carne de ontem que jazia em cima do fogão.

         A cada mordida gordurosa, cheia de nervos, tendões, carne vermelha, tomate, alface, bacon e molhos, eu penso na sordidez humana, na beleza, no amor, na raiva, nas intempéries, nos desafetos, nos afetos. Antônimos, sinônimos, frases e termos desconexos, mas que na minha cabeça talvez, faça algum sentido. Na minha vida de 20 anos recolhendo e tratando defuntos, muitas coisas eu vi e, ali, engolido por pequenas janelas de prédios imensos, sinto-me observado. Eu, ali, talvez super-homem, à olhos próximos, mas também um homem diminuto aos olhos das pessoinhas que habitam aquele prédio, e ainda mais diminuto ao universo como um todo. O que Deus pensa quando me olha, eu, pobre diabo, sentado mordendo um hambúrguer cheio de colesterol e triglicérides que podem estourar minhas artérias e veias, igual o homem que eu carrego no caixão na traseira do meu carro? Ele tinha uma enorme placa de ateroma na carótida, veias estouradas no cérebro. E se eu morresse agora? Eu estaria tranquilo? E as pessoas que eu amei, nessa vida? Aqui jaz um homem, que gozou, gritou, amou sorriu, um homem com punhos de ferro, que cheiram à formol e crisântemos, que tenta, talvez em vão, entender todo e qualquer sentimento.

           Na mesa da frente, um grupo de amigos ri. Eu tento entender a graça, enquanto eu me recordo que já recolhi um corpo de uma mulher que se jogou do décimo oitavo andar do prédio em frente. Eu recolhi um corpo em pedaços, a velocidade da queda versus o impacto do chão duro ao qual pés cansados passam todos os dias é exatamente igual os experimentos de física na escola, ao qual jogamos uma melancia contra o chão, de uma determinada altura e ela se espatifa inteira em polpa vermelha e em casca verde e branca. Um corpo que cai tem o peso enorme. São pedaços de ossos, vísceras, pele e sangue. Muitas vezes eu raspo os pedaços do chão com uma pá, e você, super-humano, assiste, tira foto e manda as fotos do cadáver em grupos do WhatsApp. É neste ponto, neste momento, que reduzimos a humanidade à pó. E talvez nem isso. Você, super-humano, compartilhando a desgraça, torna-se, eternamente responsável pela sua pequenez, pela sua mesquinharia. E torna-te, humano novamente, quando oferece um prato de comida e um copo d’agua, para aquele que agoniza de fome e sede, na entrada do teu prédio. E sobe as escadas, inconformado, rogando à Deus, ou questionando, “Onde está Deus, nessas horas”?

               Deus é a criação humana. É isso que eu penso quando recolho um mendigo que morreu de frio ou de inanição. Eles bebem pinga e conhaque de qualidade duvidosa, na sórdida tentativa de enganar a mente já tão cansada e entregue nos prazeres de não estar mais numa realidade. A realidade não pertence e talvez nunca pertenceu à essas pessoas. Ou a realidade existe e ela é deveras pesada demais para elas. Mas elas agradecem, com os dois pés juntos, o prato de comida, o copo de água, qualquer coisa que você ofereça. Nas noites frias, o cobertor fino não é suficiente. Nos dias frios de chuva, as cobertas se encharcam, eles tomam mais conhaque, mais pinga e então meu telefone toca para eu buscar e entregar no IML. Quando eu chego, eles estão endurecidos e frios. De vez em quando eu ajudo a quebrar os ossos, para poder ser enterrados. Isso quando a família é encontrada. Quando não, tornam-se números e vão para geladeira ao qual dezenas de cadáveres contorcidos, velhos e amarelados esperam a cova, muitas vezes rasa, o caixão de madeira compensada ou apenas um saco e panos brancos. Morrem sozinhos, e terminam sozinhos, com um número no chão. “Que Deus te abençoe! ”, eles sempre dizem isso, quando uma alma boa lhes estende a mão. Às vezes eu sou essa alma boa. Mas fico puto quando mijam e cagam na entrada do meu prédio. Mas depois, depois de muito pensar, depois de ver cadáveres de mendigos mortos ao lado de uma garrafa cheio de mijo e uma lata com fezes… sinto vontade de chorar. Mas aqui irmão… aqui não tem mais nada. Engulo o choro, sou homem. Homem não chora. Nem por dor, nem por amor, é o que diz aquela canção que às vezes toca na rádio.

           Estou terminando meu hambúrguer, pedi um chá gelado estranho na torpe tentativa de amenizar aquela mastigação nada saudável. Entre o som interno da comida que eu mastigo, vozes das pessoas nas cadeiras à minha frente, o barulho do mundo lá fora, carros passando e enquanto isso continuo observando as centenas de janelas dos edifícios ao meu redor. Ali, pessoas que amam, odeiam, se entristecem, choram de amor, de alegria, grávidas acariciam as barrigas, casais copulam, vidas nascendo, parindo, sangue, grito, agonia, prazeres, desprazeres. Cada janela uma história, e talvez aquela história, um dia se cruze com a minha, em vida ou na morte. Morte para quem? Espero que não seja a minha. Eu queria que ninguém morresse, mas se ninguém morrer, eu fico desempregado. Mas eu peço, para esse Deus que muitas vezes eu questiono a existência, que não traga a mim, a morte de quem eu amo. É um fardo muito grande, tocar num corpo nu e frio, é um fardo muito grande, recolher um corpo em pedaços num asfalto que parece o inferno de tão quente. É um fardo muito grande, buscar um corpo no hospital. É um fardo muito grande, buscar um corpo encontrado em casa, depois de muito tempo, apodrecendo, porque morreu sozinho e ninguém se importou. Acontece muito. Com velhos e acredite, jovens também. Mas penso que culpar Deus pela morte dos entes queridos, é como culpar o sol pelas sombras em meu rastro.

“Fria é a jornada pela noite. Há tantos caminhos para as estrelas, e cada um procura por uma mão, que lhe acalente. ”

             É isso que eu penso, quando eu vejo todas aquelas janelas, é nisso que eu penso, quando eu passeio com o rabecão, para levar ou buscar. No meu plantão noturno, contemplo as alegrias, contemplo as tristezas, contemplo o amor, e também a solidão. Qual a mão que acalenta a tua fé? Qual a mão que lhe acaricia, quando uma cascata de dor pesa em teus ombros? Em quem você pensa quando deita a cabeça no travesseiro e agradece? Em quem teus olhos deitam, perdidos e encantados, por encontrar um ser humano, tão fodido quanto tu, mas mesmo assim, cheio de mistérios e encantos? Aquela pessoa que lhe faz sorrir com os olhos. Sabe?

      Termino o hambúrguer, limpo os dedos gordurosos no guardanapo, começou a garoar. Sigo em direção ao meu carro, aquele imenso e temeroso papa-defuntos. Falta uma hora para o velório ao qual vou deixar o corpo que ali está. Uma súbita vontade de ir para casa me acometeu. Uma súbita vontade de me aninhar aos braços da mulher que tropeçou no meu caminho no meu pior momento, ao qual eu quase beijei o suicídio, abraçando garrafas e juntando pinos de pó. Aquela que apareceu quando eu não queria mais ninguém na minha vida. Estacionei o carro na frente do prédio. Novamente eu estava rodeado de janelas. Deixei um hambúrguer para o morador de rua que vivia lá de vez em quando. Ele dormia, mas esfregou os olhos e arregalou-os quando sentiu o cheiro invadir as narinas. “Obrigada Doutor! Que Deus lhe abençoe! ”. Eles me chamam de Doutor, mas sou apenas um cara que se veste bem por obrigação. Subi as escadas, abri a porta de casa. Minha filha dormia com o gato no colo e o cachorro aos pés, enquanto o desenho passava na TV. Ela tinha medo que o defunto fosse pegar ela de noite. Meu plantão é noturno, quando estou de folga, ela diz que não tem medo, porque papai conversa com eles, os defuntos, e os manda embora. Para ela, eu sou um super-homem. Irene me observa com o corpo apoiado na parede. “Acabou o plantão? ”, “Não”. Meu “não” seco, que se diluiu quando ela me abraçou com seu corpo cheirando à sabão. Sem perfume, sem creme. Apenas sabonete. “Não estou fedendo à defunto? ”, “Está”… ela ri, uma risada de deboche, ao qual na minha seriedade, eu, homem taciturno, sempre amei, porque é esse deboche que destrói toda minha carcaça. E ela me abraça, me leva para o quarto, segurando minhas mãos. Ela sabe que eu estou cansado, mas eu olho para ela com meu olhar de homem cansado, mas sedento por aquele corpo quente imperfeito que eu tanto amo. Ela envelheceu, já tem rugas de expressão naquele rosto, mas ela nunca perdeu a essência peculiar que eu tanto neguei que amava. Fiquei escondido, mas sempre por perto, mas abri mão do meu orgulho, do meu pessimismo, da minha crença, de que somos feitos para estarmos sozinhos, mas no fundo, eu sabia que eu procurava uma mão que me acalentasse. E aquela criaturinha brava, teimosa, carregada de defeitos e qualidades, aquele ser humano que me arrasta para cama e me ama toda vez como se fosse última, descortinou meus olhos. E onde tinha apenas escuridão, fez-se luz. Me faço de difícil, “Acabei de comer, daqui 40 minutos tem velório”, “Foda-se”. E ela me cala, com a boca, com as coxas, com os seios.  Um dia ela me disse, que tal com o Deus Eleguá, eu levava a morte na nuca e a vida na cara. E era isso, uma das coisas que ela amava em mim. Minhas dualidades, a minha dúvida, minhas histórias com os defuntos, meus ossos do ofício. Ela é a água, ela é o vinho, ela é o pão. Uma mulher perfeita, àquela que me sorri com os olhos, e que me encarou no meu momento mais obscuro. Ela é a minha tempestade, o sol que me queima a pele. Fiquei olhando para ela enquanto vestia minha camisa. “Está amassada, tem outra no armário”. Dei-lhe um beijo na testa. Ela riu. “Por quê você está rindo? ”, “Agora você está cheirando à defunto e sexo”. E ela riu. Como sempre ria, a rainha do deboche. Fui para o chuveiro, mas não fui sozinho. Após o banho, vesti minha roupa de “Doutor dos defuntos”, olhei no relógio e vi que estava atrasado. Sorte que eu morava perto do velório. Em 5 minutos estaria lá. Já tinha ligação perdida no celular, respondi que estava a caminho. Beijei a testa de minha mulher e da minha criança. A cachorra levantou o focinho e abanou o rabo. Voltou a dormir. Ela está idosa. Eu sei que em breve, eu vou enterrá-la, num cemitério de cães, pois ainda não tive condições de comprar uma casa no campo, que eu tanto quero. Ela me acompanha há quinze anos. Desci as escadas, saí do prédio, o mendigo me cumprimentou de novo, e se cobriu. Ele disse que guardou metade do hambúrguer para mais tarde, pois ele não sabia quando iria comer de novo. Pensei de novo: “Deus é a criação humana”. Mas aí minha cabeça doeu e eu lembrei de eventos na minha vida que me fazem esquecer as indagações de Friedrich Wilhelm Nietzsche…

