Stains on the memory

Não se discute. O silêncio perante uma série de discussões sem razão na noite de domingo, enquanto a televisão vomitava seu lixo indigesto. Fui picando uma folha de papel abandonada na escrivaninha da sala. Enquanto as pessoas riam das desgraças alheias e alguns tinham sorrisos incontidos dentro das calças. Cada pedaço de folha branca rasgado às mínguas, papéis sem importância, despedaçados. Sinto o vinho dilacerar a alma como se quisesse me cortar em pedaços. Minutos antes, eu ouvia o tilintar de copos, garfos, facas, bocas se mexendo, comida sendo mastigada. Mais um pouco de percepção, eu poderia ouvir a comida caindo no estômago e o barulho do ácido gástrico queimando o pedaço de carne ao molho madeira sendo destruído. E as bactérias dos intestinos alheios fazendo festa. Era só mais um pouco para escutar a festa torpe de todos os humores da sala e os mesquinhos pensamentos de uma vida vazia e sem pretensões. Era só mais um copo de vinho, para adormecer com a cara na mesa, e em sonhos desconexos eu ver os rostos das pessoas que eu mais amei, misturando-se em desenhos e manchas de paredes. Eu acordei, com uma cara embasbacada, amassada, assustada com os olhares alheios de quem disse que eu falava sozinho. O jornal noturno passando na televisão, a desgraça do acidente de caminhão com engavetamento, “Morreram todos, que desgraça, que desastre”, “Morreram todos”, “O motorista estava bêbado”… E aqueles olhares perdidos, balbuciando que eu perdi a programação de domingo, como se eu realmente me importasse com aquilo tudo. E a garrafa de vinho quase vazia com seu conteúdo vermelho me ditando as desgraças e os sentimentos desentendidos do mundo. No dever de esvazia-la, lanço meu copo a toda sorte de calor e bem aventurança, a toda sorte de acordar no dia seguinte com a ressaca me questionando os porquês, com aquela dor de cabeça gritando aos quatro ventos, e os olhares de reprovação, com o zíper da calça aberto, com os botões da camisa aberto, toda em desalinho.  A barba por fazer, “como um irresponsável”, diz a minha falecida avó. A empregada perguntando se eu quero um copo de café, e eu apenas querendo fazer uma pequena festa entre o meio das pernas dela. O café quente e forte… Posso sentir o cheiro de sabonete exalando do pedaço de pele me servindo, mas eu gosto mais do cheiro do final do dia, aquele suor, misturado com o desespero de querer voltar para casa. Eu poderia espiar a sua nudez no banheiro, ao tirar as roupas velhas de trabalho, mas minha cabeça dói demais, e a cada gole de café eu me lembro daqueles tempos de menino, em que as meninas impúberes iam para escola e em suas camisetinhas brancas eu via a ponta dura dos mamilos ainda em formação. Apenas menininhas, menininhas em hormônios a festejar, me olhavam com desejo, eu sei, mas a garota Suzy… Ahhh Suzy! A única que me deixou ir além. Eu me recordo ainda hoje, aquele beijo molhado e desajeitado, aos meus treze anos, encostado na mureta, longe de olhares. Atrevi-me, e senti aqueles peitos macios escondidos por trás de um sutiã de algodão, e aquela pressão, aquela coisa, o desespero de achar o local certo ao colocar meu tímido e desajeitado pau no meio daquelas roliças pernas de Suzy. A empregada aparece de novo, fazendo contato, o braço dela perto do meu, e sem perguntar se eu desejava mais café, encheu minha xícara, e aqueles braços, aquele perfume. Um dia me apaixonei pelos braços da vizinha. Estava na soleira da porta de casa, numa mágoa adolescente, vi aquela senhora balzaquiana chegando com sacolas pesadas. Pude ver todos aqueles tendões e veias saltadas. Ofereci ajuda, carreguei algumas sacolas. Ganhei biscoitos e chocolate quente. Ela me falava da vida, enquanto amassava a massa do pão. Aquela penugem rala dos pelos, embranquecida com a farinha, e o movimento sublime dela lavando os braços, embaixo da água fria da pia da cozinha, e aquele olhar de que sabia que eu a desejava, mas eu queria apenas amar aqueles braços, aqueles tendões, aquela brancura, a extensão para as mãos cujos dedos finos ela lambia para experimentar a massa de bolos que ela achava que me agradava. E ela achava, ela achava que eu frequentava a casa dela por causa de biscoitos e doces. Eu era apenas um adolescente inocente, apaixonado pelos braços. O tempo passou, os amores vieram, e também se foram, e hoje, eu sou apenas um homem em devaneios de ressaca aquecendo a garganta e a alma com café amargo. A empregada me dá um sorriso, faço-me por desentendido, pego mais