Mortos não tem expressão

Todos os dias eu acordava às seis horas da manhã numa preguiça imunda. Uma preguiça quase que de gente morta. Acariciava o gato e partia para o banheiro arrastando meu corpo, este enorme fardo de colesterol e triglicérides nas alturas. Em resumo, sou um grande filho da puta gordo e preguiçoso. Em dias de frio, lavo apenas as partes. O cheiro de sabonete ia embora após o preparo de três defuntos. O fedor de líquido cavitário já não me incomodava mais. Quem é agente funerário, ou se conforma ou… Se conforma. Eu entrei numa vida cheia de conformismos… Ela começou a se desmoronar quando me dei conta que parte das minhas ilusões foram perdidas:

Mortos não tem expressão.

Nenhum deles.

Já perdi as contas de quantos defuntos eu já preparei. Quando ainda existia um rosto, todos eles, não tinham expressão.

Nos filmes de terror que eu assistia, os Mortos tinham expressão. Começou aí a minha sina.

Eu tinha um amigo que realizava stand-up comedy na região em que eu morava. O nome dele era Marcelo Moreira. O apelido dele era Moreira. Particularmente, “O Moreira”. Era o cara mais engraçado da turma. Um dia ele foi me procurar na funerária. Mandou-me uma mensagem via Whatsapp:

“Estou no saguão do velório da senhora Vanessa Dias Guzmão”.

Eu estava terminando de colocar crisântemos nos caixões de uma mãe e filha mortas pelo marido surtado. Sabe, esses caras loucos que matam a família e depois se suicidam? Pois então, já era o terceiro caso no mês, mas eu já estou calejado de tragédias. Dei um belo rosto para as cabeças explodidas da mãe e filha: sete horas de reconstrução facial… E nenhuma expressão. Na foto para molde as duas sorriam. Mas era apenas na foto.

“Ohhh ela parece estar em paz… Que serenidade”

É isso que os familiares diziam. Eu olhava para as duas defuntas e elas continuavam sem expressão nenhuma. Totalmente apáticas. Olhei para o rosto da mãe:

Sorria desgraçada… Ou tu eras uma infeliz a vida toda?

A morta olhou pra mim e abriu um sorriso. Mas são devaneios. Ela continuava sem sorrir e com cara clichê de defunta.

Mortos não tem expressão…

Eu sempre pensava assim. Até eu ouvir risos no saguão dos velórios. Era O Moreira.

Tirei meu jaleco, ajeitei os cabelos, e fui até o saguão, fingindo serenidade. Ao redor do caixão de Dona Guzmão, entes queridos e familiares gargalhavam em alto e bom som.

Risos. Gargalhadas…

Num velório, em pleno inverno.

O filho da puta do Moreira era tão bom na arte do riso, que fez as pessoas rirem num velório. Neste dia, O Moreira virou uma lenda. A família Guzmão sempre ia nos espetáculos de piadas:

“Esse cara nos fez rir no enterro da Vovó!”

Eles sempre contavam essa história.

Cinco meses depois, O Moreira jazia frio e roxo na minha mesa. Morreu de enfarte, talvez de tanto rir e fazer rir, ou por ter zombado da Morte, naquele dia do velório.

Mortos não tem expressão. Foi isso o que meu professor de conservação de cadáveres me disse. A voz do desgraçado ecoava na minha cabeça e pelas quatro paredes do laboratório de preparação de defuntos. Enquanto eu preparava o corpo do Moreira, tirando a merda do intestino, drenando sangue e outras coisas que a maioria das pessoas nem sonha que seja feita antes de ver tudo bonitinho, asséptico e cheio de florzinhas, eu ria sozinho lembrando das piadas que ele contava, fazendo a multidão do teatro rir em uníssono.

O Moreira morto não tinha expressão alguma no rosto. O Moreira era um cara que sempre estava rindo. Ele estava indo para um caixão, todo ornamentado, com o rosto coberto de base chinesa vagabunda e aquela mesma cara de defunto que todos os defuntos possuem.

Mortos não tem expressão… Mortos não tem expressão.

Com exceção do Moreira.  Uma hora antes do velório, quebrei-lhe os maxilares e abri um sorriso na cara do desgraçado, mostrando todos os dentes com facetas de porcelana que ele meteu nos dentes. Um sorriso. De ponta a ponta, sustentado com linha cirúrgica, numa técnica que desenvolvi ao longo dos anos porque sempre quis encher os defuntos de sorrisos.

Um lindo sorriso risonho, pois O Moreira era o cara mais feliz e engraçado que passou na minha vida.

A família está me processando. Fui demitido da funerária. Nunca mais consigo emprego na área. Mas eu tenho certeza que O Moreira está fazendo uma boa piada sobre isso, lá no céu dos comediantes.

Mortos não tem expressão…

Menos O Moreira.

 

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A Foda

“pura convenção achar o sexo obsceno” – Lygia Fagundes Telles, “As meninas”

A xícara de café estava quente, cheia e densa. Meu corpo, tremia, numa ode de obscenidades, enquanto sorvo o café, aperto as coxas, uma na outra, numa tentativa frustrada de tentar conter o gozo. Para quê conter? Eu poderia ir ao banheiro, deixar as coisas numa prateleira, dentro da cabine, abaixar minhas meias e me tocar até não sentir mais minha própria musculatura, tensões e nervos à flor da pele. Mas eu não poderia gritar. Não poderia gemer. Eu gosto do grito, do sussurro, a voz, a boca, o gemido. Todos os sons do prazer estarrecido são como uma sinfonia para os ouvidos. Fazem parte do meu, do seu prazer. Tomei mais um gole de café, apertei-me mais um pouco, coxa contra coxa, mais um espasmo, mais uma onda de calor. Penso mais uma vez no poder sinuoso e úmido das palavras. Palavras são como flechas certeiras:

” Estou procurando um lugar para lhe comer em pé”

Comer, foder, meter, transar, fazer sexo, gozar.

Em pé.

Há uma força irresistível no ato. As mãos, fortes , o corpo, a sustentação, as mãos segurando as coxas, num ato de compressão de dedos e pele, em suspensão. O corpo, o meu, prensado na parede, palavras de baixo calão ao pé do ouvido:

“Cala a boca e me chupa”

E então eu tomo o teu vinho. Faço de teu pau a minha taça. Tomo até o último gole, até tuas pernas e teu gozo convulsionarem em espasmos e gemidos. No último gole, na borda da taça, limpo o canto da boca e alcanço com a língua a sinuosidade de tua virilha. Alcanço-lhe o peito, o pescoço, afundamos nossos corpos e prazeres um no outro, contra a parede, entre gemidos e espasmos tornamos-nos licores um do outro. Lábios nos lábios, deixo as palavras bonitas e bem colocadas do lado de fora:

Cala a boca e me fode. Com Força.

O apanhador de gritos

Sou um eterno apaixonado pelo som mais aterrorizador que pode sair da garganta de um ser humano: o grito. Qualquer tipo de grito, mas aquele que eu mais amo é o grito que exprime dor e desespero.

Em minha casa tenho uma sala de torturas. Coloco um anúncio no jornal que é publicado duas vezes por semana nos classificados de vários jornais. Também publico anúncios nas redes sociais, através de fóruns e grupos de Facebook. Muitas pessoas me procuram. Eu me alimento e gozo a partir do grito delas. É tudo realizado com muita responsabilidade, pois eu respeito os limites. Quando imploram por misericórdia eu paro. Eu amo quando os olhos se enchem de lágrimas, a pele fica tensa e cheia de marcas, os músculos e tendões retidos, e aquela boca tremendo de dor. E os olhos que ficam pequenos, de tanto se apertarem de dor e tensão… O som da dor… impecável, avassalador, trêmulo… de nervos e partes baixas. Mas não faço sexo. Não tenho interesse no sexo, por mais que 80% dos que me procuram implorem por isso, eu não tenho interesse algum. Quero apenas a dor e o barulho dos gritos, acompanhados por “1812” de Tchaikovsky.

Um dia recebi uma mensagem no Whatsapp. Uma moça muito bonita e dona de uma delicadeza digna de realeza, isso à medir-se apenas pela foto redonda do perfil. Na mensagem, ela me disse que adorava sentir dor, mas que ela tinha limitações e acreditava que eu poderia ajudá-la. Marcamos um encontro numa cafeteria, para falarmos da proposta e caso ela topasse, iríamos para minha residência.

Ela chegou usando um vestido branco, com um cinto azul e um lenço de organza vermelha no pescoço. Ela estava longe de ter um perfil agressivo. Tudo nela era delicadeza e pureza. O nome dela era Lúcia. Lúcia era linda. Eu adoraria escutar todos os gritos de dor, desespero e misericórdia que emanariam daquele ser. Mas, Lúcia era muda. Nunca falou, nunca gritou. As cordas vocais dela nunca emitiram nenhum som. Ela usava linguagem de sinais para comunicar-se, mas eu não entendia, então conversávamos um com o outro pelo celular, mesmo que lado a lado. Foi nessas conversas que ela me contou que gostava de apanhar, mas que nunca conseguiu expressar seu prazer em forma de gritos. Ela me disse:

“Quero que você capture o meu grito”.

Ela queria que eu conseguisse capturar o grito dela, porque o prazer dela nunca era completo. Estava ali um desafio. Eu amava os gritos. Como eu conseguiria sentir prazer com alguém que não tinha aquilo que eu mais amava?