             Cheguei no velório, fiz uma oração antes de sair do carro. Crianças brincavam na praça em frente, afinal, são crianças e ainda não possuem noção de finitude. Para elas, a mentira de “papai foi fazer uma longa viagem” cola até o momento que se questionam que a “viagem” está deveras longa. As crianças com mais idade começam a questionar quando veem o ente querido com olhos fechados rodeados de flores. E vão ver que olhos não se abrem mais. Familiares se aglomeram ao redor do carro. A viúva desaba ao chão, consolada por outras mulheres. Os homens se reúnem ao redor do caixão e o carregam. A cena irá se repetir quando finalmente o caixão alcançar a cova. Quando eu perguntar se querem dar o último adeus antes de eu fechar a tampa do ataúde, a viúva, a mãe e o pai do cadáver, vão cair em prantos novamente. Quando a viúva se acalma, ela acaricia o rosto do esposo, bem cuidado com base e fluido embalsamador. Ela vai se aproximar e dizer: muito obrigada. É sempre assim. Um trabalho bem feito, ainda que em momentos de tristeza, é reconhecido. Após uma noite inteira de velório, ao qual me ausentei alguns momentos para buscar outros defuntos e preparar a sala de embalsamamento, eu volto ao velório e finalizo. Corpo enterrado, próximo defunto encaminhado para companheiros de profissão do turno do dia. Deixo o carro de defuntos na garagem da funerária, troco as roupas e vou para casa, atravessando o centro da cidade, com os prédios e suas janelas cheias de histórias, cheia de vida e cheia de morte. Toda a vida fervilhante do centro da cidade, cheirando à mijo, com gentes gritando muambas, pedindo dinheiro, fazendo dinheiro. Gentes de carro, gentes no ponto de ônibus, gentes vendendo fé, gentes sorrindo, gentes de olhos baixos, gentes tentando a sorte. Gentes que aos olhos e palavras de Eduardo Galeano, são como pequenas fogueirinhas, sendo que algumas são tão intensas que nos queimam. Gentes sofridas, gentes fodidas, gentes sagradas. Gentes que carregam nos ombros, cadáveres antigos, de antigas ambições. Gentes, super-homens, super-mulheres, que nos erros se tornam sub-humanos, mas que se erguem, numa força que me faz, de fato, desacreditar que Deus é a criação humana.

Neste conto ninguém morre

“E fica na paz no meio dos seus trinta anos, movendo-se sem desgosto nem tropeço, entre os cadáveres pavorosos de antigas ambições, das formas repulsivas de sonhos que se foram gastando sob a pressão distraída e constante de tantos milhares de pés inevitáveis.” (“Bem vindo Bob – Juan Carlos Onetti”)

Vai começar de novo. Eu vou abrir os olhos, olhar para o teto, ver as luzes da manhã batendo no meu corpo estirado na cama. Levantar tem sido uma súplica. Viver tem sido uma súplica. O que me faz permanecer aqui? Os livros empilhados na mesa ao lado da cama, preciso estudar, mas preciso pagar os boletos, alguns atrasados. E parece que o mundo vai desabar. Sinto uma pressão no peito, parece que o telhado da casa velha e alugada vai despencar. Apenas em mim. Apenas o meu telhado desaba neste momento. Eu sinto meus orifícios respiratórios sendo sufocados pela ação indireta de tijolo, concreto e telhas. De longe, meu gato me observa. O quão patética eu sou agora. São sete e meia da manhã e minha respiração está ofegante. A cachorra lambe meus pés. Neste momento, volta a ficar tudo bem. Eu me arrasto até o banheiro, numa comiseração que dói. Olho no espelho: é por pouco tempo. Vai passar filha. Vai passar… Não sei quem fala isso pra mim, sou eu mesmo ou quem anda comigo e eu não enxergo?

Vai passar filha. Vai passar filha…

Todos os dias de manhã espero o ônibus passar. Espero as horas passarem, espero as pessoas passarem por mim. Espero o sinal abrir, espero os olhares pousarem em mim, espero… Espero o amor passar. E sorrir, com os olhos.

Olhos delineados, boca nude. Finjo um sorriso, mas por dentro é tristeza. No íntimo estou cantando Nick Cave, e murmuro:

Well a girl’s gotta make ends meet… Even down jubilee street

Chego na “clínica”. Organizo as coisas, acendo incenso, peço paz, peço calma, peço perdão.
Vai passar filha.
A voz de novo. O quase choro. De novo. Engulo o meu coração e tento amar por dentro.
Vai passar filha.
Canto um ponto. Faço uma prece, faço um poema, faço notas mentais. Não faço amor.
Faz tempo.
Por alguns momentos passa.
Cliente chega. Eu o vejo chegar através da janela de vidro da frente da recepção. Estaciona o carro importado na frente. Adesivo de família feliz no carro.
Eu o recepciono. Ficar na recepção, cuidar da planilha, atender telefone, responder mensagens no Whatsapp faz as horas passarem um pouco mais rápido. Mas eu também faço massagem, eu me apresento…
Olá, eu sou a Bee. Aceita uma água ou um café?
Aí o desgraçado me olha como uma presa indefesa.
E eu gostaria de dopar o filho da puta e cometer um homicídio qualificado. Hediondo.
E se eles me escolhem, os levo até o quarto, aguardo o filho da puta tomar banho, ele deita, eu faço massagem. Procuro fazer o meu melhor e eu torço, pra eles sentirem prazer em silêncio. Mas dificilmente é assim.
Começa a tortura…

Que corpo lindo você tem – eles sempre dizem isso

Obrigada! – mas na verdade eu penso: Por favor, cale a boca.

E eles não param de falar enquanto faço massagem.

Querem saber da minha vida, onde eu moro, qual o meu nome verdadeiro, qual a minha idade, quando comecei a fazer massagem. Tentam criar intimidade para perguntar o clichê de sempre:

Você não faz nada diferente?

Diferente do quê?

Bem, diferente… Sabe? Um agrado… um presente…

Não, só faço massagem.

Nenhuma finalização diferente?

Não, finalização só manual.

Nem pagando a mais?

Não. Aqui é uma clínica de massagens, não um prostíbulo.

Mas as outras garotas fazem. Porque você não?

Eu não sou todo mundo.

Eles riem. Na minha cara. Bem na minha cara de idiota.

Eles riem.

Eu dou risada também. Mas é por escárnio. Porque eu penso em como gastaria meu réu primário com um filho da puta desse. Eu poderia estripá-lo com uma faca, arrancando-lhe os intestinos, amontoando as tripas ao lado do corpo, enquanto o desgraçado agoniza perdendo litros de sangue num pequeno corte na carótida, ou na femural. Seria lindo, o filho da puta pregador da boa moral e bons costumes, com foto da filha e da esposa na foto do whatsapp, mas pagando massagem e tentando final feliz com a infeliz aqui. O melhor final feliz seria o pau e as bolas ensaguentadas do desgraçado na minha mão,  e eu ficaria sacudindo elas no alto, pra ele olhar bem, porque a presa agora não é mais eu:

O JOGO VIROU QUERIDINHO.

Enquanto ele me olha com olhinhos misericordiosos, enquanto me chama de puta desgraçada sem eu ser uma puta, o sangue tinge a sala zen com imagens de buda e cheiro de incenso de sândalo e dama da noite. Mais alguns minutos e o sangue começa a oxidar. Um cheiro de ferrugem com incenso barato toma conta da sala.

Você não queria um final feliz? O final feliz, o oral que ele tanto pediu aconteceu! Eu faria o desgraçado engolir o próprio pau. A perícia ia encontrar o infeliz num mar de sangue, com o próprio pau na boca, com as tripas ao lado do corpo. Iria virar aquelas histórias tragicômicas que os policiais contam nos corredores da delegacia:

Nossa, esse caso foi muito legal. Homicídio numa clínica de massagem!

E o policial contador do caso vai fazer o sinal de aspas quando falar “clínica”. Os outros policiais vão rir. Eles entenderão a “referência”. Até porque policiais adoram tirar o stress do dia a dia nessas “clínicas”. Aí o policial prepara todo o clima para soltar essa:

A puta não quis fazer final feliz, cliente disse desaforo, a puta ficou “puta” de verdade e matou o cara.

kkkkkkkkk a puta ficou puta…

E todos darão risada.

E a puta que ficou puta? Pegaram ela?

Sim, a puta se entregou.

Sim, EU me entreguei.

Esperei na sala, sentada no sofá chique vermelho, pernas cruzadas, balançando um copo de uísque sem gelo, brindando a minha desgraça, numa tranquilidade que dói.

Mas isso é só imaginação. Continuo massageando o cara pelado no tatame que não cansa de me elogiar na tentativa de ter final feliz.

Mas eu só quero sair dali. Termino massageando o pau e o períneo do infeliz, que treme e geme, enquanto eu penso o quanto ele gritaria de dor se eu arrancasse aquele pau com uma faca em forma de gancho. Eu poderia esconder a faca embaixo do tatame. Mas não… ao final, eles gozam, botam um sorriso na cara…

E no final eles me agradecem… Eles gozam, eles tremem, eles gemem, e a cada “obrigado”, eles roubam um pedaço da minha alma.

Ahhhh se me esposa soubesse fazer isso… Ahhh, se você fosse minha namorada, eu casava.

Mentira. Pra vocês, eu sou uma puta. Uma mulher pra não ser apresentada pra família, uma mulher pra não sair de mãos dadas na rua. Afinal, não sou massagista, sou puta.

O que vocês querem é uma dama na sociedade e uma puta na cama. Não uma puta na sociedade e uma puta na cama.

Irônico né?

Enquanto o cara está no banho relaxando com a gozada, eu conto quantos cretinos possíveis cadáveres eu preciso massagear na semana para poder pagar meu aluguel. Quantos sorrisos falsos eu preciso distribuir para tentar seduzi-los? Será que eu vou conseguir seduzir alguém de novo querendo seduzir de verdade, com olhos, coração, corpo e espírito? Engulo meu coração, engulo o choro e tento me amar por dentro.

No intervalo, mando currículos. Pra voltar a ser “normal”. Uma dama na sociedade.

Preciso sair dessa para não enlouquecer.

Aluguel atrasado. Boleto da faculdade atrasado. Contas atrasadas, nome no Serasa.

De repente tudo desabou. Demissão, eu sem chão. Mercado competitivo, perder tudo ou continuar?

Eu já transpareço que estar ali é um suplício. Estar ali é quase uma tortura. Fico três dias sem conseguir atender cliente. Meu sorriso falso na cara já me entrega. As contas se atrasando, a vergonha tomando conta. é por tempo curto. Voltarei a ser uma “mulher normal”, e não uma massagista, uma personagem.

Vai passar filha. Vai passar… Tudo na vida é aprendizado.

Essa é a voz que eu ouço quando engulo o choro.

Cada cliente, cada toque, é um pedaço da minha alma que se quebra, em milhões de pedaços. Eu carrego os cacos e tento de novo. Na falsa paz dos meus trinta anos, sigo tropeçando, construindo de novo e de novo um vitral que se partiu em pedaços.

Vai passar filha. Vai passar. Uma oração, um prece, um ponto, um poema mental, uma canção.

Eu sei, vai passar. Arrumarei um emprego num escritório novamente, mas, futuramente, ainda carregarei nas costas, os cadáveres pavorosos de cada homem que massageei em troca de dinheiro. Meus cadáveres pavorosos, a pisarem no meu corpo, com os pés secos, pesados, a pressão constante, dezenas de pés me pisoteando como um animal hediondo.