café e sento no sofá da sala. E fico ali, olhando para o teto pintado de um verde ridículo. Queria estar louco o suficiente para ver aquelas manchas dançando na parede, aquele mofo formando imagens desconexas, e minha mente voando em um turbilhão de luxúria, corpos ensandecidos como vermes, se misturando, tocando-se, em delírio de gemidos, dor e inconsciência. Mamãe me disse que eu era um doente sacana. Eu sou apenas um homem, que vivia constantemente em uma ressaca quase cigana, de bar em bar, após o trabalho, afogando minhas mágoas e desdém do mundo rançoso. As corporações. Eu poderia escrever um poema sujo e deslavado sobre elas. As pessoas, tão mesquinhas, falsas, a diretoria que nada sabe, as pessoas puxa-saco, lambe-saco, chupa-rolas. É como um prazer desnorteado, insano. Queria dar um tiro de fuzil em cada uma delas. Toda aquela frescura, aquela imundície. E o salário de merda todo final do mês, que minha mãe dizia “Ahhh o dinheiro abençoado”, só se for abençoada pela total falta de amor, todo o ódio dos sorrisinhos alheios das minhas companheiras de trabalho, toda falta de amor, mas excesso de tesão daquela recepcionista que me pedia aos gritos para que eu a levasse  ao delírio. Ela tinha uma bela bunda, peitos macios, mas uma boca que exalava esgoto. Eu a amava, desde que ela fosse como um vinho. Eu a amava, mantendo-a na horizontal, com a boca ocupada. Não é machismo meu caro amigo… Certas mulheres devem ser mantidas na horizontal, com uma rolha na boca, tal como o vinho, entende? Ouço seus pensamentos agora, exclamando “Machista de merda, desgraçado”. Pouco me importo, a sinceridade incomoda, o Amor incomoda.  O amor anda junto com o fracasso. Sentado nesta sala, vejo a empregada limpando o armário. Dá pra ver as marcas da calcinha cavada. Ela me solta outro sorriso sacana. Eu poderia amar essa mulher, essa mulher pode sentir algo por mim, ou apenas achar que eu posso dar-lhe uma boa vida. Estou suando… Suando como um porco, está calor lá fora, ela me diz… E olha para minha camisa suada. Diz que Dona Alzira, minha mãe, saiu. E as manchas na parede parecem estar sorrindo agora, e aquela calcinha cavada também me faz um sorriso. Ela está começando a ter aquele cheiro que eu gosto tanto. Eu poderia consumar o ato no sofá da sala. Tranco-me no quarto, e coloco-me a fitar os lençóis brancos chacoalharem no varal. Aquilo me acalma, por alguns momentos. Aquele desespero sufocante, me atiçando, crescendo e inflando minhas calças, e aqueles braços, o cheiro de café e sabonete, as roupas, os lençóis, a brisa plena da manhã das dez horas, o latido do cachorro, o olhar de desaprovação do gato no galho de árvore. Livre-me, livra-me ó Deus tolo… Dos pecados que me atormentam a alma. Livra-me da vontade de fazer cócegas e desejos molhados na pele daquela mulher. Livra-me de minha mãe dizendo que eu sou um vadio. Eu poderia desertar, me divertir em braços de prostitutas com gonorreia, o amor sufocado e contagioso que eu tanto preciso. Copos de conhaque,cigarros paraguaios, apostas que nunca findam, o dinheiro sujo me dando o poder que eu, um tolo, vulgar e sedento, tanto preciso. Ao final da noite e ao amanhecer satisfaço minhas vontades em uma mulher que eu não sei ou não me recordo o nome. Darei um beijo naqueles ombros, e a mandarei queimar no inferno. Encontro-lhe mais tarde, meu pedaço de prazer, acariciando suavemente teu íntimo, queimando em labaredas a lhe dizer um milhão de sacanagens ao pé da orelha. E eu vejo todas elas, as mulheres que eu amei, e as que eu fingi que amei, indo embora, com um sorriso no rosto, achando que eu realmente voltaria… Eu era… Minha amada, EU sou apenas um garotinho perdido, na soleira da minha porta, em sonhos, em devaneios, aquela falta de sorte regada com o desespero de ter beijos sórdidos todas as noites, de tomar um café ou tomar um vinho sem pensar no meu próprio desespero. Vou deitar nesta cama, cobrir-me com estes lençóis brancos, deitarei nu, com meu sexo totalmente ereto e livre de pudor, deixarei que a brisa noturna me leve todos os meus medos e desencantos. Abra a porta e me veja, contemplando o vazio, como se todas as estrelas do céu viessem me saudar. A velha garrafa jogada ao pé da cama. Entre conhaque, vinho e cigarros, sou apenas um garoto perfeito, uma explosão de vozes e loucura que nunca acaba. Sou apenas uma carícia infindável, aquela carícia que lhe deixa marcas. Eu sou apenas um homem minha querida, carregado nos ombros do pai e da mãe, carregado de sonhos de ir e vir.