Fizemos sessões de spanking, amarrações e eletrochoque usando vários tipos de instrumentos. Lucia sentia prazer, Lucia chorava como uma criança, e as lágrimas que escorriam daquele rosto rubro de agonia por culpa de meu chicote, eram protagonistas de uma beleza que nenhuma pessoa com cordas vocais plenas e perfeitas conseguiam emitir.

Lucia fazia das próprias lágrimas, os seus gritos. Os gritos mais perfeitos, descendo dos olhos, sem nenhuma diluição. Puro, belo, triste e sem precedentes. Uma natureza selvagem. E sem som. Eu não aguentei. A carne estremeceu.

Fizemos sexo.

Lúcia conseguia exprimir o prazer em forma de silêncio. Isso extravasou todas as minhas convicções de que quanto mais alto, trêmulo e desesperado fosse o grito, mais prazer eu teria. Eu já não sou mais um sádico pervertido em busca de gritos. O silêncio de Lúcia agora me basta.

 

Nocaute: O Único, Misofonia, Os olhos misericordiosos e a Vaca Amarela

“Em um combate travado entre um texto apaixonante e seu leitor, o romance sempre ganha por pontos, enquanto o conto deve ganhar por nocaute.” (Julio Cortázar)

1 – O ÚNICO

Estávamos passeando alheios à vida e suas carnificinas diárias. Entre pichações, estátuas que contam histórias, bancos solitários, bancas de novos e semi-novos, eu escutava atentamente Horácio enquanto um poema de Julio Cortázar ecoava na minha cabeça tão baixinho que tão somente eu poderia ouvi-lo. Horácio era um amigo, um exímio contador de histórias, capaz de fazer qualquer pessoa parar para ouvi-lo. Ele era único.  O único homem que fez-me calar e apenas ouvir. Não poderia haver num mesmo universo, um homem igual à ele. Muito menos com “quase” o mesmo nome.

Lembro-me bem, quando atravessávamos o cruzamento, e numa brincadeira entre amigos exclamei:

– Ohh grande Horácio Almeida Smithzer, único de seu reino e nome!

– Acredita que eu não sou o único de seu nome? Tem um homem que se chama Horácio Alexandre Almeida Smithzer!

-Parente?

– Se for, é muito distante. É… infelizmente eu não sou o único. E também não sou tão alto. Tudo lenda.

Mais tarde, debrucei-me na minha dupla personalidade. Procurei por Horácio Alexandre Almeida Smithzer. Fiz isso madrugadas à dentro.

Bastou-me duas semanas de investigação, lábia, sedução e muita engenharia social. Eu sou muito boa nisso sabia? Descobri tudo à respeito do “outro com quase o mesmo nome”. O “outro” era um homem feio, baixinho, meio nojento e desprovido de qualquer charme intelectual. Além de tudo, era um acumulador compulsivo, de calcinhas usadas à potes de qualquer coisa. Menos livros. Se acumulasse livros, talvez eu teria  um pouco de compaixão. A única coisa digna de se acumular são livros. Ele, minha vítima, tinha gatos: vários deles, mas isso, nem de longe, o salvaria de sua infame existência, cujo único charme era ter quase o mesmo nome de uma pessoa que deveria ser o único de seu próprio nome. Na terceira semana, numa noite fria de segunda-feira, eu o matei silenciosamente. É dessa forma que eu sempre faço. Na surdina. SEMPRE.

“Um rei sempre olha nos olhos do gato” – diziam os antigos. Horácio, meu amigo, conversa comigo olhando nos meus olhos. Eu sempre matei olhando nos olhos. Horácio Alexandre Almeida Smithzer,  foi morto dormindo, babando e com os dois olhos e testa perfurados pela minha .44 Magnum com silenciador. Foi enviado diretamente para o inferno, com uma passagem só de ida. Eu sou uma rainha, mas ele não era digno de se olhar nos olhos. Por isso atirei neles, uma bala para cada olho, ao qual preenchi as órbitas explodidas com ração de gato. Gatos adoram caçar comida dentro de lugares fechados. Ficam cavocando, buscando a comida com as patinhas. Por puro prazer e instinto.

Agora, meu amigo Horácio, era o único de seu nome, porque eu sou uma filha da puta que ama apenas a exclusividade. Horácio Almeida Smithzer não era mais um homem cujo nome era quase duplicado nesse universo de coisas efêmeras e mesquinhas.

Um dia, descobri que do outro lado do globo existia uma mulher com o mesmo nome que o meu. Contei essa história triste no primeiro café duplo sem açúcar numa sórdida manhã de domingo com o Horácio original.

– Eu também não sou a única de meu nome… Existe uma mulher na Arábia Saudita com o mesmo nome que o meu.

-Podíamos matá-la… hahahahaha

Por essas e outras, Horácio sempre será o único de seu nome.

 

 

2 – MISOFONIA

 

Alessandra era linda. Compreensiva, dona de um rosto e corpo de medidas perfeitas. Além de tudo, era extremamente inteligente. Mas Alessandra tinha um problema. Ela comia de boca aberta, fazia barulho para sorver sopa e demais líquidos quentes e isso era o que eu mais odiava na vida. Meu pesadelo era levá-la ao cinema ou ao parque, pois ela comia pipoca, amendoim ou chips de uma maneira absurdamente irritantes. Mas não pense, meus caros, que isso sempre foi assim. A viborazinha me enganou!

Eu sempre saiu para comer sozinho. Até mesmo em confraternizações em família, eu fazia apenas a social. Quando começavam a fartar os pratos de comida, eu me retirava para o meu quarto, longe de todo tipo de barulho que envolvesse bocas mastigando. Eu só me alimento usando fone de ouvido, pois o barulho de minha própria boca mastigando também me irrita. Passei por 4 psicólogas. Nenhuma resolveu o meu problema. Aprendi, à meu modo, a lidar com o meu próprio fardo.

Quando eu saía com alguma garota, eu à convidava para jantar ou ir ao cinema. Se fizesse barulho para comer, eu a dispensava. Dava um belo de um “perdido”, como diz meu sobrinho de 18 anos. Flertar e testar mastigações femininas era um exercício de alta tortura, mas chegou uma hora ao qual eu cansei de me masturbar no banheiro vendo vídeos pornôs no celular. Pornô no mudo. Barulho de sexo oral também me irritava, afinal eram bocas quase engolindo outras coisas. Quando eu fazia sexo, era sempre com som alto. Usar fone de ouvido poderia ser ofensivo. Eu sou, acima de tudo, um gentleman.

Bom, eu estava falando da Alessandra. Ahhh a Alessandra, essa dissimulada ao qual eu me casei. Na minha concepção, uma verdadeira dama jamais faz barulho para comer. E nada de amendoim (em pasta pode, desde que puro, sem torradas, pois fazem “crec”), batatas chips, mandiopã, massa folheada entre outros… Poderia ser a mulher mais linda, meu coração se partia em pedaços. Mas Alessandra… Ahhh!!! A vadia era mestra. Ela soube disfarçar. Revelou sua verdadeira deglutinação após 1 ano de casamento!

Mas eu resolvi… Afinal, eu amo muito Alessandra.

Um belo dia, inventei que eu teria de trabalhar até mais tarde. Comprei capuz, máscara, luvas e um revólver de brinquedo. Invadi minha própria casa, simulei um assalto. No primeiro grito de desespero, eu a ataquei, Quebrei-lhe o maxilar e abri um ângulo de 90 graus esgarçando-lhe os maxilares daquele rostinho tão lindo. Hoje ela se alimenta via sonda e eu sempre seguro suas mãozinhas bem-feitas e delicadas enquanto uma mistura pastosa e bege entra pelas narinas.

3 – Olhos misericordiosos

Coloquei mais um nome na lista: Miranda.

Que belo nome! Um som de anjos para os meus ouvidos. Seria ela a próxima. Eu mato pessoas sabia disso? Sabia? Sou mestre nisso. Mas eu mato porque tenho um fetiche, porque sou apaixonado pela bela e sórdida visão dos olhos em súplica. Em verdade vos digo: não existe olhar mais lindo do que os olhos implorando por compaixão e misericórdia.

Miranda era dessas carolas de igreja, que não faltava na missa e estava sempre fazendo caridade, visitando enfermos, asilos e doando altas quantias de dízimo. Cansei de matar putas e moradoras de rua. Eu queria algo que aos olhos da sociedade era algo nobre. É preciso sempre variar o cardápio. Nada melhor que uma igreja frequentada pela alta sociedade. Miranda sempre se confessava todo domingo, após a missa da manhã. Eu sentava no banco da igreja e aguardava para ser o próximo da confissão. Um bom homem deve sempre confessar seus pecados. Miranda saia da salinha da confissão com os olhinhos cheios de pranto. Que coisa mais linda! Eu sempre lambia as lágrimas e olhos de minhas vítimas. É sempre um êxtase, um ponto alto de clímax, mais prazeroso que a penetração, pois afinal, o sexo era apenas isca.