Cada homem uma nova possibilidade de cometer meu primeiro crime. Já pensei em vários. Cada dia que passa, saio ilesa.

Todo dia uma oportunidade de perder o réu primário.

Você é muito linda

Obrigada

Você ainda vai transar comigo.

Não, não vou.

Passa uns minutos e o desgraçado desaba, dopado por mim, silenciosamente. E eu mato o filho da mãe com requintes de crueldade. Fico ao lado do corpo peludo do velho industriário nojento que insistia pra eu transar com ele. Ele morreu com os olhos bem abertos, espumando sangue porque ele ainda estava respirando quando eu cortei a garganta dele. Depois de morto eu ainda continuo olhando para os olhos dele e eu não sinto dó nenhuma. Olhos esbugalhados, implorando, suplicando pela vida. E eu ali, sem emoção, sem dó, sem piedade. Quando eu entro ali, eu deixo de lado todo o sentimento que eu ainda tenho. Ali eu sou apenas um corpo vazio que toca outros corpos em troca de dinheiro. Ali eu sou apenas um objeto. Vazio e gelado.

Mas o velho peludo e rico ainda está vivo. Falando sem parar, elogiando o meu corpo e pedindo coisas nojentas. Eu o matei em pensamento. E ele goza feito um porco. Eu tiro minhas luvas com nojo. Me recuso a fazer massagem íntima nesses desgraçados sem luva.

Mas você não faz programa? Pô nem um beijinho? Nem um agrado?

Meu agrado seria um golpe com a estátua de buda bem nas têmporas. Nessas clínicas eles colocam a imagem de buda para quebrar a estigma de “massacanagem”. As massagistas são terapeutas. Eu sou uma ótima terapeuta assassina e sádica. Vontade de matar, cada um deles, e contemplar a vingança ouvindo música brega relaxante, enquanto espero a polícia chegar.

Ninguém morre.

Ninguém morreu.

Ninguém morrerá.

Eu não mato.

Neste conto não morre ninguém.

Eu que morro, aos poucos.

Sabe? São os cadáveres pavorosos, que me matam aos poucos. Os cadáveres que eu gostaria de ter criado, dia após dia, toque após toque, gozo após gozo, elogio após elogio.

Minha cabeça dói. Meus ouvidos estão surdos, porque eu coloco a música no fone de ouvido em altos decibéis. Apenas para calar meus gritos. Faz 1 semana que pingo Cerumin no ouvido. E não passa. E eu sei a razão. Só vai passar quando eu acordar desse pesadelo. Da janela do ônibus eu tento silenciar meus gritos. Mas mesmo assim, eles estão me deixando surda. Mas tenho fé, que os cadáveres pavorosos dos homens que não matei, serão apenas alguns fantasmas vivos, andando na rua, com seus carros importados, com suas esposas dondocas e filhos mimados.

Vai passar filha.

Vai passar…

A cada dia quero gastar meu réu primário.

Crime hediondo.

Vai passar filha… Vai passar.

E eu rezo pra São Jorge

Vai passar filha…

E eu rezo para os anjos

Vai passar filha.

E eu atravesso a rua, de noite, voltando pra casa, carregando meus falsos fantasmas.

Mas…

Vai passar filha.

Todos os dias ergo minhas mãos aos céus.

Vai passar filha.

Deito meu corpo cansado, depois de um banho demorado, com a tentativa torpe de ter um abraço acolhedor ainda que seja apenas o meu próprio abraço, em pé, mas encolhida como um feto, mesmo que em metáfora. Seco-me, sento na beirada da cama. A cachorra lambe meus pés e pede carinho. O cansaço vem, eu me deito. Faço minha oração.

Seguro forte em minhas guias. E eu escuto:

Vai passar filha.

E adormeço.

E amanhã, serão apenas cadáveres.

Pavorosos.

Hediondos

Me pisoteando.

Inevitáveis.

Mas…

Vai passar filha.

Chen Yifei 11

Pintura de Chen Yifei, artista chinês.

 

Misofonia

Alessandra era linda. Compreensiva, dona de um rosto e corpo de medidas perfeitas. Além de tudo, era extremamente inteligente. Mas Alessandra tinha um problema. Ela comia de boca aberta, fazia barulho para sorver sopa e demais líquidos quentes e isso era o que eu mais odiava na vida. Meu pesadelo era levá-la ao cinema ou ao parque, pois ela comia pipoca, amendoim ou chips de uma maneira absurdamente irritantes. Mas não pense, meus caros, que isso sempre foi assim. A viborazinha me enganou!

Eu sempre saí para comer sozinho. Até mesmo em confraternizações em família, eu fazia apenas a social. Quando começavam a fartar os pratos de comida, eu me retirava para o meu quarto, longe de todo tipo de barulho que envolvesse bocas mastigando. Eu só me alimento usando fone de ouvido, pois o barulho de minha própria boca mastigando também me irrita. Passei por 4 psicólogas. Nenhuma resolveu o meu problema. Aprendi, à meu modo, a lidar com o meu próprio fardo.

Quando eu saía com alguma garota, eu convidava para jantar ou ir ao cinema. Se fizesse barulho para comer, eu dispensava. Dava um belo de um “perdido”, como diz meu sobrinho de 18 anos. Flertar e testar mastigações femininas e um era exercício de alta tortura, mas chegou uma hora ao qual eu cansei de me masturbar no banheiro vendo vídeos pornôs no celular. Pornô no mudo. Barulho de sexo oral também me irritava, afinal eram bocas quase engolindo outras coisas. Quando eu fazia sexo, era sempre com som alto. Usar fone de ouvido poderia ser ofensivo. Eu sou, acima de tudo, um gentleman.

Bom, eu estava falando da Alessandra. Ahhh a Alessandra, essa dissimulada ao qual eu me casei. Na minha concepção, uma verdadeira dama jamais faz barulho para comer. E nada de amendoim (em pasta pode, desde que puro, sem torradas, pois fazem “crec”), batatas chips, mandiopã, massa folheada entre outros… Poderia ser a mulher mais linda, meu coração se partia em pedaços. Mas Alessandra… Ahhh!!! A vadia era mestra. Ela soube disfarçar. Revelou sua verdadeira deglutinação após 1 ano de casamento!

Mas eu resolvi… Afinal, eu amo muito Alessandra.

Um belo dia, inventei que eu teria de trabalhar até mais tarde. Comprei capuz, máscara, luvas e um revólver de brinquedo. Invadi minha própria casa, simulei um assalto. No primeiro grito de desespero, eu a ataquei, Quebrei-lhe o maxilar e abri um ângulo de 90 graus esgarçando-lhe os maxilares daquele rostinho tão lindo. Hoje ela se alimenta via sonda e eu sempre seguro suas mãozinhas bem-feitas e delicadas enquanto uma mistura pastosa e bege entra pelas narinas.

Um dia normal

“Sobre aquilo que nada pode ser dito, devemos manter o silêncio.” (Wittgenstein)

Acordei cedo. Fiz o café, esfreguei a cara amassada, analisei meu rosto enrugado e cansado no espelho do banheiro. Olhei para a cama que refletia no espalho ao fundo, Lilly estava estirada na cama com seu pijama velho e furado. O gato lambia as patinhas freneticamente, numa perfeição meticulosa que doía. Entre uma lambida e outra, o gato me encarava: provavelmente ele estava me julgando. Abri o registro do chuveiro, esperei uma coluna de vapor tomar conta do banheiro. Tomei um banho escaldante, como se eu estivesse sentindo a pele caindo ao chão em pedaços. Lilly deixou a camisa e a calça impecavelmente  passada e pendurada no cabideiro. Eu amo o perfeccionismo dela, e ela ama o meu silêncio e ausências. No fundo, ela sabe que eu sou o homem que na ausência foi o mais presente na vida dela. Depois da roupa vestida, barba asseada, peguei as chaves do carro, coloquei um sorriso falso de gratidão na cara e segui em direção ao trabalho.

Cheguei ao escritório, cumprimentei à todos. Talvez, por mera educação. Meu pai sempre me ensinou que por mais vontade que temos de socar a cara de certos indivíduos, a cordialidade sempre tem de vir acima do rancor. Depois de alguns tapinhas hipócritas nas costas, sentei em minha grande mesa e fiz um check-in nos e-mails importantes. Depois, visualizei algumas mensagens nos grupos de Whatsapp. Filtrei apenas aquilo que me interessava. Meu chefe pediu a última projeção. Atualizei os dados, refiz alguns cálculos, relatório salvo e entregue, ao qual minutos depois pula uma mensagem de notificação: “Ótimo”. Depois, ele me avisou que eu iria acompanhá-lo no chão de fábrica para verificar de perto se a projeção será alcançada. 5000 travesseiros teriam de estar prontos e na expedição até às 17h00. Eu respondi: “OK”, seguido de um emoticon “joinha” ao qual eu odeio com todas as minhas forças. Na minha mesa, estava sorrindo, mas por dentro eu estava com ódio. Mas meu pai sempre dizia: é preciso ser gentil, sempre.

Quando bate 09h30 no relógio, religiosamente eu tomo meu sagrado café com 4 gotas de adoçante e um pão com manteiga. Tomo na varanda da cafeteria da firma, que fica de frente para uma garagem. A empresa fica perto da rodovia. Da varanda eu consigo ver os carros, caminhões, motos e ônibus correndo na rodovia, nos dois sentidos. Do outro lado da rodovia, dá pra ver um muro cinza, pichado com letras estranhas. “É um grafite”, disse uma amiga minha, quando eu tentei entender o que estava escrito ali. Ela também não entendia, mas ela respondia sempre: “é um grafite, é arte”. Atrás do muro, há uma árvore com poucas folhas. Acredito que a árvore está morrendo, ou que já esteja morta há tempos, com folhas secas que teimam em não cair. No meio disso tudo, fios emaranhados, postes e pássaros. Nada de novo, mas eu sempre me sento de frente para a rodovia e o muro, analisando as mesmas coisas. Rotina, sempre a tenha se não queres enlouquecer.