 

(TEXTO ESCRITO EM 2013)

 

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A crônica de corpos – Os feijões

Capítulo I

“O bicho humano, fodido, mas sagrado” – Eduardo Galeano

Cinco horas da manhã. Estou estirado na cama depois de uma noite estranha com um misto de frio e calor. Sabe? A noite bipolar? Aquela que primeiro te esquenta, depois te congela. Por hora, me cubro até a cabeça com meu cobertor, outra, estou quase nu, apenas com os pés cobertos. O gato, Fred, dorme ao meu lado abrindo e fechando os olhos amarelos a cada movimento que eu faço. Apenas eu e Fred. Irene me abandonou, por causa de minhas neuras infindáveis. Ao lado da cama, ficou um abismo escuro e fundo, um espaço incompreendido lotado de saudade e cheiro de jasmim. O perfume de jasmim que eu sempre presenteei Irene repousa na cabeceira da cama, precisamente ao lado esquerdo. Todos os dias, antes de dormir, eu borrifo três vezes nos lençóis e no travesseiro. Eu sei. Isso é patético. Não existe nada mais patético do que um homem com saudades. Devaneios à parte, fico deitado olhando para o teto, o ventilador está girando espalhando bafo quente de homem suado e pelos de gato. Fred saiu do meu lado, foi em direção à porta da varanda, do meu apartamento pequeno, porém confortável, arrumado numa perfeição que dói.

Fred está parado, olhando fixamente para a varanda por trás da porta de correr de vidro. Ele está com olhinhos afoitos. Olha pra mim, miando pede para sair. Chega na beirada da cama, se estica e esfrega a cabeça no meu braço estirado…

O que tem ali Fred? Quer que eu abra a porta né?

Estou tentando lidar com minhas centenas de neuroses. Nada nem ninguém vai entrar pela varanda do décimo quinto andar. Eu sempre acho que um dia meu algoz entrará pela varanda e me matará enquanto eu durmo, colocando as mãos funestas no meu pescoço depois de envenenar meu gato com bolas de peixe recheadas com chumbinho. Vou ser estrangulo de forma rápida e silenciosa, sem nem ao menos dar tempo de eu pegar minha Magnum automática na cabeceira da cama e mandar o meu pretensioso assassino ou assassina para os quintos dos infernos. Minha visão vai escurecer aos poucos enquanto meu pescoço é apertado, verei borrões, amaldiçoarei minha vida e as pessoas que eu amei. Enquanto isso, os órgãos de Fred vão ser liquefeitos com a ação do veneno. Após me matarem, tenho certeza que irei direto para o inferno. Será? Será? Será?

Será que o inferno existe mesmo, será que o Inferno é esse mundo que vivemos agora, eu, você… Uma punição de Deus sabe quem… Deus, Deus… Deaux… Olho para o lado, o gato continua ensandecido, agora arranhando as patinhas no vidro da porta. Sento na beirada da cama, esfrego a cara, os olhos, bocejo, dou uma coçada nas bolas e observo Fred novamente…

“Fred… O que tem aí Fred? Não existem ratos aqui!”

O último, Irene matou com uma vassourada. Era do vizinho, que tinha um criação de ratos e eles proliferaram pelo condomínio. Irene foi tremendo, feito vara verde, matou o rato. Paaaaaaaaa… o rato agonizando e aqueles olhinhos de misericórdia. Ela ficou chorosa a semana toda por causa de um mísero rato. Eu matei vários no biotério da faculdade. Era bom aquele tempo. Os cadáveres eram apenas corpos destinados à estudos, coelhos e ratos.