Depois de dez “paz de cristo”, 3 tardes de voluntariado no asilo dando papinha e dançando com velhinhas caquéticas, 2 dias distribuindo brinquedos para crianças e pagando propina para dizerem o quão maravilhoso eu era, Miranda me chamou para tomar café em sua casa após a missa. Ela, tolinha, caiu na minha lábia e estava apaixonada, pois ela estava com aqueles olhos que somente os tolos apaixonados possuem. Exatos três cafés, um copo de água e uma taça de vinho da sacristia, ao qual eu, bom moço, acompanhei em igual quantidade, nós estávamos na cama dela cometendo vários pecados em série. Que mulher fogosa e sem limites. Foi assim durante uma semana. Eu não consegui matá-la. Estava apaixonado. Na segunda semana, Miranda me disse que queria selar nossa união. Me chamou de novo para sua casa, como todas as vezes. A mesa estava impecável, e ela estava com um olhar capaz de derrubar um muro. Três taças de vinho depois, eu estava na cama dela. Ela estava emocionada, chorando. Lambi-lhe os olhos e as lágrimas, e quando eu estava quase com as minhas grandes mãos no pescoço dela, a minha visão escureceu, e eu comecei a ver o quarto impecável de Miranda girar e se transformar numa série de borrões. A cadela me dopou. Colocou alguma droga no meu vinho ou naquela comida de dona de casa impecável que ela sempre preparava. Agora, todo dia ela arranca alguma parte de meu corpo e come. É por isso que a desgraçada vivia na Igreja e no confessionário. Hoje, são meus olhos que pedem misericórdia, mas só o olho esquerdo, porque o olho direito ela comeu na noite anterior.

4 – Vaca Amarela

A sala de aula estava um caos insuportável. As crianças berravam como pequenos demônios. Julia, a professora estava à beira de um ataque de nervos.

“Qualquer dia eu mato um!” – pensava ela, murmurando entre-dentes, quase alto.

Lembrou-se de uma brincadeira de sua infância. Chamava-se “Vaca Amarela”.

“É ISSO!!!” – falou alto, batendo na mesa, numa felicidade beirando o desespero, afinal, a brincadeira da Vaca Amarela sempre funcionava, pois ninguém, em sã consciência queria comer a merda da vaca amarela. Julia explicou a brincadeira e cantou a música. No enorme silêncio de 5 segundos, Rodolfo de 10 anos olhava pra ela e dava risada. Nunca uma criança teve um olhar tão cruel. “Demônio infeliz!”…

“Qual a graça Rodolfo? Quer me contar?”

“Papai sempre brinca de Vaca Amarela comigo e mamãe. Mas ele chama de outro nome. E eu sempre ganho. Mamãe sempre perde. Quer que eu te ensine?”

Julia se agachou para ficar na mesma altura de Rodolfo. Velha tática para ganhar respeito e confiança de pequenos projetinhos de gente.

“Como é a brincadeira? Me mostra!”

Rodolfo deu-lhe dois socos seguidos: um no maxilar e outro no olho direito. A classe se encheu de silêncio.

“É assim Tia Júlia! É assim que meu papai faz a minha mamãe calar a boca.”

Quando eu era um garoto

Quando eu era um garoto, ficava em cima do muro vendo a multidão passar. Não era uma espécie de multidão. Gosto de exagerar sabia? Se eu lhe prometia um selinho nos lábios, eu sempre lhe entregava beijos molhados cheios de luxúria, para que se lembre daqueles tempos de garota, aquele tempo em que eu era seu garoto mentiroso. Aquele que lhe dava a mão, que lhe dava um abraço de corpo todo. Eu era um garoto, no auge dos meus 15 anos, mas eu mentia, eu era um homem… Ahhh querida, eu era aquele que você me disse que deixou uma impressão fixa e latejante na pele, aquele que tocou suas ancas por alguns minutos, deixando as marcas dos dedos nas curvas cheias de saudade de seus quadris. Eu era apenas um garoto quando eu lhe disse ao pé da orelha que estava levando a textura da tua pele em meus dedos, que eu lhe deixava uma tatuagem, ainda que efêmera, cada vez que eu lhe tocava. Eu era apenas um garoto com medo da tempestade quando eu lhe vi indo embora. Hoje sou apenas um homem seguindo meu destino às cegas em um passo de dança improvisado num salão vazio, cheio de garrafas de Whisky pela metade, cacos de vidro e cigarros baratos.

Hoje eu vi um velho parque de diversões abandonado. Eu me recordo que nas nossas juventudes, você tinha medo de palhaços. Você ainda tem? Eu lhe dizia: “Lá vem o palhaço, na nossa direção, o palhaço do sorriso sádico, do nariz vermelho e da cara branca”. Você se agarrava em mim. Segurava-me forte,  e eu sentia o cheiro doce de colônia de rosas e todo aquele encanto que apenas poucos garotos metidos a poetas como eu tem a capacidade e discernimento para carregar na memória. Você sussurrava em meus ouvidos, “me proteja!” e eu me sentia o dono do mundo. Eu me sentia o dono do mundo quando você me dava aquele olhar de menina, enquanto lambia os dedos de algodão doce. “Mamãe me diz que faz muito mal”, e então você levava alguns pedaços de nuvens açucaradas em minha boca, enquanto dava risada, balançando a cabeça com suas longas tranças em desalinho. E tocava aquela nossa música, que eu não me lembro o nome:

*Ah, mon amour
A toi toujours
Dans tes grands yeux
Rien que nous deux

(Ah, meu amor

Sempre você teve

Em seus grandes olhos

Nada mais do que nós dois)

Você me dava a mão, e dançávamos como duas crianças inocentes e alheias às crueldades do mundo. Hoje mesmo já sendo um homem cansado e soturno, eu nos vejo dançando num salão abandonado, como duas crianças, em corpos de homem e mulher, sem medo, sem amarras, apenas desejo. Mas sabe? Eu me sinto como aquele poema de Drummond que você enviou-me numa tarde chuvosa: estou nadando em águas desconhecidas, precipitadas, em meu conforto desnorteado, como se estivesse nu na areia, com os cabelos ao vento.  Ao final, você sussurra em meus ouvidos: “Dorme, meu filho”.

Quando eu era um garoto, eu queria lhe roubar um beijo, mas nós éramos apenas crianças, eu era um menino que brincava de soldadinhos e bolinhas de gude, e você. apenas uma garotinha com complexos de inferioridade e várias bonecas no armário. Um dia roubei-lhe um beijo, longo, devagar e com toneladas de culpa. Quando eu fui beijar-lhe de novo, você virou o rosto, envergonhada. Saiu correndo, naquela praça cheio do crepúsculo do quase anoitecer. Eu nunca esqueci dos teus olhos, velhas incógnitas cheias de ressacas inocentes, misturadas com o cheiro do teu cabelo lavado. E eu então, com meu pobre e sofrido coração de garoto imaturo, guardei teu rosto de espanto numa aquarela, um quadro pintado em pinceladas de desespero, sempre fresco à memória.  Quando eu era garoto, eu lhe imaginava como em um quadro de Renoir, mas eu nem sabia quem era Renoir. Você cresceu, mas pra mim sempre foi a garota envergonhada que em vão eu tentava roubar beijos tímidos.

Naquele final de tarde de nosso reencontro, você estava lá, sentada na mureta, com seu semblante calmo e misterioso, cheio de encantos, envolto em vestes negras. Seus lábios sussurravam uma canção, você tremia e tinha muitas coisas para me contar, e eu achava que já não tinhas mais aquela vergonha de encarar-me nos olhos. Enquanto eu fumava um cigarro, você comentava as formas dançantes da fumaça que subia e bebia a goles de passarinho sua cerveja escura importada. Tentei tirar-lhe todo aquele semblante de mistério, mas ali diante de mim estava uma criatura com a beleza e o mistério não revelado de uma obra de arte recém-descoberta, escondida embaixo dos escombros de todas as dores do mundo. Parece que ficou enterrada sob a terra de milênios de anos e aquela mulher ali em minha frente, com o mesmo cheiro e pequenos trejeitos dos doces 16 anos, época em que eu levava sua lembrança primaveril colhendo rosas no jardim. Eu era apenas um garoto com traços de maturidade querendo saltar a cada movimento que eu fazia tentando lhe homenagear, trancado no quarto, em convulsões, espasmos e no final um suspiro, forte, longo e abafado, cheio de vergonha. Olhava as revistas adultas que passavam de mão em mão dos garotos do colégio. Nunca me esqueço da mulher deitada nua, com as mãos apalpando os seios. Imaginava você ali, da forma como veio ao mundo, uma nudez tão íntima e desvelada, um misto de pudor e inocência. E você vinha até mim revelando os bicos rosados dos seios. Minutos depois,  o ventre se arrepiava enquanto eu passeava meus dedos e dava-lhe beijos de ternura, num desespero que me transbordava pela borda da taça. Da minha taça. Aquela que você sorvia um gole cada vez que se colocava de joelhos.  Eu tive medo do tempo, estava quase amanhecendo, a noite indo embora, levando consigo seus mistérios e encantos. Tudo em você era sorriso, a pele alva, o cabelo em desalinho, a forma como corria desajeitada e quando levantava os braços para erguer os lençóis impecáveis que sua mãe mandava-lhe estender. A sombra de sua silhueta nos lençóis contra o sol era uma ofensa à minha tentativa de não ter nenhuma espécie de pensamento mundano. Eu era apenas um garoto, mas já assistia pornôs sofisticados durante a madrugada e via aquelas lindas mulheres gemerem e suarem embaixo de lençóis. Queria deixar sua cama e cabelos em desalinho, queria descer devagarinho no seu ventre e contar pequenas histórias sobre o caminho do paraíso. Queria ver sua cara de incógnita com um misto de vergonha e um gemido de êxtase. Enquanto penso nessas visões que me latejam, os garotos  da minha memória descem a ladeira com seus carrinhos de rolimã, enquanto você brinca de amarelinha a poucos metros. E como se soubesse de meus pensamentos mundanos, você sempre me dá um sorriso rubro e forte como o giz que escrevemos nosso poema naquele trabalho escolar ridículo de final de ano.