Um carro preto luxuoso, 4 portas, vidros escuros parou no meio fio da calçada do muro.Estacionou. Ficou um tempo parado. O motorista provavelmente deveria estar olhando algo no celular. A emergência de responder algo na hora nos enlouqueceu. Diante de tanta aproximação, ficamos cada vez mais distantes. Tudo é virtual, tudo é falso, beijos e palavras vazias. O motorista saiu do carro, aparentemente estava nervoso. Do lado do passageiro saiu uma mulher loira muito bonita. Os dois, ainda que na distância, aparentavam ser muito bonitos e imponentes. Mas isso não importa, o que importava naquele momento, eram os meus goles de café e a cena toda. A Mulher gesticulava, levava as mãos em prantos ao rosto. O Homem gesticulava, meio que implorava, quase querendo se ajoelhar. Só estava eu na varanda da cafeteria, e hoje eu fiquei mais tempo que o normal. Aquela cena me intrigou, só existia aquela paisagem ali, aquela rua paralela ao muro e a rodovia com motoristas concentrados demais mais para ver a discussão que estava ficando cada vez mais intensa. A Mulher foi se exaltando, encostou no muro, continuou gesticulando, numa cena digna de pena. O Homem estava próximo do carro, apoiava a cabeça nas mãos, em cima do capô do carro. De repente ouço três barulhos seguidos, que quase foram abafados pelo barulho dos carros na pista. O Homem entrou no carro e saiu na calmaria. Olhei para o muro. Algumas letras do grafite estavam escarlate. Tinha uma mancha vermelha bem no cinza. Sangue quente, pedaços de massa encefálica explodidas no muro. Eu estava longe, mas tenho certeza que era uma sujeira igual era nos filmes de assassinatos. Três tiros na cabeça. O carro preto estava descendo a rua, passando por baixo da ponte ao qual passa a rodovia. Ele passou ao lado da firma, o vidro do carro estava aberto, eu estava ainda na varanda, meio petrificado, meio extasiado. Ele, o assassino, olhou pra mim, eu olhei pra ele. Ele sorriu, eu também. Agora eu e aquele homem temos um segredo. Eu não anotei a placa. Tudo tem um motivo, uma razão. Terminei meu café. Levei o prato e a xícara para a garçonete, que ela loira igual a mulher executada. Agradeci: “Tenha um bom dia!”. Seja cordial. SEMPRE. Seja gentil. SEMPRE. Guarde seus segredos e silêncios. SEMPRE.

Três tiros. SEMPRE. Que é pra garantir. Foi isso que eu aprendi hoje.

Stains on the memory

Não se discute. O silêncio perante uma série de discussões sem razão na noite de domingo, enquanto a televisão vomitava seu lixo indigesto. Fui picando uma folha de papel abandonada na escrivaninha da sala. Enquanto as pessoas riam das desgraças alheias e alguns tinham sorrisos incontidos dentro das calças. Cada pedaço de folha branca rasgado às mínguas, papéis sem importância, despedaçados. Sinto o vinho dilacerar a alma como se quisesse me cortar em pedaços. Minutos antes, eu ouvia o tilintar de copos, garfos, facas, bocas se mexendo, comida sendo mastigada. Mais um pouco de percepção, eu poderia ouvir a comida caindo no estômago e o barulho do ácido gástrico queimando o pedaço de carne ao molho madeira sendo destruído. E as bactérias dos intestinos alheios fazendo festa. Era só mais um pouco para escutar a festa torpe de todos os humores da sala e os mesquinhos pensamentos de uma vida vazia e sem pretensões. Era só mais um copo de vinho, para adormecer com a cara na mesa, e em sonhos desconexos eu ver os rostos das pessoas que eu mais amei, misturando-se em desenhos e manchas de paredes. Eu acordei, com uma cara embasbacada, amassada, assustada com os olhares alheios de quem disse que eu falava sozinho. O jornal noturno passando na televisão, a desgraça do acidente de caminhão com engavetamento, “Morreram todos, que desgraça, que desastre”, “Morreram todos”, “O motorista estava bêbado”… E aqueles olhares perdidos, balbuciando que eu perdi a programação de domingo, como se eu realmente me importasse com aquilo tudo. E a garrafa de vinho quase vazia com seu conteúdo vermelho me ditando as desgraças e os sentimentos desentendidos do mundo. No dever de esvazia-la, lanço meu copo a toda sorte de calor e bem aventurança, a toda sorte de acordar no dia seguinte com a ressaca me questionando os porquês, com aquela dor de cabeça gritando aos quatro ventos, e os olhares de reprovação, com o zíper da calça aberto, com os botões da camisa aberto, toda em desalinho.  A barba por fazer, “como um irresponsável”, diz a minha falecida avó. A empregada perguntando se eu quero um copo de café, e eu apenas querendo fazer uma pequena festa entre o meio das pernas dela. O café quente e forte… Posso sentir o cheiro de sabonete exalando do pedaço de pele me servindo, mas eu gosto mais do cheiro do final do dia, aquele suor, misturado com o desespero de querer voltar para casa. Eu poderia espiar a sua nudez no banheiro, ao tirar as roupas velhas de trabalho, mas minha cabeça dói demais, e a cada gole de café eu me lembro daqueles tempos de menino, em que as meninas impúberes iam para escola e em suas camisetinhas brancas eu via a ponta dura dos mamilos ainda em formação. Apenas menininhas, menininhas em hormônios a festejar, me olhavam com desejo, eu sei, mas a garota Suzy… Ahhh Suzy! A única que me deixou ir além. Eu me recordo ainda hoje, aquele beijo molhado e desajeitado, aos meus treze anos, encostado na mureta, longe de olhares. Atrevi-me, e senti aqueles peitos macios escondidos por trás de um sutiã de algodão, e aquela pressão, aquela coisa, o desespero de achar o local certo ao colocar meu tímido e desajeitado pau no meio daquelas roliças pernas de Suzy. A empregada aparece de novo, fazendo contato, o braço dela perto do meu, e sem perguntar se eu desejava mais café, encheu minha xícara, e aqueles braços, aquele perfume. Um dia me apaixonei pelos braços da vizinha. Estava na soleira da porta de casa, numa mágoa adolescente, vi aquela senhora balzaquiana chegando com sacolas pesadas. Pude ver todos aqueles tendões e veias saltadas. Ofereci ajuda, carreguei algumas sacolas. Ganhei biscoitos e chocolate quente. Ela me falava da vida, enquanto amassava a massa do pão. Aquela penugem rala dos pelos, embranquecida com a farinha, e o movimento sublime dela lavando os braços, embaixo da água fria da pia da cozinha, e aquele olhar de que sabia que eu a desejava, mas eu queria apenas amar aqueles braços, aqueles tendões, aquela brancura, a extensão para as mãos cujos dedos finos ela lambia para experimentar a massa de bolos que ela achava que me agradava. E ela achava, ela achava que eu frequentava a casa dela por causa de biscoitos e doces. Eu era apenas um adolescente inocente, apaixonado pelos braços. O tempo passou, os amores vieram, e também se foram, e hoje, eu sou apenas um homem em devaneios de ressaca aquecendo a garganta e a alma com café amargo. A empregada me dá um sorriso, faço-me por desentendido, pego mais café e sento no sofá da sala. E fico ali, olhando para o teto pintado de um verde ridículo. Queria estar louco o suficiente para ver aquelas manchas dançando na parede, aquele mofo formando imagens desconexas, e minha mente voando em um turbilhão de luxúria, corpos ensandecidos como vermes, se misturando, tocando-se, em delírio de gemidos, dor e inconsciência. Mamãe me disse que eu era um doente sacana. Eu sou apenas um homem, que vivia constantemente em uma ressaca quase cigana, de bar em bar, após o trabalho, afogando minhas mágoas e desdém do mundo rançoso. As corporações. Eu poderia escrever um poema sujo e deslavado sobre elas. As pessoas, tão mesquinhas, falsas, a diretoria que nada sabe, as pessoas puxa-saco, lambe-saco, chupa-rolas. É como um prazer desnorteado, insano. Queria dar um tiro de fuzil em cada uma delas. Toda aquela frescura, aquela imundície. E o salário de merda todo final do mês, que minha mãe dizia “Ahhh o dinheiro abençoado”, só se for abençoada pela total falta de amor, todo o ódio dos sorrisinhos alheios das minhas companheiras de trabalho, toda falta de amor, mas excesso de tesão daquela recepcionista que me pedia aos gritos para que eu a levasse  ao delírio. Ela tinha uma bela bunda, peitos macios, mas uma boca que exalava esgoto. Eu a amava, desde que ela fosse como um vinho. Eu a amava, mantendo-a na horizontal, com a boca ocupada. Não é machismo meu caro amigo… Certas mulheres devem ser mantidas na horizontal, com uma rolha na boca, tal como o vinho, entende? Ouço seus pensamentos agora, exclamando “Machista de merda, desgraçado”. Pouco me importo, a sinceridade incomoda, o Amor incomoda.  O amor anda junto com o fracasso. Sentado nesta sala, vejo a empregada limpando o armário. Dá pra ver as marcas da calcinha cavada. Ela me solta outro sorriso sacana. Eu poderia amar essa mulher, essa mulher pode sentir algo por mim, ou apenas achar que eu posso dar-lhe uma boa vida. Estou suando… Suando como um porco, está calor lá fora, ela me diz… E olha para minha camisa suada. Diz que Dona Alzira, minha mãe, saiu. E as manchas na parede parecem estar sorrindo agora, e aquela calcinha cavada também me faz um sorriso. Ela está começando a ter aquele cheiro que eu gosto tanto. Eu poderia consumar o ato no sofá da sala. Tranco-me no quarto, e coloco-me a fitar os lençóis brancos chacoalharem no varal. Aquilo me acalma, por alguns momentos. Aquele desespero sufocante, me atiçando, crescendo e inflando minhas calças, e aqueles braços, o cheiro de café e sabonete, as roupas, os lençóis, a brisa plena da manhã das dez horas, o latido do cachorro, o olhar de desaprovação do gato no galho de árvore. Livre-me, livra-me ó Deus tolo… Dos pecados que me atormentam a alma. Livra-me da vontade de fazer cócegas e desejos molhados na pele daquela mulher. Livra-me de minha mãe dizendo que eu sou um vadio. Eu poderia desertar, me divertir em braços de prostitutas com gonorreia, o amor sufocado e contagioso que eu tanto preciso. Copos de conhaque,cigarros paraguaios, apostas que nunca findam, o dinheiro sujo me dando o poder que eu, um tolo, vulgar e sedento, tanto preciso. Ao final da noite e ao amanhecer satisfaço minhas vontades em uma mulher que eu não sei ou não me recordo o nome. Darei um beijo naqueles ombros, e a mandarei queimar no inferno. Encontro-lhe mais tarde, meu pedaço de prazer, acariciando suavemente teu íntimo, queimando em labaredas a lhe dizer um milhão de sacanagens ao pé da orelha. E eu vejo todas elas, as mulheres que eu amei, e as que eu fingi que amei, indo embora, com um sorriso no rosto, achando que eu realmente voltaria… Eu era… Minha amada, EU sou apenas um garotinho perdido, na soleira da minha porta, em sonhos, em devaneios, aquela falta de sorte regada com o desespero de ter beijos sórdidos todas as noites, de tomar um café ou tomar um vinho sem pensar no meu próprio desespero. Vou deitar nesta cama, cobrir-me com estes lençóis brancos, deitarei nu, com meu sexo totalmente ereto e livre de pudor, deixarei que a brisa noturna me leve todos os meus medos e desencantos. Abra a porta e me veja, contemplando o vazio, como se todas as estrelas do céu viessem me saudar. A velha garrafa jogada ao pé da cama. Entre conhaque, vinho e cigarros, sou apenas um garoto perfeito, uma explosão de vozes e loucura que nunca acaba. Sou apenas uma carícia infindável, aquela carícia que lhe deixa marcas. Eu sou apenas um homem minha querida, carregado nos ombros do pai e da mãe, carregado de sonhos de ir e vir.

 

(TEXTO ESCRITO EM 2013)

 

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A crônica de corpos – O Bicho Humano

Capítulo I

“O bicho humano, fodido, mas sagrado” – Eduardo Galeano

Cinco horas da manhã. Estou estirado na cama depois de uma noite estranha com um misto de frio e calor. Sabe? A noite bipolar? Aquela que primeiro te esquenta, depois te congela. Por hora, me cubro até a cabeça com meu cobertor, outra, estou quase nu, apenas com os pés cobertos. O gato, Fred, dorme ao meu lado abrindo e fechando os olhos amarelos a cada movimento que eu faço. Apenas eu e Fred. Irene me abandonou, por causa de minhas neuras infindáveis. Ao lado da cama, ficou um abismo escuro e fundo, um espaço incompreendido lotado de saudade e cheiro de jasmim. O perfume de jasmim que eu sempre presenteei Irene repousa na cabeceira da cama, precisamente ao lado esquerdo. Todos os dias, antes de dormir, eu borrifo três vezes nos lençóis e no travesseiro. Eu sei. Isso é patético. Não existe nada mais patético do que um homem com saudades. Devaneios à parte, fico deitado olhando para o teto, o ventilador está girando espalhando bafo quente de homem suado e pelos de gato. Fred saiu do meu lado, foi em direção à porta da varanda, do meu apartamento pequeno, porém confortável, arrumado numa perfeição que dói.

Fred está parado, olhando fixamente para a varanda por trás da porta de correr de vidro. Ele está com olhinhos afoitos. Olha pra mim, miando pede para sair. Chega na beirada da cama, se estica e esfrega a cabeça no meu braço estirado…

O que tem ali Fred? Quer que eu abra a porta né?

Estou tentando lidar com minhas centenas de neuroses. Nada nem ninguém vai entrar pela varanda do décimo quinto andar. Eu sempre acho que um dia meu algoz entrará pela varanda e me matará enquanto eu durmo, colocando as mãos funestas no meu pescoço depois de envenenar meu gato com bolas de peixe recheadas com chumbinho. Vou ser estrangulo de forma rápida e silenciosa, sem nem ao menos dar tempo de eu pegar minha Magnum automática na cabeceira da cama e mandar o meu pretensioso assassino ou assassina para os quintos dos infernos. Minha visão vai escurecer aos poucos enquanto meu pescoço é apertado, verei borrões, amaldiçoarei minha vida e as pessoas que eu amei. Enquanto isso, os órgãos de Fred vão ser liquefeitos com a ação do veneno. Após me matarem, tenho certeza que irei direto para o inferno. Será? Será? Será?

Será que o inferno existe mesmo, será que o Inferno é esse mundo que vivemos agora, eu, você… Uma punição de Deus sabe quem… Deus, Deus… Deaux… Olho para o lado, o gato continua ensandecido, agora arranhando as patinhas no vidro da porta. Sento na beirada da cama, esfrego a cara, os olhos, bocejo, dou uma coçada nas bolas e observo Fred novamente…

“Fred… O que tem aí Fred? Não existem ratos aqui!”

O último, Irene matou com uma vassourada. Era do vizinho, que tinha um criação de ratos e eles proliferaram pelo condomínio. Irene foi tremendo, feito vara verde, matou o rato. Paaaaaaaaa… o rato agonizando e aqueles olhinhos de misericórdia. Ela ficou chorosa a semana toda por causa de um mísero rato. Eu matei vários no biotério da faculdade. Era bom aquele tempo. Os cadáveres eram apenas corpos destinados à estudos, coelhos e ratos.

Cheguei perto da varanda, acendi a luz. Era um pássaro, um pássaro agonizando, batendo as asas, cada vez de forma mais lenta. Passei cinco minutos observando a cena, até que o bater das asas cessou. A primeira Morte. O primeiro cadáver do dia.

“Nada de novo Fred! Nada de novo!”

Abri a porta, Fred me seguiu, parou ao lado do pássaro. Eu peguei aquele pequeno cadáver cheio de penas e atirei pela janela. O cadáver caiu no gramado do jardim de inverno do primeiro andar.

“Não fique chateado Fred! Quando eu enlouquecer de vez, comprarei uma casinha no campo pra nós e você vai poder caçar muitos passarinhos.”

Caminhei até a cozinha, bebi o primeiro copo d’água e tomei meu coquetel de vitaminas. Arrastei meu corpo até o banho, um banho bem quente. Olhei para o espelho, que estava embaçando aos poucos com o vapor. Encarei minhas olheiras… Malditos plantões…

12, 36… 48 horas e eu já não sei mais a qual mundo eu pertenço. Era isso que Irene me dizia. Que eu não falava nada com nada pós plantões extensos. Desde que nós largamos, eu enfrento cada plantão como uma facada no peito, nessa minha falsa paz dos trinta e poucos anos. Creio que já tenho 34 anos. Sabe? Parei de contar os anos. Só conto as balas da minha pistola, só conto projéteis, facadas, larvas e insetos em cadáveres. Quanto às balas, ainda permanecem intactas. Não precisei usar. Ainda…

A água quente cai no meu corpo como um bálsamo. É aquele momento que eu me recordo o quão bom é estar vivo. É isso cara! É isso. E o júbilo vem. E vem a lembrança de Irene nua, com os pequenos seios duros, fazendo graça, jogando água na minha cara. Meu pau fica duro. Ainda mais. Preciso aliviar, porque chega a doer. Dói. Como dói. Miro em todas as paredes do box. Com louvor, com comiseração. Uma vez li um livro ao qual o personagem perdeu a esposa, trancou-se no quarto, juntou todas as fotografias dela e passou o dia inteiro batendo punheta e esporrando nas fotografias. Cara doente… Eu pego o chuveirinho e lavo o box. Lavo a porra toda sabe? Nojento isso cara… E se for visita em casa? Vão achar que eu sou um tarado… mas faz tempo… que não vai visita em casa. Sou praticamente um solitário na selva de pedra.

Após o banho e gozo sagrado, coloco minhas vestes, o clássico jeans, camiseta preta lisa, meio larga para disfarçar a pistola na cintura, distintivo pendurado no peito, do lado de dentro. Pego meu moletom com capuz, vestirei quando descer do carro. Pego as chaves do carro, me despeço de Fred, que está a lamber as patinhas. Há um “q” de ódio felino no olhar. Deve ser porque eu atirei o pássaro pela janela. Ele não quis se esfregar nas minhas pernas. Ele sempre fazia isso, antes de eu sair. Mas não dessa vez. Irene também fazia isso. Quando ela estava brava comiga, ela me evitava. Não me beijava, não me tocava. Ela se transformava numa esfinge. Isso pra mim era um tapa na cara com luvas de pelica. Ela ficava em silêncio, sentada na poltrona, olhando fixamente para a minha pistola em cima da mesa. Quantas vezes ela, em seu silêncio, tentou me matar?

Desci pelo elevador, cheguei na garagem, entrei no carro e segui pela selva de pedra. Deixo meu carro no estacionamento, meio longe da delegacia. Vou à pé até o trabalho, no meio do povo, um anônimo, observando os corpos, que passam, que gritam, que exalam cheiros, desejos, pudores. Se tocam, se xingam, fluídos, cuspe, escarro, merda, urina. Muitos eu já encontrei no fim da jornada… O final da jornada deles não tem hora certa para acontecer.

“E aí Doutor! Como está! Como foi tua folga?”

“Estou revigorado agora Luis! Praticamente novo!” – (mentira, estou exausto)

Luís é o guarda do estacionamento ao qual largo meu carro. Trabalha lá desde o meu primeiro dia como policial. Ele me chama de Doutor. Eu não sou Doutor. Não estudei para ser Doutor. Tenho especializações, tenho mestrado… Mas estou longe de ser doutor. Mas pra ele, eu sou o cara, porque nas palavras dele, quem lida com defunto todo dia, tem que ser forte. E de fato… ele não está errado. Muitos deles, os cadáveres, me atormentam em silêncio, até hoje.

“Deus lhe acompanhe Doutor! Sei que é seu trabalho, mas espero que não matem ninguém hoje!”

Luis, todos os dias, durante dez anos, sempre me disse isso: “Deus lhe acompanhe Doutor!”

Eu não acredito muito em Deus, mas eu sempre respondo, como se fosse um ritual: ” Deus nos acompanhe Luis!”

Coloco meu moletom com capuz, meus fones de ouvido, mãos nos bolsos do moletão, distintivo escondido, arma presa na cintura, longe de vista. Sigo caminhando, atravessando multidões de gentes todos os dias. Sigo em direção ao terminal de ônibus, que sai num túnel cheio de ambulantes gritando mercadorias. De lá passo no centrão, e finalmente chego na delegacia.

Ao entrar no terminal, na faixa do meio ao qual o povo atravessa com pressa, sono e fome, o vendedor de feijões verdes sempre me oferecia dois canecos na promoção por seis reais. Eu apenas abanava a cabeça, sempre em negativa. Todo dia ele me oferecia, na ida e na volta. Nunca comprei. Nos cumprimentávamos sempre, e no olhar dele, tinha sempre a pergunta estampada:

“Quando esse maldito vai comprar feijões?”

Durante oito meses o rapaz chegava no terminal com a carriola de feijões verdes. Quando ele não estava no terminal, ele estava perto da galeria na avenida perto da guarda municipal. Sempre gritando: feijões frescooooooos.

Hoje, na ida, ele estava lá. Pochete na cintura, bermuda, sentado num pequeno banquinho, brincando com os pequenos feijões entre as mãos, gritando o anúncio.

Olhou pra mim, não disse nada. Apenas acenou.

No final da tarde, a jornada dele chegou ao fim.

Apagaram o cara. Execução nua e crua no meio do povo. Nome da vítima: Antônio César Sobral Villela, o Sobral. Eu tinha acabado de voltar de uma ocorrência crime sexual. Estupro. Mulher, jovem, 30 anos, abandonada num terreno baldio com um pedaço de madeira cheia de pregos enferrujados enfiada na vagina. Foi estuprada por mais de uma pessoa, evidências apontam quatro tipos de pegadas diferentes e o esperma também tinha diferentes texturas. Deixei as evidências no setor de provas, tomei uma água, um café e fui para o Terminal. O cadáver estava estirado no chão há quatro horas, aguardando perícia. Sabe como é…

Meu assistente estava nervoso, batendo as pernas na viatura, gesticulando enquanto segurava a prancheta.

“Multidão… Eu sempre odiei multidões. Aqui diz que mataram um vendedor ambulante de feijões no Terminal Central. Imagina o caos… Sabe como é… o espetáculo, o caos, os curiosos…

As velhas gritando: “Deus o tenha…. Misericórdia!”

Chegamos ao local, a cena porcamente isolada. Uma mulher estava roubando os feijões próximos à carriola, que aparentemente foi jogada. A poucos metros, o cadáver estava coberto com um pedaço de papelão segurado com pedras.

Respirei fundo, Coloquei um chiclete de menta a trabalhar na boca, pois de certa forma, me acalma. Multidões. Crimes no meio da multidão me dão desgosto e muito trabalho. Cenas porcamente isoladas. Crianças, mulheres, jovens, velhos, cachorros…

A mulher me viu parado ao lado dela, continuou roubando feijões, ao lado do defunto.

“Senhora, por favor, isso aqui é uma cena de crime, por favor, queira se retirar, pode ter sangue nesses feijões…”

“Preciso dar de comer para meus seis filhos. Você sabe o que é passar fome seu polícia? Sabe? Você sabe? Lavou tá novo! Entende? Você sabe? Sabe?”