Hoje eu não sou mais um garoto, e você não é mais aquela garotinha de 16 anos. É um dilúvio me chamando para molhar-me e dançar. Seu silêncio me mata e por mais que eu tente, em vão, não entregar-me à tentação de deixar meus pensamentos tão imorais que me acompanham em seu sorriso displicente, a cada toque que me deixo levar pelo convidativo, entrego-me ao completo escárnio das minhas noites em vão, olhando para o teto, fechando os olhos em êxtase até que eu me entrego à sensação de espasmos e tremores. Uma respiração longa, profunda, e o seu cheiro e textura em meus dedos. Eu era apenas um garoto, mas agora querida, talvez seja um pouco tarde demais. Deixei minhas roupas penduradas no varal, mas veio uma tempestade e as encharcou. Eu olho as nuvens escuras se aproximando, e um véu de loucura chamada lágrimas cobrem meus olhos. E vejo tudo embaçado agora, eu vejo lembranças indo embora, como um navio perdido no horizonte. Talvez querida, eu leve o teu semblante junto comigo quando eu pegar meu carro e seguir sem rumo. Vou contemplar os amanheceres como se eles fossem completamente intransigentes às minhas vontades. Certa vez ouvi o coro de crianças numa igreja perto de casa, e foi como se eu fosse tocado pelas vozes de cem anjos tocando-me a alma, mas nada me encantou mais do que aquela vez que você cantou de um jeito desajeitado aquela nossa música de infância. Mas vou deixar isso pra lá, você se transformou apenas em um belo par de pernas em que numa madrugada descompromissada perdi o juízo. Eu vejo o teu rosto me contando uma porção de histórias, mas eu não posso desvendar o teu teatro de palavras mudas e cegas. Naquele instante em que eu fitei os teus olhos negros com as pupilas dilatadas, eu queria ver ali um muro despedaçado e aos gritos de palavras nunca antes ditas. Mas este teu silêncio acompanhado pelo teu toque me deixa desajeitado é apenas como um fósforo longo que se acende e apaga sozinho. Eu sou apenas um garoto, que acende um fósforo e vê a chama extinguir-se. Sou apenas um garoto que perdeu os cigarros e as chaves de casa. Volto para casa sempre sozinho. E você?

 

pintura_1

Pintura em acrílico feita à dedo, do artista italiano Paolo Troilo “Chi lo ha deciso (who decided that)”

Front

Já estive aqui antes, contemplando outros amanheceres. Já estive aqui, andando de um lado para o outro, com as mãos manchadas de sangue. Já vi meus velhos amigos perderem a luta em campos de batalha, minhas mãos e roupas cheias de sangue. Matei meu melhor amigo com um tiro na cabeça, porque ele me implorava para acabar com os sofrimentos que sentia. As tripas saltando da barriga, e ele segurando-as nas mãos, numa tentativa desesperada de botá-las para dentro de novo. Mate-me, por favor, por amor à sua vida, mate-me… Ouço isso me atormentando, dia após dia, ano após ano… Já ouvi os sinos da velha capela anunciar muitos funerais. Pessoas de luto a murmurar orações, cujos ecos invadem meus ouvidos, levando ao longe velhos murmúrios já tanto desgastados, e aquele som entalado na minha garganta. E Deus, aquele velho tolo que não existe… Estou sempre cansado de lamentações. Se eu pudesse, andaria milhas e milhas pelos campos de centeio, e como Holden Caulfield, eu salvaria as crianças de caírem dentro do abismo. Muito prazer minha amiga, sinta todo o calor de minhas mãos trêmulas. Mas você tem as mãos tão frias, que me sinto diante de minha própria morte. Teu rosto já tão fundo, as olheiras marcando um profundo desespero embaixo de teus olhos. Tens a fala mansa, muitas vezes eu não escuto. E olhando dentro dos teus olhos, vejo apenas uma garotinha aturdida, perdida. Talvez, falte algumas mãos empurrando-lhe, naquele balanço velho, perto do velho poço. Quando eu era um garotinho, sem barba na cara, você chegava e me pedia para empurrar-lhe no balanço. Você não tinha forças, minha cara amiga, para dar sentido ao teu próprio voo. Dizia-me que me encontraria algum dia, perto da velha capela. Fiquei esperando, anos e anos. Amigos morreram, guerras aconteceram, ouvi tiros, explosões, gritos de desespero. Cruzei rios, pegando cadáveres que boiavam ao meu redor. Esperava que com o tanto de peso que tinha, eu afundasse, para abraçar o inferno que tanto me espera. Mas era apenas eu e o fedor de meus companheiros mortos em campos de batalha. E hoje carrego no peito uma medalha  de ouro ridícula, pelo trabalho realizado, salvando vidas e a honra de companheiros. Consegue ver, o quão bonito é isso? Lembro-me das noites que passei em bares, enchendo a cara, e ao final da noite saía com prostitutas. Elas amavam um homem de farda. Algumas me davam de graça, e por mais que eu implorasse que aceitassem o pagamento, diziam que um homem de honra deve ter amor todos os dias. E que merda de Amor é esse?

Encarei a vida como um pássaro voando sem rumo no horizonte. Lembro-me, quando criança, de matar um a um com estilingadas, sentia todo o prazer de enterrá-los, um cemitério de pássaros, no jardim de minha casa. E você me ajudava, colhendo flores para fazermos o enterro. Eu já gostava do teu sorriso sádico, desde quando você era uma criança, descabelada, desdentada, com seu vestidinho branco impecável, sempre sujo de terra ao final do dia.  São essas doces lembranças que me fazem escorrer lágrimas de delírio.

Queria agora, dar tiros em todas as direções, ver pessoas correndo de desespero, implorando por misericórdia, enquanto seguro a arma, ouvindo um coral de anjos desafinados a cada gota de sangue derramado, e eu poderia lhe ver dançando nua em cima do mar de sangue formando-se aos seus pés e então eu amaria cada pedaço de tua pele, como se fosse a coisa mais divinamente perfeita neste mundo. E diante de deuses em fúria, cometeria o maior pecado do mundo, e seria então feliz, discordando da boa moral e costumes das pessoas que eu mais amei, apenas você e eu, num mundo vermelho, manchado de injúrias, apenas com a dor e tristeza de passeatas fúnebres. Mas estou aqui neste funeral, e a marcha militar fúnebre vai começar. E o barulho dos tiros ao alto, sou apenas um homem na multidão, um homem condecorado, um herói de guerra, manco… Salvei vidas e quase acabei perdendo a perna. A ironia da vida quase me mata, e os gritos de sofrimento ainda me perseguem, ainda tenho o mesmo pesadelo durante anos. Ainda amo a mesma mulher, ainda desejo casar e ter filhos e contar-lhes crônicas de guerra. Ainda quero andar embaixo da chuva, mas sem que nenhum pensamento me atordoe. No próximo anoitecer, durante a madrugada, serei um andarilho miserável vagando pela casa com uma arma na mão, uma garrafa e murmúrios. Vejo você, dizendo-me que sou apenas um homem fracassado, largado à sorte de meu próprio destino. Se chover nesta noite querida, deixarei que cada gota d’água escorra para meus lábios e que lave este meu rosto de ressaca. Poderei estourar os vasos que herdei de minha mãe. Dentro de cada um deles tem as cartas que ela me enviava durante a guerra. Muitas se perderam no front de batalha, algumas têm manchas de sangue, algumas outras me trouxeram alguns minutos efêmeros de paz e aconchego. Minha velha mãe na soleira da porta me dando adeus. Foi a última imagem dela que eu tive em minha vida. E a saudade do aconchego dos braços de minha velha mãe, é o único calor que me traz um sorriso no rosto. O calor do amor materno, as palavras de apoio, os sermões. Se eu pudesse trazer algo de volta, seria ela, mas os anos passaram, perdi amigos, amei e fui amado. Tento parar de pensar nesses disparates, a fim de manter longe o canhão de meu revólver longe de minhas têmporas.  E é assim todas as noites. Tenho apenas uma bala no tambor do revólver, e sei bem como usá-la. Quando vier me visitar, limpe o meu sangue, troque os lençóis, apague a luz e feche as portas.

 

Na imagem, pintura de Karien Deroo, chamada “The promise of a golden pool”.

Um sorriso para Miles Davis

“My funny valentine
Sweet, comic valentine
You make me smile with my heart
Your looks are laughable, unphotographable
Yet you’re my favorite work of art” –  (My Funny Valentine, música composta por composta por Richard Rodgers e Lorenz Har. Ficou imortalizada por vários ícones do jazz, Miles Davis (instrumental) , Frank Sinatra, Ella Fitzgerald e Chet Baker.)