Olhei para o policial militar que estava apenas olhando para o nada. Ele acordou pra vida e tirou a mulher de lá, pelos braços. Ela se juntou à multidão, segurando fortemente o saco de feijões, como se fosse um saco cheio de moedas de ouro. Me olhava com ódio:

“Você sabe seu polícia?”

Não. Não sei.

Olhei a cena, os feijões verdes espalhados na via, bem na faixa de pedestre do corredor de ônibus, na via central. Dois tiros à distância nas costas, um no flanco direito e um bem no meio da espinha. O assassino finalizou com um tiro encostado, na nuca.

“Chutaram os feijões dele Doutor. Que dó. Uma vez comprei dois canecos dele. Ele fez promoção, dois canecos por cinco. Levei para o meu pai, ele fez no fogão à lenha do rancho, com carne seca e costelinha de porco. Ele queria por coentro, mas coentro estraga as coisas.”

Lívia, fotógrafa técnico-policial tinha sempre algo muito relevante à dizer, ela sempre tentava, de uma forma até meio incorreta, deixar o ambiente um pouco alegre. Mas às vezes, Lívia falava por demais. Examinando os buracos percorridos pelo projétil, veio-me à cabeça o cheiro de feijão fresco, recém pronto, que minha mãe fazia todo sábado. Sempre me pego nas lembranças, que vão embora rápido, pois preciso ser o mais meticuloso possível. Parece sórdido, mas ao lembrar do cheiro de feijão fresco de minha mãe, brotou um sorriso alegre no meio da minha mastigação de menta. Maldita Livia!

Pagamento de dívida, ele era viciado, estava devendo na biqueira.

Era isso que a multidão dizia.

Deus o tenha

Misericórdia

Deus tenha piedade

Que morte horrível

No meio do povo

Eu saí correndo, o tiro quase me pegou

Que policial gato

Quando eu crescer quero ser CSI

Toda cena, toda multidão, um mundaréu de corpos vivos e falantes, amontoados, comendo pipocas invisíveis e brindando o caos e o sórdido. Velhas, velhos, homens, mulheres, adolescentes, crianças. Todos olhando nosso trabalho, tirando foto, dando palpite, rindo, chorando…

Valmires, agente do IML, me telefona dizendo que está com o rabecão cheio de defuntos, pois teve acidente de ônibus na estrada. Deixaria-os no IML e dentro de 30 minutos chegaria ao local.

Trinta minutos passaram, depois de duas horas e meia de perícia, finalizo meu trabalho. Ao longe, Ramires, com dificuldade tenta entrar no terminal. Depois, mais dificuldade para manobrar. Eu observava, a militar pedia para a multidão se afastar e parar de tirar fotos. A mulher da sacola de feijões roubados me cutucou o braço:

“O que vão fazer com os feijões?”

Ignorei, me afastei. Isso me mata. Aos poucos. Dou um riso. Por dentro, trágico, triste.

O ser humano… o bicho humano… Individualista… Arrogante… Fodido

Mas sagrado.

Deus te abençoe Doutor

É isso que diz o Luiz, todos os dias.

Os feijões À mesa, família, seis crianças comendo, afoitas.

Misericórdia

Deus a Tenha

Deus nos acompanhe

Valmires chegou, posicionou o rabecão, desceu com as luvas já calçadas,

E aí Doutor! Quantos feijões hein! Meu pai sempre fez esse feijão com carne de porco e coentro… Se não fosse o sangue, daria uma boa panelada né?

Valmires, junto com Caio, outro agente, abrem a porta do rabecão, e o fedor de defunto passado invade o local.

Deus o tenha

Misericórdia, que fedor

Deus tende piedade

Jesus Cristo

Como eles aguentam

Que horror…

Olho para os feijões espalhados no chão, vários deles manchados com sangue coagulado. Suspirei fundo, peguei minha maleta. Ao tentar sair da cena, a mulher dos feijões me cutucou de novo.

“Seu polícia, posso pegar os feijões?”

Eu apenas olhei, suspirei, pensei nos muitos laudos a fazer. Apenas olhei bem fundo nos olhos da pobre mulher.

Nada falei.

“Deus te abençoe e te acompanhe seu polícia!”

Entrei na viatura. Fiquei em silêncio observando os últimos trabalhos. Ao retirarem a fita de isolamento, o espetáculo continuou. Os feijões sendo colhidos um a um, como se fosse uma grande mesa de família, ao qual o pai ou a mãe escolhem os melhores feijões. Estava ali, a grande mesa, a grande irmandade, a fome, o desespero, um mundaréu de gentes, corpos vivos…

Uma grande mesa. O ser humano… o bicho humano, fodido… mas sagrado.

 

O Silêncio

Perante a cólera nada é mais conveniente do que o silêncio. (SAFO)

 

Cheguei exausto no ponto de ônibus. Ando completamente estressado, conversando alto com meus próprios silêncios. A ansiedade gritando, ferindo minha mente com prazos e resoluções estouradas. Todo som é uma tormenta, mas o médico com cara de personagem alucinado de desenho animado diz que o que eu tenho é apenas cansaço.

-Você precisa descansar Anderson! Tirar umas férias, namorar, fazer o que ama.

Namorar… NA-MO-RAR

Namorar me deixa ainda mais estressado porque eu sempre tenho de corresponder às expectativas de alguém e eu nunca sou ou serei bom ou bastante para elas. No máximo um cara bonito pra elas mostrarem para as amigas. Ao final, apenas sento na mesa, coço minha barba e fumo um cigarro vendo elas irem embora sem nunca mais voltar. Pratos de comida à mesa, taças vazias, um gozo na boca e outra nos orifícios e mando elas para o limbo do esquecimento, porque nunca vou ser o suficientemente bom pra elas, porque geralmente elas acham que eu sou O CARA.

Mas eu não sou.

Será que eu já fui? Fico perguntando. Lili dizia que eu era encantador. Passados alguns meses ela mudou de opinião e disse para meio mundo que eu fiz da vida dela um inferno e que ela não queria mais olhar na minha cara. Desde então eu deixei a barba crescer, assim ela não tem de olhar para a mesma cara quando nos cruzamos no corredor do fórum. Falando em pelos na cara, dizem que o homem fica mais bonito. De fato, apareceu mais mulheres na minha vida, mas a barba apenas garantiu mais corpos. O tempo era o mesmo, os motéis também, os vinhos, copos e talheres à mesa. Depois, o vazio.. Mas é bom coçar a barba enquanto eu fumo, pensando no que eu fiz de errado. Foram 10 minutos de caminhada do fórum ao ponto de ônibus. Nestes dez minutos eu pensei em tudo isso. Eu só queria silêncio. Eu poderia pensar nas táticas de meditação que minha terapeuta passou. Respira fundo, encher os pulmões, reter o ar pelo dobro de tempo que levou para aspirar o ar, soltar o ar neste mesmo tempo, depois fazer três hiperventilações. Eu fiz. Minha barriga doeu. Fiquei mais ansioso. Fui interrompido. Por uma criança gritando. As palavras de veludo da terapia, as recomendações da terapeuta foram cortadas pela voz estridente indisciplinada.

Acendi um cigarro. A menina continuava gritando. A dona da prole incitava a criança, que estava gritando com a vó que tentava falar ao celular, gesticulando para que a menina ficasse quieta.

– Ooooooooooooo vóoooooooooooooooooooooooooooo. Vóoooooooooooooooooooooooo

A mãe ria, achando engraçado ver a vó da criança irritada.

-Vai lá, grita de novo, deixa a vó irritada!

-Oooooooooooo vóoooooooooooooooooooooooo… olha pra mim vóoooooooooooooo!!!

Gritos. Gritos. Gritos. Ela me irritava, já tinha os meus próprios gritos. Acendi outro cigarro. O ônibus estava atrasado. O lugar era quase ermo, o fórum ficava numa área afastada da cidade, fora o barulho de alguns carros, ônibus e advogados tagarelas, geralmente eu conseguia lidar com o barulho que ali existia. Mas ali, naquele momento os gritos da menina que além de gritar, ria estridentemente, estava cortando-me o fino fio da paciência. Eu olhei ao redor e vi as pessoas em silêncio, visivelmente incomodadas com o próprio silêncio sendo cortado por uma pirralha de talvez uns 7,8 anos no máximo.

-Vai lá filha, grita pra vovó ficar irritada.

-Ooooooooooo vóoooo!!! Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh, olha pra mim vó! Oooooooooooooooooooooo vó… Vem me pegar!

Os berros da criança. Agudos, irritando. A fumaça do meu cigarro entrava nos meus pulmões queimando. A voz ensurdecedora da criança consumia minha paciência, minha paz, meus silêncios.

A menina passava correndo ao meu lado, no beira fio da calçada.

Gritos, gritos, gritos

Ouvi meus próprios gritos, ouvi os gritos das mulheres que eu peguei enquanto eu me concentrava em dar prazer. Ouvi os gritos dos meus primos apanhando após quebrar a janela da vizinha, ouvi os gritos da minha velha mãe chorando na beirada do caixão do meu pai, aquele desgraçado. Ouvi os gritos de minha irmã que gritava enquanto meu ex-cunhado batia nela sem motivo.

Ela passou correndo novamente. Gritando. Veio um ônibus. Apenas um empurrão. Não teve tempo para freios, nem reações. Empurrei a pirralha na frente do ônibus.

De repente tudo ficou silencioso numa argamassa de sangue, vísceras e ossos. Ao menos pra mim. Pra sempre.

 

 

Engole

“Vede a criança, rodeada de porcos a grunhir,
Desarmada, encolhendo os dedos dos pés.
Chora, não sabe fazer mais nada senão chorar.
Será alguma vez capaz de ficar de pé e de caminhar?
(Friedrich Nietzsche, in “A Gaia Ciência”)

Quando eu era menino, meu pai tinha uma criação de porcos. Nós éramos em três meninos e uma menina. Quando não tínhamos obediência para com ele, ele nos mandava para o chiqueiro de porcos e lá tínhamos de ficar o dia inteiro, no meio da sujeira e dos grunhidos. Nosso pai sempre foi muito rígido com tudo, até com ele mesmo.  Nunca nos deu um abraço, um elogio. Nada. Ele sentava à mesa na hora das refeições e entrelaçávamos as mãos para as orações. As mãos de minha mãe sempre tremiam. Eu achava que elas tremiam apenas em dias chuvosos, ou prenúncio de chuva, pois ela sempre dizia:

“Uma tempestade se aproxima querido. Eu tenho medo de tempestade”.

Depois, com a idade, descobri que minha mãe sempre tremia, mesmo em dias de céu limpo e ensolarados. Ela tremia, em todos os momentos aos quais meu pai estava por perto.  As mãos dela era de uma delicadeza áspera, mas ao mesmo tempo cheia de ternura, ainda que as mãos tremessem…

De medo.

Hoje eu entendo…

Fazíamos as orações e comíamos sempre religiosamente no mesmo horário. Após as orações mantínhamos os olhos baixos no prato de comida e as bocas ocupadas, mastigando e bebendo em silêncio. Um dia o silêncio foi cortado porque minha irmã saiu da mesa e não pediu licença. Ela foi dormir com a boca sangrando e com o rosto com um grande hematoma que demorou dias para sair. Um único tapa, e o sermão enérgico e cheio de ódio de meu pai:

– Engole o teu choro e peça desculpas agora…

-Mas… Mas…

-Engole…

-Des-des-culpa pai…

-Engole teu choro, fale mais alto. Eu não ouvi. Vocês ouviram?

Eu e meus irmãos engolíamos a sopa rasa à seco e em silêncio.

-Não ouvíamos… Mais alto irmã… Não ouvimos.

Não ousávamos contrariar os sermões do pai. Se ele dizia que não ouviu nada, todos nós concordávamos com ele.

– Des-des-des-cul-pa.

– Suba. E você vai limpar o chiqueiro amanhã. Suba em silêncio. Engole esse teu choro que se eu te escutar chorando de novo vai apanhar até desmaiar.

Naquele dia a sopa rala foi ainda mais seca que as outras. O pão, feito à tarde, parecia que foi feito dias atrás, deixado ao ar livre, até endurecer. Comíamos em silêncio, as orações eram o único momento ao qual escutávamos nossas próprias vozes.

No dia seguinte, fui procurar minha irmã no chiqueiro. Meu pai ordenou que ela o lavasse e trocasse a lavagem velha dos porcos. Os grunhidos dos porcos sujos e imensos eram altos, a imundície continuava lá, espalhada, as larvas consumiam o resto de lavagem. Minha irmã estava encolhida num canto, com os joelhos abraçados, chorava alto, bem alto, mas os grunhidos dos porcos abafavam o choro. Ela sempre fazia isso. Chorava no meio dos porcos, da imundície, dos grunhidos, pois no meio dos porcos, ela não precisava engolir o choro.

-Engole…

-Engole… Issoooo, engole tudo…

-Engole… engole. Boa garota…

-Engula. Engula tudo…

-Engole sem cuspir? Até a última boca, sem chorar?

Palavras recorrentes ditas à minha irmã quando abandonou a casa aos 17 anos e foi morar na cidade, num cortiço-prostíbulo, vendendo o corpo por 30 reais a hora, para garantir a sobrevivência.

Ela engolia o choro, engolia álcool barato, engolia fumaça de cigarros paraguaios, engolia fumaça de maconha para relaxar, engolia as porras, engolia o orgulho, mas nunca mais voltou pra casa e para os sermões do pai.

O Cruzamento

“Não passas de uma alma carregando um pequeno cadáver”

 

Há uma lenda que ronda esta cidade há 5 anos. No cruzamento da Avenida dos Alemães com a Alameda São João, às duas e meia da manhã da primeira quinta feira do mês, se você estiver nesse horário em frente à primeira sinaleira em frente à Padaria dos Americanos, encontrará o seu fim. Não há censura, não há idade. Qualquer ser humano, encontrará o fim da vida ali. A Morte aparece e lhe conta um spoiler. Um spoiler do fim da sua plenitude, não importa se mesquinha ou gloriosa.

Algumas pessoas que eu conheci, morreram dias depois, após o “encontro”. Mortes horrendas. Mas eu não acreditava nisso. Eram boatos, as pessoas que morreram tinham uma vida suspeita, e em torno das coisas sórdidas, cria-se lendas. Eu não acreditava até acontecer com Dona Tânia, uma velha (literalmente) amiga que tagarelava comigo fazendo crochê nos finais de tarde. Na verdade ela tagarelava, eu apenas ouvia. Eu sempre passava na casa dela aos finais de tarde, para tomar um café e ouvir suas histórias. Na verdade, ela tentava me ensinar à fazer crochê: “Uma mulher prendada deve saber fazer crochê, algum tipo de artesanato”.

Eu não sabia fazer nada. Nunca soube. Eu acho.

Mas eu sabia observar. Ela tinha nas mãos marcas de queimadura. Diz ela que foi o pai que queimou as mãos dela dentro de um tacho de água quente, porque ela mexeu onde não devia. Desde então, Dona Tânia sempre teve medo de colocar as mãos naquilo que segunda ela “não lhe pertence”. Um vez ela me acompanhou numa loja de cosméticos. Ela gostou de um batom, um vermelho fechado, cor de telha molhada. Depois da discussão “marrom” ou “vermelho”, fiquei observando se ela pegaria o batom. Observei que as mãos dela tremiam. Eu disse: “Pega, experimenta o provador”. Ela se aproximava com as mãos trêmulas, mas as encolhia e apertava as mãos e dedos junto ao corpo, “Não posso”. O rosto de Dona Tânia era um misto de dor e tristeza. Ela só experimentou depois que a vendedora com muito jeito, explicou que era provador e que ela poderia pegar. As mãos dela tremiam tanto, que o batom saiu torto. Ela se irritou e disse que estava velha demais para “se atrever à vaidade”.

“Ainda hoje, aos 75 anos de idade, choro sozinha nesta poltrona. A lembrança de meu pai é só dor. Eu queria amá-lo. de verdade, mas o amor vai embora toda vez que eu olho para minhas mãos e vejo as marcas das queimaduras.”

Depois de muito tempo tentando aprender a fazer crochê e uma fileira horrenda de pontos entrecruzados de maneira porca, Dona Tânia chegou à conclusão que eu era apenas uma moça simpática, uma boa ouvinte de histórias, mas nunca uma “mulher prendada”. Algumas histórias ela contava mais de uma vez, mas pra ela, eram inéditas. Eu não falava nada, deixava ela falar. Ela ficava muito feliz. Numa das histórias, Dona Tânia contou-me do “Cruzamento”. Que receberia um sinal, um convite para saber qual seria sua morte. “Quero estar preparada, eu vou ao cruzamento, assim que eu receber o sinal.

Uma semana depois, ela me chamou pra tomar café. Foi numa quinta-feira, primeira quinta-feira de um gelado mês de julho. Ela estava usando luvas, e eu não via mais as cicatrizes de queimadura das mãos. Ela estava usando batom. O Batom. Aquele que ela disse que era pura vaidade. Estava impecavelmente vestida, embora as roupas estivessem cheirando à mofo. Ela carregava no pescoço um colar de pérolas genuíno, dado pelo falecido marido, às vésperas da morte. “Foi o Dito que me deu, no nosso jantar de despedida. Ele sabia que estava morrendo, mas queria me presentear de alguma forma”.  Perguntei porque ela me chamei, se aconteceu alguma coisa, pois ela estava toda elegante, e eu estava acostumada a vê-la usando calças velhas, chinelos ou pantufas, ou produções de crochê que ela fazia pra ela mesma. Ela me deu várias de presente, mas eu só usava quando ia visita-la, achava-as horríveis, mas eu vestia apenas para vê-la sorrir.

“Meu pai me visitou”.

Mas o pai dela morreu. Anos atrás. Deu um tiro de espingarda na própria cabeça e Dona Tânia teve de limpar os ossos e massa encefálica do próprio pai, durante dois dias.

“Você sabia que quando a massa encefálica seca, parece pedacinhos de concreto? Parecia que a parede e teto tinha traços de pontinhos de cimento… como chama mesmo??” , “Chapisco”, eu disse. “Isso… eu fiquei dois dias raspando pedaços daquele desgraçado”.

Eu achei que eram os calmantes, mas depois me disseram que os tarja preta estavam intactos ao lado da cama de Dona Tânia…

Dona Tânia contava empolgada, o reencontro com o pai falecido…

“Então… meu pai apareceu ontem. Disse para eu me arrumar para o grande dia. Ele disse que eu poderia mexer nos seus papéis e canetas tinteiro, porque minhas cicatrizes estão intactas, e não vai mais doer, porque ele me perdoou.”

“Ele não vai mais brigar contigo Dona Tânia. Seu pai já morreu, teu medo deveria ter morrido junto, não é?”

Dona Tânia nunca me ouvia, nesse aspecto.

“Olha… peguei o baú dele no porão… olha que lindos esses papéis… e essa caneta de pena. A tinta do vidrinho ressecou, mas eu fiz uma boa limpeza e substituí o conteúdo. Ele disse que tudo que é dele, agora é meu. Ele estava lindo, e amoroso. Pai me deu um abraço, ele nunca me abraçou, em 75 anos de vida, ele nunca me abraçou tão forte. Ele quer ser bom novamente”.

“Porque você está usando luvas Dona Tânia? Nunca te vi usando luvas, nem mesmo no frio. As cicatrizes não doem mais?”

“Pai me disse que dói à ele ver as cicatrizes”

Ela me serviu café, fez bolo e torta. Ela sempre comprava coisas prontas. Desta vez, ela mesmo fez. A casa estava impecável. O pó tirado. Apareceu de repente quinquilharias, estátuas e quadros. Vários papéis e livros espalhados pela casa.

“Era tudo dele. Agora posso mexer em tudo”

Aquilo me perturbou, a ponto da torta invertida de maçã não me descer mais à garganta. O café tornou-se áspero e não era mais uma bebida incólume e cheia da razão. Me despedi, e aquela imagem de Dona Tânia, maquiada, de luvas e casaco longo cheirando à mofo e saudade, fixou na retina.

Encontrei Dona Tânia 5 dias depois, antes do nosso encontro semanal. A polícia me ligou, pediu pra eu comparecer à casa dela. Cheguei à casa, estava  cheia de viaturas e pessoas, desde o carteiro, vizinho, taxista e o entregador de jornal. Um cheiro muito forte emanava dali. Eu já pensei o pior.

“Você que é Dona Beatriz?”, “Sim”, “O que você é dela?”, “Quase uma neta”. Ela deixou um recado pra ti…”

E entregou-me uma carta, um papel velho, timbrado, com marca d’água do pai de Dona Tânia. No papel dizia:

Bea, fui no cruzamento. Eu me vi. Morta. Um carro de mortos apareceu, aquele que teu pai trabalhava, carregando os defuntos. O carro parou, meu pai desceu dele, abriu as portas e tirou a padiola. Eu estava lá dentro Bea. Estava toda queimada, com o corpo cheio de bolhas. Meu pai me pediu perdão por tanta dor, mas que para ser perdoado, eu deveria compreender a minha dor.

Deixei chá gelado e bolachas pra ti na geladeira. Meu pai tinha o mesmo gosto de livros que você, separei os livros pra ti. Estão na estante, aquela bonita, de madeira de lei que você gosta. Pode ficar com ela e os livros. E o jogo de chá que você adorava. Depositei 50 mil pra ti numa poupança, cujo número está ao final da folha. Eu sei que você é “uma ferrada na vida”, como você sempre disse. Sempre quis que você acreditasse que isso é falso, mas você não acredita. Eu acho que aquele moço não gosta de você. Ele é apenas um fósforo, uma chama que acende, apaga e você em vão, tenta acender novamente. Te amo Bea. 

Que Deus me perdoe. Que você me perdoe.

PS: quero ser cremada. Coloque minhas cinzas no vaso junto ao Dito”

Respirei fundo. Entre lágrimas tentava eu digerir aquele soco no estômago proferido em letras de velha. Acompanhei o policial. Atravessei a casa, que exalava um cheiro de coisas velhas, alfazema, rosa e ranço de cadáver. Eu me lembro bem do cheiro. Meu pai, famoso papa-defuntos da cidade, me levava para o necrotério quando eu era criança, ao qual eu brincava de Barbie na sala de ornamentação, em meio à caixões e coroas de flores. O barulho de ossos quebrados para fazer vestir as roupas em cadáveres endurecidos, fez parte da minha vida e isso se tornou normal.