Eu a conheci num bar chamado “Kind of blues”. O bar tinha as paredes vermelhas e luzes baixas de tons alaranjados. O dono, Seu Otaviano, um senhor de 60 anos, fã incorrigível, virtuoso e apaixonado de jazz e especialmente Miles Davis, abriu o bar após se aposentar de 35 anos de serviço como capitão de polícia. Foi sua homenagem para Miles,  que tanto o alegrou depois de noites de tiroteios e intervenções ostensivas. Desde então, toda quarta-feira, à partir das 19h00 o bar se enchia de scats, improvisações, risos, uma mistura de bêbados, nicotina e pequenos rumores de delírios cotidianos e ossos do ofício.

Há cerca de nove meses uma jovem mulher de cerca de 35 anos frequentava aquele bar que cheirava à uma decadência quase sofisticada. Estava sempre com os cabelos soltos, usava um vestido preto e uma meia fina com alguns trechos desfiados mostrando um pedaço de pele pálida. Os sapatos altos, de bico fino pareciam incomodar-lhe, pela forma como ela girava os pés, de forma que dava a entender que os sapatos pareciam apertar-lhe as pontas pés. Ela bebia um chopp ocre, forte, pois a cada gole os olhos delineados se apertavam e ela abria a boca vermelho sangue  como num pequeno suspiro. Sentada num balcão, um olhar perdido, pouca conversa, falando apenas o essencial com o bartender.  As mãos se apertavam inquietas, em cima do balcão ou em cima das pernas. Em outros momentos ela ficava imóvel, e os olhos se moviam pelo bar. Ela aparecia toda quarta, por volta das 20h00,  bem vestida, mesmo com alguns defeitos, como meia desfiada ou sapato gasto, ou um casaco levemente amassado. O vestido, sempre preto, alguns de cetim, outros de malha, outros de linho, mas sempre um corte impecável que valorizava um corpo simples, nada muito sinuoso, mas de um porte elegante e marcante. A maquiagem sempre impecável. Nada tirava a classe e a forma como se movia no seu próprio silêncio interno ao som do trompete de Miles Davis. Ela sentava, pedia bebida e ouvia jazz. Séria. Quase uma esfinge. Eu era apenas um mero espectador, que a observou durante um mês. Depois de um mês apenas sendo espectador daquele personagem silencioso e misterioso, eu resolvi falar com aquela mulher. E foi assim que eu quase me casei… Veja bem, quase, se não fosse culpa de Miles Davis.

Certa noite, cheguei no bar às 19:30. Quem sabe daria tempo de eu desistir de conhecer a mulher que arruinou a minha vida. O banco em frente ao balcão a aguardava. Esperei no canto, encostado na parede, perto da porta. Ela vai entrar, se mover aos passos de ninfa e sentar-se no banco alto do balcão. Todos os poucos olhares se voltariam pra ela, homens, mulheres, funcionários. Ela vai chegar, sentar-se no balcão, erguer as mãos e apontar para o bocal de chopp do meio. O garçom apenas iria manear um pouco com cabeça, em concordância com aquele mesmo ato de toda quarta-feira. E era assim, ela vai passar a noite inteira fechada em si, com os pés se movendo levemente e tamborilando os dedos no balcão. Sempre calada, entre um gole e outro. Mas não naquela noite. Aquela noite eu ia conhecer minha estranha namorada.

Olhei no relógio, já era 20h10 e nada dela. Não a conhecia, mas já me preocupava. O que aconteceu? Na mesa da frente um grupo de velhos amigos me chamou pra sentar. Sentei-me, pedi um copo de conhaque para aquecer a garganta e espantar todo o frio que me gelava os nervos.

“Esquece, tua musa não vem hoje”.

Disse minha amiga, Cristina, batendo as mãos na cadeira vazia ao lado dela, me convidando pra sentar. Ela já estava meio alta depois de três martinis, gesticulando como uma personagem de desenho animado antigo, descabelada, os olhos borrados e o rosto já vermelho. Ela olhava pra mim segurando uma azeitona verde pelo cabo, me olhando nos olhos. Ela sempre fazia isso, e em seguida teimava em me roçar as pernas embaixo da mesa com a sola dos pés. Ela tinha os pés gelados. Eu nunca gostei de pés gelados e daqueles olhos verdes de mulher louca. A azeitona na ponta dos lábios, embebida de martini, que escorria pelos beiços ao qual ela passava a língua numa indecência indelicada. Os seus pés inquietos roçando os pelos de minha canela dava-me um misto de horror e compaixão.

“Faz um mês que você tem planos de puxar assunto e nunca faz nada. Tu és um fraco. Se eu não fosse casado, já teria chamado ela para conversar no primeiro dia. Teria casado já. Foi assim que eu me casei com Isabella”

Walter era meu amigo há mais de sete anos. Casou-se com Isabella após derrubar um copo de uísque nos pés dela e machuca-la cortando-lhe os pés com os cacos do copo. Ele cuidou dela desde o primeiro momento, levo-a ao hospital, levava para fazer curativos. Mesmo com os pés machucados, ela aceitou o seu convite para ir ao cinema. Ele diz que ficou tão nervoso de conversar com ela na primeira vez, que o azar de ter derrubado o copo trouxe-lhe o amor que nunca havia encontrado.

“Ela deve ser uma mulher amarga. Que tipo de mulher vai sozinha ao bar e volta sozinha? Não deve ter amigos”.

Cristina tentava colocar as mãos dela em cima das minhas. Eu escondi as minhas mãos embaixo da mesa, e a encarei com um ódio ao qual acredito que ela entendeu que estava sendo inconveniente. Ela deu mais uma daquelas suas risadas estridentes, roubou o meu conhaque, me chamou de fraco e insensível e os olhos marejaram. Ela sempre fazia isso, e ia chorar as pitangas com o barman ao qual sempre terminava transando no cubículo da cabine do banheiro dos funcionários.

Pedi que tocassem algo mais leve. Começou a tocar “Moon dreams”. Sempre gostei de ouvir o álbum “Birth of Cool” nos meus momentos de agonia. “Moon dreams” dava-me uma tristeza em tons agridoces. Me sentia como uma personagem triste de quadros impressionistas, com o olhar vago e perdido no horizonte. Saí da mesa onde o assunto era política e fofocas de trabalho, me dirigi em direção ao balcão, ao lado do banco indefectível ao qual minha musa até então desconhecida sempre se sentava. Eu já estava cheirando à álcool, nicotina e loção pós-barba vencida. Desatei a gravata, arregacei as mangas. De repente senti um cheiro doce com pequenas notas cítricas. Olhei de soslaio e vi os dedos longos com unhas pintadas de vermelho acariciando a madeira do galpão. Ela chegou, quieta e nas entrelinhas. Fez o sinal, apontando para o chopp. O barman serviu o copo com pouco colarinho e passava os dedos nas gotas de suor do copo, como se estivesse a desenhar numa janela cheia de neblina. Ela tinha o pulso fino e delicado, com algumas cicatrizes de hesitação. Problemas… sempre me meto em problemas. Olhei pra ela novamente, ela me olhou. Levantei meu copo, ela meneou com a cabeça e jogou a cabelo para trás da orelha. Ela apertou o corpo, e disse: “Olá”.

Eu não soube de primeiro o que dizer. Fui para o óbvio. Qual o teu nome?

“Betina, e o teu?”

Ela disse o nome dela no auge de “I Fall in Love Too Easily”. Eu, obviamente, me vi como um tolo, perdido em acordes e com a maldita névoa de fumaça cobrindo a razão de meus olhos, tal como na música “Smoke gets in your eyes”. Senti-me um tolo. Um tolo completo e feliz.

“Eu sou Antônio. Gosta de jazz? Você sempre vem aqui às quartas, não que eu esteja te observando…”

Ela me olhou e deu um sorriso tímido de canto de boca. Disse que era fã de Miles, e que sua música favorita era “Stella by the Starlight” e que às vezes entrava em duelo sentimental com as notas de John Coltrane e que se pudesse mataria uma garrafa inteira de uísque em um único álbum. Ela perguntou se eu não achava estranho ela sempre estar sozinha, pois em pleno século XXI as pessoas ainda julgam que uma mulher não pode frequentar bares sozinha e curtir a própria solidão. Eu menti, disse que não me incomodava, mas no fundo, eu questionava sim. Uma mulher daquela não merecia estar sozinha. Mas talvez eu pense nisso porque eu, um macho alfa no alto do meu terceiro copo de uísque, coloquei na minha cabeça que eu sairia daquele bar com aquela mulher.

Nos beijamos ali no balcão, 15 minutos depois dela puxar o banco para o perto do meu e apontar os seus pés e inclinar o tronco na minha direção. Ela molhava os lábios de batom vermelho já com algumas falhas e passava as mãos nos cabelos. Ela tinha olhos cor de mel e as pupilas estavam dilatadas. Quando eu segurei suas mãos a penugem do braço arrepiou e ela apertou as pernas, cruzando-as. Com os olhos baixos, o rosto já rubro, ela olhou para a minha boca já enebriada e sedada de uísque barato 12 anos. Puxei ela pra mim, e a beijei no auge de “Autumn Leaves”.

Desde aquele dia, Betina tem sido de longe a mulher mais incrível da minha vida. Betina gostava do meu sorriso, Betina não tinha os pés frios, Betina amava os seios pequenos e não reclamava por não os ter grandes. Betina me achava engraçado quando eu a puxava para dançar. Betina sempre dormia nua, independente do clima. Mas Betina tinha um problema.

Betina não sorria. Betina não gostava do próprio sorriso. Eu só via os dentes de Betina quando ela comia.

Isso me incomodava. Ela nunca saia sorrindo nas fotos. Betina não tinha nem um meio sorriso. Se eu pudesse descrever a falta de sorriso em Betina através de uma canção de jazz, diria que Sinatra exprime toda a falta de sorriso de Betina em “Shadow of Your Smile”, pois seu sorriso era só sombra.

The shadow of your smile
Your lovely smile…

Ela dizia que se sentia boba quando sorria, que zombavam-lhe os dentes quando criança, e que mesmo com uso de aparelho ortodôntico, ela nunca conseguiu tirar o fantasma da zombaria que lhe perseguia. Eu olhava pra ela, e dizia “Querida, o teu sorriso é lindo!”.

Como tu sabes se nunca me viste sorrindo, assim, mostrando os dentes?

Porque não me mostras? Posso contar uma piada, você sempre ri delas, do seu jeito, cabisbaixo. Eu quero ver o teu sorriso, o teu sorriso de verdade… Me mostra. Me mostra esses dentes.

Betina sempre chorava, e então eu parei de pressionar. Betina nunca iria sorrir. Não pra mim.

Um dia Betina me chamou pra assistir um quinteto de Jazz. Um amigo dela de infância, trompetista, formado em Chicago pelos mestres contemporâneos do jazz, iria tocar na cidade. Ela não o via há 10 anos. Betina tinha poucos amigos. A maioria dos amigos dela estavam em outros estados ou países. A mãe morreu quando tinha 20 anos e ela perdeu a irmã num acidente de carro ao qual dirigiu embriagada. Ela se culpa tanto disso, que deixou cicatrizes no pulso,

Sou fraca demais até para tirar a própria vida

Betina era dona de uma melancolia que ao mesmo tempo que me encantava, me apavorava. Nas nossas tórridas noites de sexo, ela entrava em êxtase quando pedia para eu lamber e beijar seus pulsos. Era como se eu desse todo de volta todo o amor que lhe faltava enquanto pegava a lâmina e tentava se cortar no chão do banheiro, regada à barbitúricos e álcool barato. Mesmo sendo marcas antigas, Betina sentia que a dor do corte nunca terminava. Todo semana de aniversário do acidente, Betina desaparecia, mas depois batia à minha porta com um desespero e corpo em chamas. Era a melhor das noites. Betina se entregava numa fúria de paixão e desespero ao qual nunca tive de mulher alguma. A tristeza, de uma certa forma, era o paradoxo mais bonito de Betina.

Você é um sádico

Meus amigos sempre me diziam isso quando eu falava de Betina. Eles achavam que ela era louca e transtornada quando saia chorando na mesa porque o fotógrafo dizia “Sorriaaaaaaa!”.

Fomos ver o quinteto na noite de sexta-feira. Ela me apresentou seu amigo, George, trompetista e escritor. Sim, eu já falei dele. Tentei sair da lembrança desse desgraçado. Alto, magro, bonito, dono de olhos negros e brilhantes como duas jabuticabas, barba um tanto volumosa e usava cachecol vermelho. Todas as mulheres olhavam pra ele, inclusive Betina.

George comandava um noneto de 6 sopros, um pianista, 1 contrabaixista , 1 baterista e uma vocalista. Tinha ele, George o Belo, no trompete, um senhor gordo de meia idade de cara engraçada no trombone, um rapaz de aparência nórdica na tuba, uma cópia de Tom Hanks em  Forrest Gump no sax barítono, um homem normal no sax alto, um rapaz de feições indianas na trompa de pistão, um guri muito novo no contrabaixo, um norte americano no piano e uma mulher de meia idade, negra e forte no vocal.

A noite seria maravilhosa, regada de belas notas, improvisos e bebops, se não fosse os olhares de admiração de Betina pelo Miles Davis branco de cachecol metido a escritor. Eu nunca tinha visto Betina tão feliz. Betina nunca teve todo aquele êxtase comigo.

Comentei com Walter e Isabella, que eram seria nossos padrinhos naquela noite, pois naquela noite eu pediria Betina em casamento.

Você está delirando Antônio. Betina só está feliz porque o grupo é maravilhoso, ela é fã de jazz. Tens de ficar feliz. Você reclama que ela sempre parece triste. Pare de ser paranoico.

Isabella sempre defendia Betina. Betina amava Isabela, porque Isabella nunca julgou sua melancolia, e dava razão às coisas. Dizia que se fosse lésbica, casaria-se com Isabella.

Mas o Miles Davis branco é muito bonito mesmo. Eu teria medo Antonio. Mulheres gostam de homens que usam cachecóis… E ele escreve, imagina ele sussurrando um poema erótico na orelha de Betina. Você era péssimo em redação na escola, eu lembro!

Walter sempre foi um bobo da corte. Não perdia a piada mesmo que em momentos inoportunos como aqueles, ao qual eu pensava em pegar Betina pelos braços, sairmos dali dentro de um táxi enraivecido e depois descontar todo o meu desespero em beijos sórdidos entre as coxas e mordidas no pulso.

Estava acabando o show, começou aquele puxa-saquismo básico pós-espetáculo. George foi nos cumprimentar. Além de bonito, tinha a voz imponente e um sorriso sem mostrar os dentes. Sim, George o Belo, tal como Betina, não exibia os dentes para sorrir, mas aquele sorriso de canto de lábio derreteu até a garçonete. Betina pediu para eu tirar uma foto com o celular dela. Ela posou pra foto. Eu estremeci, quase derrubei o celular no chão. Betina, a minha Betina, aquela que fez meu coração sorrir sem ela saber sorrir, estava sorrindo na foto… Betina nunca sorriu. Entreguei o celular, matei a última dose de uísque,

Te espero lá fora Betina.

Estava no táxi, esperando a vadiazinha do “sem sorriso pra você, Antônio, que não usa cachecol, não escreve e não toca numa banda de jazz”.

Betina entrou afoita no táxi, obviamente não sorria mais, pois eu, Antônio, o trouxa, aquele que se apaixona facilmente, não merece o sorriso de Betina, mesmo depois de 8 meses de relação.

Está tudo bem? Você está estranho…

Não falei nada. Pela primeira vez eu era que ficava calado e sem sorrir. As alianças estavam nos bolsos. Eu ia pedir Betina em casamento naquela noite de dia dos namorados, mas naquela noite, ela teria de sorrir pra mim. Eu não poderia casar com uma mulher que não teria sorriso comigo. Eu estava cansado da cara triste e lábios sérios nas nossas fotos. Betina era para ser a “my funny valentine”, aquela que quando eu ouvir Chet Baker voltando pra casa do trabalho, sempre me trará sua imagem às retinas dos pensamentos. Eu amava Betina, mas ela nunca conseguiu ser minha musa nesse sentido. Ela tinha apenas a sombra do sorriso. Apenas.

Chegamos em casa, ela foi para o banheiro tomar um banho. O banho demorou mais que o costume. Certeza que ela se tocou pensando no George tocando Miles Davis. Passei a odiar Miles Davis. O celular estava em cima da mesa. Ela não bloqueava o aparelho, eu entrei na galeria de imagens, olhei todas as nossas fotos, Betina estava sempre séria. Olhei a foto com o infeliz do cachecol. Olhei o sorriso, olhei a forma como o pastife segurava as mãos dela, e aquela fileira dos dentes brancos de Betina que cantavam uma sinfonia saindo dos lábios rubros que eu tanto amava. O cachecol vermelho do desgraçado combinava com a boca dela. Seria lindo se eu pudesse enforcar o desgraçado com aquele cachecol e depois amarrar os pulsos dela na cama e amá-la como a última mulher na terra num universo pós apocalíptico.

Ela saiu do banho, caminhou nua e fresca até a nossa cama. Eu estava no meu terceiro copo de uísque tomado na meia luz do quarto. Ela sentou na beirada da cama. Ela estava linda, linda como nunca antes. Eu fui rastejando na cama como um menino ensandecido. Ela estava imóvel, ela estava estranha. Os olhos de Betina estavam brilhantes. Passei os dedos entre as pernas dela. Os lábios estavam úmidos. Eles nunca ficavam assim de imediato quando ela saia do banho.

Estava pensando nele Betina? No seu amigo? Porque demorou no banho? Tu nunca demoras… Você sorriu Betina. Você sorriu na foto. Porquê Betina?

Eu segurei os pulsos dela, do jeito que ela gostava. Eu lambi todas aquelas cicatrizes. Eu disse “Eu te amo” mais de dez vezes. Ela me respondia com gemidos. Mas não sorria.

Você quer se casar comigo Betina?? Casa-se comigo. Seja minha…

Stay little valentine
Stay
Each day is valentine’s day… 

Eu cantarolei essa música nos ouvidos dela, enquanto a penetrava num desespero dos néscios… Quando eu lancei meu gozo quente e desesperado nela, eu olhei para os olhos lacrimejados dela, e o rosto num misto de tensão, a boca entreaberta…

Porque você sorriu pra ele Betina? Porque você não sorri pra mim Betina??