Ao subir as escadas e entrar na suíte, o cheiro ficou mais forte. Não tinha mais traços de rosas, nem almíscar, nem mofo, nem pó. Era apenas ranço de cadáver. Ranço de Dona Tânia no quarto e sobretudo no banheiro. Sopa de Dona Tânia na banheira, pedaços de pele, solta, um líquido viscoso, e o braço e parte das pernas coberto de queimaduras e carne podre. E o calor, um calor dos infernos. Várias fotografias do pai espalhadas, pregadas na parede, um altar cheio de cera de vela, com Nossa Senhora Aparecida, Santo Antônio e São Miguel. metade da cara comida por Borges, o gato.

“Dona Tânia está morta há cerca de 5 dias. Achamos que foi um acidente, mas encontramos a carta. Ela provavelmente morreu cozida. Encheu a banheira com água quente, o que já provoca uma queda na pressão. O ar-condicionado estava ligado no ar quente. O banheiro virou uma sauna, e a banheira um caldeirão. Ela está com queimaduras pelo corpo inteiro. Ingeriu um coquetel de remédios, que talvez tenha sedado, e talvez, ela não tenha sofrido tanto.”

Cuidei do velório, avisei os filhos que estavam no exterior. Passei uma semana sórdida, cheia de avisos tristes, sem aquarelas furta-cor, apenas tons cinzentos. Afundei-me no próprio desespero.

“Você é uma ferrada na vida” – diz a rosto de Dona Tânia carcomido pelo gato, no box embaçado do banheiro.”

Estava tomando banhos quentíssimos, a minha pele saía vermelha, e de uma certa forma, ainda que metafórica, eu estava tentando entender a dor de Dona Tânia, a pele escaldada até a morte. Disseram que ela estava sedada. Será que doeu? À mim doeu, até hoje dói.

Nunca contei pra ninguém que Dona Tânia foi ao cruzamento da Avenida dos Alemães com a Alameda São João. Guardei pra mim, durante três meses. Depois desse tempo, descobri uma vontade imensa de saber qual seria o meu fim.

Mas o sinal nunca veio. Até que um dia um poema de Ezra Pound saltou-me aos olhos, e me perseguiu exaustivamente,

“O que amas de verdade permanece, o resto é escória
O que amas de verdade não te será arrancado
O que amas de verdade é tua herança verdadeira
Mundo de quem, meu ou deles
Ou não é de ninguém?
Veio o visível primeiro, depois o palpável
Elísio, ainda que fosse nas câmaras do inferno,
O que amas de verdade é tua herança verdadeira
O que amas de verdade não te será arrancado”

Interpretei o poema de Ezra como um sinal. Eu, inclusive, sonhei com este poema, ecoando em todos os lugares que eu frequentava, à ponto de não saber ao certo, o que era real, o que eram vozes. Vesti a minha melhor roupa, o sapato mais impecável, o batom vermelho, um penteado elegante. Duas e meia da manhã eu estava atravessando o cruzamento da Avenida dos Alemães com a Alameda São João, após um motorista do Uber que eu solicitei me deixar numa rua das proximidades. Ele deve ter achado estranho, mas eu inventei uma história que teria uma festa de casamento que aconteceria de manhã. Eu estava indo para encontrar-me com amigos para seguirmos viagem estrada afora. Eu acho que ele acreditou. Duas e meia da manhã é um horário plausível para se pegar a estrada sem grandes preocupações para um casamento matutino numa cidade distante.

Estava quase desistindo dessa loucura quando ao longe um carro papa defuntos apareceu. Todos os sons desapareceram e um vento gélido tremia meu corpo. Não sabia, ao certo, se era frio de temperatura, ou frio de medo.

“O que amas de verdade é tua herança verdadeira
O que amas de verdade não te será arrancado”

As palavras de Ezra ecoaram na minha cabeça, naquele instante. O carro estacionou um pouco à minha frente. A porta do motorista se abriu. Era meu pai.  Da outra porta, uma mulher caolha com a boca torta e careca. Achei estranho, pai tinha se aposentado do papa-defuntos e o Jurandir, seu ajudante, ainda trabalhava no IML, no lugar antes ocupado por pai.

Meu pai tinha um semblante sério por demais na cara. Muito mais sério do que eu estava habituado. Não falou uma palavra. Estava tudo certo até então, porque ele realmente não falava muito comigo. Abriu a porta do rabecão, tinha uma bicicleta amarela, toda enferrujada e retorcida. Era a minha bicicleta. Eu ganhei ela quando eu tinha sete anos e não me esqueci até hoje que me pai me pegava pelo braço e me dizia que eu não conhecia nada da vida e era uma criança ingrata.

“A bicicleta, pai, continua velha e enferrujada. Eu sei que você vai virar pra mim, eu, mulher, com trinta anos nas costas, e dizer: você não conhece nada sobre vida”, e finalizar,  com o bigode cheio de sopa, “você é uma criança ingrata”. Você sempre me dava sermões à hora do jantar, com mamãe e irmãos à mesa, comendo em silêncio, a sopa de galinha que você fazia toda semana.

“E conheces?”

“Conheces o que?”

“E conhecer alguma coisa da vida, agora?”

“Não… ainda não”.

“O que você conhece?”

“Nada”

“O que você ama?”

“Minha família, meus livros, meus gatos, meus amigos”

“Tens amores?”

“Sim”

“Quantos?”

“Tive vários, um de cada vez.”

“Foram verdadeiros?”

“Apenas de minha parte”

“O que acontecia?”

“Veio o visível primeiro, nunca o palpável”

“És tola. Eu sempre lhe disse. Tola num mundo de sonhos, de amores que acha que são verdadeiros, mas nunca foram reais. Nunca me escutou”.

“Só tem essa bicicleta enferrujada aí dentro? Cadê o meu cadáver?”

“Tenho três cadáveres seus aqui dentro. Queres ver, pequena cabeça de vento?”

“Não vim aqui à passeio, pai…”

Meu pai tirou a primeira padiola. Jazia ali uma criança branquela, magrela, de cabelos pretos, disléxica e de dentes tortos.

“Eu não morri, porque estou aí? Do que eu morri quando criança? Eu estou viva de verdade?”

“Morrestes de Tristeza.”

“Por que? Você nunca soube, como soubestes agora, que eu era uma criança triste?”

“Lembra quando sua mãe tentou suicídio na tua frente? Foi tua primeira morte. Quer que eu explique ou é burra demais para entende metáforas?”

“Não. Não precisa explicar nada. Eu tentei me matar engolindo veneno, mas você me salvou. Você ficou bravo comigo quando eu sai correndo e bati a cabeça na quina do móvel e desmaiei. Você disse que eu quase morri, que eu poderia ter morrido, pois eu dava-lhe trabalho. Eu tomei veneno, passei mal e você achou que era intoxicação alimentar. Eu tentei não ser um estorvo na tua vida.”

“Eu usei muitas palavras duras. Foi desnecessário. Me desculpe.”

Colocou a padiola com meu cadáver infantil envenenado dentro do carro, com ajuda da Mulher Caolha.

Puxou a segunda padiola, era eu adolescente. Igualmente magra, igualmente branca, com todos os dentes arrancados da boca, a cara deformada, os seios e nádegas decepados. O nariz quebrado.

“O que você sentia, quando tinha seus dezesseis anos?”

“Eu me sentia como na música de Billy Idol, aquela que você cantava enquanto cortava cebolas na cozinha.”

Meu pai tirou uma cebola da padiola. A cebola estava ensaguentada, e com uma faca que trazia dentro das botas, começou a picar a cebola, em quadradinhos impecáveis. As cebolas em cubinhos iam caindo em cima do meu corpo destruído, enquanto ele cantava:

Well I’ll do anything
For my sweet sixteen
Oh I’ll do anything
For little runaway child

Well, memories will burn you
Memories grow older as people can
They just get colder
Like sweet sixteen

“Você nunca cortou as cebolas do jeito que eu lhe pedia. Mas fazia, do seu jeito. E você sempre chorou muito para cortá-las. Nunca soube dizer, doce garotinha de dezesseis anos, se você chorava de verdade ou se de fato a culpa era da cebola. Sabe me dizer porque está morta nessa padiola?”

“Eu era uma adolescente feia. Me chamavam de magrela, desbundada, despeitada, nariguda.”

“Porque está com dentes quebrados, e faltando mais da metade?”

“Porque eu não gostava do meu sorriso, nem eu, nem eles”

A Mulher Caolha tirou o celular do bolso, tirou-me uma foto.

“Olha o passarinho querida”

Eu não consegui sorrir pra foto.

“Você nunca sorriu para fotos querida”

“É… nunca.”

Estamos chegando ao fim querida. Queres ver?

“Sim”

Ele e a Mulher Caolha tiraram a terceira padiola.

Estava eu ali, um corpo recente, na minha recente. Minhas pernas estavam quebradas, uma quase decepada, meus braços fraturados, um deles com fratura exposta. Eu tinha apenas um sapato calçado, o outro pé estava esmagado. Estava imersa no meu próprio sangue que saía da área fraturada e do ventre, mas parecia que eu sangrava por todos os poros. Eu estava com o vestido preto eu estava usando e o mesmo sapato. O mesmo batom vermelho, e o delineado borrado nos olhos. Meus olhos estavam arregalados, e a minha boca, muito aberta, como se eu tivesse soltado um grito.

“Isso é tudo minha querida. Você gritou muito querida. Sentiu muita dor, só posso dizer isso.”

“Me explica pai, não vai embora!”

“Amanhã, talvez, no jantar… “

“Por que talvez? Por queee?? Hey!!!”

“Aguarde amanhã, os sermões do pai…”

“Talvez”

Foi a última palavra que ouvi do meu pai. “Talvez”. Entrou no rabecão e foi embora. Eu  vi apenas as mãos manchadas dele, acenando.

Fiquei um tempo, sentada na sarjeta, pensando naquela loucura toda. Levantei-me, arrumei o vestido, tinha usado a barra dele para limpar as lágrimas, calcei os sapatos.

Fui atravessar o cruzamento, estava aturdida, confusa, não ouvia nada, apenas vozes. Vozes de Ezra Pound:

“Mundo de quem, meu ou deles
Ou não é de ninguém?
Veio o visível primeiro, depois o palpável
Elísio, ainda que fosse nas câmaras do inferno,
O que amas de verdade é tua herança verdadeira
O que amas de verdade não te será arrancado”

Tão confusa que não vi um carro em alta velocidade. Ele passou em cima de mim, gritando, com a cabeça para fora do vidro:

“Vadia”

Não obstante, voltou e passou em cima de novo, de ré:

“Vadia”

Era o motorista do Uber, aquele que me deixou nas proximidades, antes de eu conhecer meu trágico fim.  Ele não acreditou na minha história. Achou que eu era uma prostituta.

Eu apenas soltei um grito, meus maxilares estavam quase num ângulo de noventa graus. Olhei pra cima e apenas vi meu pai, com olhos de desaprovação, segurando a famosa pá de raspar pedaços de gente morta grudada no chão.

“Tolinha”

E então tudo escureceu. Sobrou apenas um gosto amargo na boca, misturado com meus dentes quebrados.

 

Egon-Schiele-Death-and-the-Maiden

Egon Schiele – Morte e a Dama