Peguei o canivete embaixo do travesseiro e cravei no meio dos seios de Betina. Ela soltou um gemido, e um grito. Ficou arfando, cuspindo sangue, pintando os lábios novamente. Arranquei o canivete do peito, Betina me olhou com aqueles olhinhos apertados de compaixão, mas ela me matou por dentro. Ela tentou falar “eu te amo”, mas o sangue a engasgou. Ela tentou sorrir, mas já estava morrendo, E então, para ajudar, eu abri-lhe um sorriso. De ponta a ponta, enquanto eu cantarolava Frank Sinatra,

“The shadow of your smile
Your lovely smile”*

E foi assim, que Betina, meu amor, se tornou minha obra prima. Minha namorada engraçada, de sorriso estarrecedor, ensurdecedor, vermelho rubro e com aquele gosto inesquecível da ferrugem de amores que não deram certo. O jazz vai salvar o mundo. Basta você sorrir querida…

 

Toda arte será perdoada.

“A irresponsabilidade faz parte do prazer na arte; é a parte que os acadêmicos não sabem reconhecer.”  (James Joyce)

Era uma manhã qualquer no dia de Augusto, 34 anos, professor de artes. Deitado na cama disposta no canto de um ateliê improvisado, o artista  olhava os quadros na parede vermelha e em outros closes, desdenhava os quadros não vendidos encostados no canto da parede. Qual será a próxima obra? Mais uma encomenda de retrato?

– Poderiam tirar selfies e pendurar na parede. Era quase a mesma coisa.

Pensava ele, olhando para o teto e as hélices do ventilador espalhando bafo quente de quarto fechado.

Não podia criar nada além do óbvio fotográfico que lhe era entregue, então qual era graça? Entregavam-lhe uma fotografia, “faça meu retrato exatamente como está aí”. Ele aceitava. Dinheiro era algo ao qual não poderia dispensar.

-Querem pagar um preço de banana nos meus quadros. Pagam uma fortuna em quadrados e espirros de tinta num fundo branco.

-Qual o valor da tua arte Augusto?

Sussurrou a moça dos lábios entreabertos carregados de luxúria.  Ela estava em todos os lugares, em várias perspectivas, pois quem sabe assim sua expressão fugiria do óbvio. O rosto de perfil, o rosto de frente, o rosto na tela do monitor. O rosto queimando no Inferno. Ele poderia fazer uma musa, uma ninfa, uma deusa. Mas era apenas uma moça numa fotografia. Numa fotografia mesquinha cheia de lugares comuns.

-Qual o valor da tua arte Augusto? Augusto… Augusto… Qual o valor da tua arte Agusto?

Os lábios entreabertos. Quase um convite para o abismo.

-Qual o valor da tua arte Augusto? Augusto… Augusto…

-Eu preciso fazer algo único. Algo que me eleve. Preciso fazer o meu nome, ter meus quadros expostos num museu famoso, com gente rica arrotando caviar e champagne que todos fingem ser bom, mas tomam apenas por status.  Não posso ser reconhecido depois de morto!

– A vida é injusta meu caro. Pegue seus pincéis, pegue sua arte, jogue na fogueira, tire suas roupas e se atire também. Queime até a morte. Até a Morte. Talvez ela reconheça sua arte. – disse a Vênus de costas, sem cabeça e corpo lânguido que falava. 

– Pare, apenas pare. Não tenho, não posso parar para pensar na tragédia que vai ser minha vida. Preciso fazer algo único. Preciso correr…

– Corra Augusto… Corra de si mesmo, mas leve os pincéis. Talvez dê para pintar sua própria loucura, com seu próprio sangue – disse o rosto da mulher dos olhos tristes e sombrios de tinta acrílica…

-Que Deus e o Diabo tirem isso da minha cabeça. Preciso de tempo. Preciso correr. Isso! Eu vou correr…

Augusto enxugou o corpo, colocou a roupa e o tênis de academia. Aqueceu o corpo em casa e saiu andando pensativo, com os olhos castanhos e dissimulados fitando ora o horizonte, ora o chão. Era um homem belo, carregando nos ombros todo o questionamento do que era de fato a Arte,

– A Arte, pode ser obscena… Mas ela pode ser imoral?

Pensou na obscenidade e imoralidade da Arte enquanto se alongava nas barras de aquecimento do parque. Esticava  as pernas, os maxilares se contraiam. Uma tonelada de tensão desenhava o contorno daquele rosto.

-Preciso correr, preciso correr… A Arte sempre espera… Ou não. Posso morrer amanhã. Não posso morrer antes de atingir a glória. Eu não tenho medo da Morte. Da minha morte.

Ao longe, durante ofegantes respirações e um turbilhão de pensamentos, as pessoas de sempre das manhãs de corrida no parque se aglomeravam em torno de algo. Algumas pessoas estavam com as mãos tapando a boca, crianças com suas mochilas de personagens de desenhos teoricamente infantis, velhos de passos lentos, orelhas peludas e mãos trêmulas, viaturas da polícia militar. Expressões de horror, dor, conversas em paralelo.

– Era amante de um traficante. Tinha só 20 anos.

-Ela o traiu com um cara da facção rival. Eu escutei o tiro de madrugada.

-Era tão linda… Tão jovem… Mas era a vergonha da família.

Aos poucos se infiltrou na orgia de gentes. Ali, ao lado da pista de terra batida do parque ao qual corria quase todas as manhãs, estava um corpo. Um corpo nu. Mas não era qualquer corpo: jovem, com longos cabelos azuis, pele pálida como um chão coberto de flocos de neve violenta e fria, pernas torneadas com panturrilhas e coxas tatuadas, os olhos borrados e delineados de negro, a boca rubra de batom e sangue meio coagulado, os olhos abertos, fitando o absurdo.

– Eu disse pra você trazer os seus pincéis.

Disse o corpo inerte e frio, aparentemente úmido de orvalhada da manhã. Uma musa que provavelmente implorou para não morrer, mas foi silenciada pela força das mãos de seu assassino.

Ali estava o que precisava. Uma epifania perfeita. O elã azul nobre dos longos fios de cabelo da vítima misturava-se com o sangue que escorria da lateral do crânio, formando uma nuance que parecia um vinho bordeaux decantado numa taça delicada. Um relevo de ossos pedaços de massa encefálica se misturava na poça de sangue, com as roupas espalhadas e rasgadas a poucos metros.

Nada era mais obsceno que aquilo. Nada era mais artístico que aquilo. A imoralidade da arte residia ali, naquela cena. Os maxilares de Augusto se contraíram, os nervos, os tendões, a pele arrepiou, um suor frio escorrendo da testa. Resolveu sair dali, antes que pensassem que ele era o assassino. Saiu dali correndo, mas diferente de outros dias, havia algo muito indecente naquele rosto. Expressões sórdidas, um tanto triste, um olhar distante, o branco dos olhos quase tomados por pupilas dilatadas, respiração ofegante acima do normal. A boca como se quisesse soltar um grito de prazer, os olhos de lunático. O corpo suava em devaneios, as passadas da corrida eram pura pressa, impaciência, ansiedade.

Abriu a porta da casa forma esbaforida, quase chutou a gata cinza que dormia no chão do estúdio improvisado na sala. Afundou o corpo no sofá de couro negro. Olhou para a parede vermelha… O rosto feminino de traços delicados o fitava:

– Eu disse para você levar seus pincéis. Corra Augusto, pinte, chore, tu não passas de um grande feto. Vai Augusto. Cresça. Faça de tua Arte a tua glória. Modigliani morreu com 36 anos. Ainda dá tempo… Corra, corra…

-Você parece sorrir agora… – disse Augusto ao fitar o retrato de Christine, a dona da encomenda no monitor do computador.

-Você parece sorrir em todas as perspectivas… – sussurrou Augusto, suado, trêmulo e excitado.

A Christine do retrato em papel fotográfico estava rindo. Um riso bufão, um convite. A mesma mulher, mas a Christine da foto de perfil de Facebook estava com uma expressão de excitação, olhos fechados, boca entreaberta, cabeça pendida levemente pra trás. Segundos depois, a mesma mulher, mas uma expressão cheia de assombro: Os lábios não estavam mais entreabertos. O sorriso enorme, aterrorizador, como se os lábios tivessem sido abertos por uma lâmina de ponta a ponta…

O celular tocou. Era Christine. Augusto olhava atônito para o celular que vibrava em cima da mesa. A mesma Christine na tela da foto de perfil do Facebook continuava gemendo com a boca rasgada de ponta a ponto. A mesma mulher no papel fotográfico continuava rindo. A mesma Christine o chamou no celular.

Olhou para os quadros na parede,

– Atenda Augusto! Atenda! –

A mulher dos olhos de acrílico estava com feição enfurecida. O corpo da Vênus sem cabeça se contorcia e se acariciava:

-Atenda a porra do telefone.

Disse o corpo da Vênus sem cabeça.

-Alô… Christina… Estou terminando sua encomenda, não se preocupe.

-Você sabe o que fazer agora. Jogue fora o meu retrato. Você vai ganhar apenas quinhentos reais e um “obrigada” . Você sabe o que fazer agora. Não sabe?

-Sei…

Augusto sabia exatamente o que fazer. Augusto sabia o preço que tinha a pagar por isso. Pegou o celular, ligou para Satinne, uma amiga ao qual sempre posava pra ele.  Apenas modelava. Nada de amor e sexo entre musas e criador.  Augusto era dono de uma moral e ética que assustava. Oportunidade nunca faltou. Era um homem belo, de traços másculos e que atraia a maioria das mulheres. Já beijou uma mulher no ônibus, uma desconhecida de pernas lânguidas e tatuadas. Bastou um único olá. Estava bêbado, voltando das festas de final de ano ao qual sempre tem de se justificar a escolha de ser artista num país ao qual a arte não é reconhecida tal como deveria…

-Até quando vai viver de pintar retratos Augusto? De dar aulas de desenho para desajustados como você?

Trabalho e sexo não se misturam. Isso sempre foi sagrado.

– Satinne… Tenho um trabalho e preciso de você. Grana boa, te pago adiantado. Só te peço uma coisa…

-Que coisa? Se for dinheiro emprestado, eu não tenho.

-Nãooo! Muito engraçadinha você! Sempre cheia das piadas e ironias! Preciso que seu cabelo esteja azul.  Tenho uma amiga cabeleireira que vai cuidar disso pra mim. Acredita em mim? Vai valer a pena…

-Ok, me passa as instruções por Whatsapp. Pra quando precisa?

-Sábado à noite.

Passou três dias em constantes monólogos com seus quadros. Limpou o estúdio, planejou cada perspectiva. Segunda-feira terá folga e na terça um feriado. Seriam três dias para eternizar sua glória e escrever seu nome no cânone da arte. Sonhava com a morta do parque. Ela ficava na espreita, com os olhos negros e vazios encarando no vão da porta. As unhas pintadas de preto arranhavam-lhe as costas de noite. Os dedos gelados percorriam-lhe o pescoço, os cabelos e nuca. Ela se jogava no sofá e afiava as unhas de quatro… Emitia sons tal como uma gata. O cabelo azul cheio de sangue coagulado exalava cheiro de ferrugem. Augusto sentia na boca um gosto amargo como se estivesse a beijar a morta a noite inteira. Sentia-se dolorido. Faltou da escola que trabalhava três dias seguidos. A gata cinza se arrepiava inteira quando ele se aproximava. Ele não falava mais com a família, nem como os amigos. Ele era um prisioneiro, num universo de David Lynch:

She is an imaginary girl
A fiction
I am a dog on a chain

Satinne, a modelo, chegou ao sábado final da tarde. Estava tudo pronto. O chão de uma brancura impecável, as paredes vermelhas ficaram mais rubras, os quadros o fitavam e repetiam num grito ensurdecedor:

– Chegou a hora Augusto. Pinte. Grite. Goze. 

-Seja gentil com as cores

– Não… Sejas violento com elas. Sádico e violento.

Satinne estava linda. Pálida, com longos cabelos azuis. Dona de uma beleza que doía.

– Olá Augusto! O que você vai aprontar comigo hoje?

– Você será eternizada. Você quer café de coador ou vinho?

– Tu sabes que eu tomo vinho porque eu fico nervosa perto de você.

– Porque fica tão tensa?

– És um homem belo. Sedutor. Mas não abandona a moral.

– Nem sempre…

– Nem sempre?

– Hoje vou beber contigo. E não vai ser café.

– Ora… ora… O que eu faço enquanto você abre o vinho?

– Tira a roupa… E passe um batom vermelho. O mais obsceno que você tiver. Quero olhos bem marcados.

– Você está diferente Augusto…

– Tira a roupa e, por favor, não faça mais perguntas. Pode fazer isso pelo amor dos deuses?

A mulher de olhos de tinta acrílica sorriu com os olhos de crítica:

– Seja gentil com ela…

O corpo da Vênus sem cabeça se contorcia.

– Não faça com ela o que fez comigo. Por que você me pintou sem cabeça?

– Sempre sou gentil com minhas musas.

– Você transa com outras musas? – disse Satinne enquanto tirava os sapatos.

-Não. Mas hoje pode ser que eu abra uma exceção.

Ele encheu duas taças. Um bom vinho bordeaux numa taça delicada. Satinne tirava o vestido verde escuro. A meio fina preta dava uma sutileza nas tatuagens nas pernas.  Augusto preparava o cavalete e a mistura das paletas. Precisava dos tons perfeitos. O vermelho chinês, o negro, o branco zinco.

Satinne estava nua, cobria os seios com as mãos. Ele apontou para a taça em cima da mesa.

-Aquela é sua. Beba.

Ela pegou a taça. Augusto viu que as mãos dela tremiam.

-Calma. Só estou tenso porque é algo grandioso. Você vai fazer parte desse grande projeto.

Satinne entornou quase toda a taça. Ficou olhando para a borra de uvas que ficou ao fundo.

-Combina com teus cabelos.

-O que?

-As borras decantadas. Elas fazem parte da obra, entende?

-Não entendo. Não entendo nada de arte, mas gosto quando você me chama.

-Preciso que você se deite no chão. Ele está um pouco frio, mas preciso do contraste do branco do piso e do teu corpo. Vou criar um contraste entre o branco, o azul do cabelo e a borra da taça.

-Vai pintar minha morte é?

-Ando flertando com a morte há tempos… Sabia?

-Não. Pare com brincadeiras. Estou ficando preocupada.

-Deite-se. Quase de lado, mas não completamente.

Ele parou em pé, em frente ao corpo nu da modelo. O corpo estava arrepiado de frio. Ele olhou pra ela com a compaixão torpe de um felino em frente à presa. Pegou a garrafa de vinho em cima da mesa, se posicionou em frente ao corpo. Não falava nada. Ela estava encolhida, quase como um feto, mas os olhos dela o fitavam. Ela se arrastou de quatro até seus pés de seu criador, e subiu devagar até atingir-lhe a boca. Ela estava com um olhar de um copo de cólera:

os olhos não eram limpos e revelavam um corpo tenebroso.

As mãos estavam frias.Frias e trêmulas. Augusto percorreu o corpo da musa, num desespero de uma criança com fome procurando os seios da mãe. Mas ele não poderia se deixar levar por tentações. Enfiou a mão nos bolsos e pegou a estaca que usa para talhar madeira. Esculpiu-lhe um buraco na cabeça com um único e violento golpe. Estava ali sua própria literatura, quase russa. Ela ficou um tempo em choque, com os olhos fitando o teatro do (im)possível reductio ad absurdum da cena, até desmoronar e se entregar para a eternidade. Qual a última cena que lhe passou na mente, antes da Morte lhe dizer: “Venha”?

Satinne era um corpo inerte ao chão, em frente à parede vermelha com os quadros falantes. Augusto arrumou o corpo, para deixá-lo o mais próximo possível do homicídio no parque. Arrumou os cabelos de forma que eles se misturassem no meio da poça vermelha que se formou ao redor. Com a ponta dos dedos, passou os dedos sujos de sangue ao redor da boca vermelha de batom barato. Ao olhar para os olhos de Satinne, percebeu que a musa chorou. Ainda restava um pouco de lágrima nos olhos abertos. Mas ele precisava de mais. Molhou um algodão, borrou propositalmente os olhos da musa, em seguida arrumou o corpo de forma que as tatuagens fossem ainda que sutilmente vistas. Trabalhou nas sinuosidades, na classe, no anatômico e no metafísico. Arrumou o sofá de forma que ficasse de frente ao crime. Atrás do sofá, os quadros na parede vermelha. Toda a cena, cheirava sangue, vinho derramado, dor e delírio.

-Perfeito… PER-FEI-TO – gritava todas as bocas, todos os corpos, todos os retratos não vendidos.

Pintou a cena durante dois dias seguidos. Mais do que isso o cheiro do corpo ficaria insuportável e chamaria a atenção dos vizinhos. Eles poderiam entrar antes do vernissage estar pronto. A gata já estava lambendo a fissura do crânio. Ele achou poético. Acrescentou na pintura.

Ele olhava para sua obra, cantarolava Lynch numa sordidez encantadora,

Swing pretty girl
Swing
It ain’t real anyway
Fields so blue
All drenched in red

Após terminar tudo, tomou um banho, longo, relaxante. A água quente caia como um bálsamo, levando um rio de tinta, sangue, suor e gozo ralo abaixo. Não se secou com a toalha: Contemplou sua obra novamente, nu e encharcado, detalhe à detalhe:

No quadro exposto no cavalete, a cena da mulher morta no piso frio e não mais branco. Os cabelos azuis imersos no sangue formando rios de nuances, um trecho de aurora azul num rio vermelho. A gata cinza lambendo a ferida do crânio com os olhos amarelos provocadores. Ao fundo, sentado no sofá, o autorretrato do criador completamente nu contemplando a própria obra. Estava como um Deus contemplando a própria criação violenta e quase passional. Atrás do sofá, a parede vermelha, o corpo da Vênus, torneado, lânguido, de costas, como se estivesse à ignorar a cena. O outro quadro do rosto da mulher triste, estava à rir. No cavalete do lado esquerdo, tanto na pintura quanto na instalação, a encomenda de Christine, o retrato com a boca rasgada de ponta a ponta e com os olhos vazios de órbitas.

Em frente à “obra dentro da obra”, montou um pedestal com um papel escrito à mão, apresentando a arte dos quadros e a instalação que iria terminar, com o criador morto no sofá, com gosto de vinho amargo e decantado na boca.

“Hoje eu vou transbordar.

Todas as minhas cores.

Todas as minhas emoções

Toda a minha arte.

Hoje eu pintei todas as arestas escondidas dos meus dias.

Toda inspiração é imoral.

Toda arte é sórdida.

Toda arte será perdoada.

Inclusive essa.”

Instalação e Óleo sobre tela “O tríptico: arte, crime e castigo” – Augusto de Carvalho (1982-2017)