Cheguei perto da varanda, acendi a luz. Era um pássaro, um pássaro agonizando, batendo as asas, cada vez de forma mais lenta. Passei cinco minutos observando a cena, até que o bater das asas cessou. A primeira Morte. O primeiro cadáver do dia.

“Nada de novo Fred! Nada de novo!”

Abri a porta, Fred me seguiu, parou ao lado do pássaro. Eu peguei aquele pequeno cadáver cheio de penas e atirei pela janela. O cadáver caiu no gramado do jardim de inverno do primeiro andar.

“Não fique chateado Fred! Quando eu enlouquecer de vez, comprarei uma casinha no campo pra nós e você vai poder caçar muitos passarinhos.”

Caminhei até a cozinha, bebi o primeiro copo d’água e tomei meu coquetel de vitaminas. Arrastei meu corpo até o banho, um banho bem quente. Olhei para o espelho, que estava embaçando aos poucos com o vapor. Encarei minhas olheiras… Malditos plantões…

12, 36… 48 horas e eu já não sei mais a qual mundo eu pertenço. Era isso que Irene me dizia. Que eu não falava nada com nada pós plantões extensos. Desde que nós largamos, eu enfrento cada plantão como uma facada no peito, nessa minha falsa paz dos trinta e poucos anos. Creio que já tenho 34 anos. Sabe? Parei de contar os anos. Só conto as balas da minha pistola, só conto projéteis, facadas, larvas e insetos em cadáveres. Quanto às balas, ainda permanecem intactas. Não precisei usar. Ainda…

A água quente cai no meu corpo como um bálsamo. É aquele momento que eu me recordo o quão bom é estar vivo. É isso cara! É isso. E o júbilo vem. E vem a lembrança de Irene nua, com os pequenos seios duros, fazendo graça, jogando água na minha cara. Meu pau fica duro. Ainda mais. Preciso aliviar, porque chega a doer. Dói. Como dói. Miro em todas as paredes do box. Com louvor, com comiseração. Uma vez li um livro ao qual o personagem perdeu a esposa, trancou-se no quarto, juntou todas as fotografias dela e passou o dia inteiro batendo punheta e esporrando nas fotografias. Cara doente… Eu pego o chuveirinho e lavo o box. Lavo a porra toda sabe? Nojento isso cara… E se for visita em casa? Vão achar que eu sou um tarado… mas faz tempo… que não vai visita em casa. Sou praticamente um solitário na selva de pedra.

Após o banho e gozo sagrado, coloco minhas vestes, o clássico jeans, camiseta preta lisa, meio larga para disfarçar a pistola na cintura, distintivo pendurado no peito, do lado de dentro. Pego meu moletom com capuz, vestirei quando descer do carro. Pego as chaves do carro, me despeço de Fred, que está a lamber as patinhas. Há um “q” de ódio felino no olhar. Deve ser porque eu atirei o pássaro pela janela. Ele não quis se esfregar nas minhas pernas. Ele sempre fazia isso, antes de eu sair. Mas não dessa vez. Irene também fazia isso. Quando ela estava brava comiga, ela me evitava. Não me beijava, não me tocava. Ela se transformava numa esfinge. Isso pra mim era um tapa na cara com luvas de pelica. Ela ficava em silêncio, sentada na poltrona, olhando fixamente para a minha pistola em cima da mesa. Quantas vezes ela, em seu silêncio, tentou me matar?

Desci pelo elevador, cheguei na garagem, entrei no carro e segui pela selva de pedra. Deixo meu carro no estacionamento, meio longe da delegacia. Vou à pé até o trabalho, no meio do povo, um anônimo, observando os corpos, que passam, que gritam, que exalam cheiros, desejos, pudores. Se tocam, se xingam, fluídos, cuspe, escarro, merda, urina. Muitos eu já encontrei no fim da jornada… O final da jornada deles não tem hora certa para acontecer.

“E aí Doutor! Como está! Como foi tua folga?”

“Estou revigorado agora Luis! Praticamente novo!” – (mentira, estou exausto)

Luís é o guarda do estacionamento ao qual largo meu carro. Trabalha lá desde o meu primeiro dia como policial. Ele me chama de Doutor. Eu não sou Doutor. Não estudei para ser Doutor. Tenho especializações, tenho mestrado… Mas estou longe de ser doutor. Mas pra ele, eu sou o cara, porque nas palavras dele, quem lida com defunto todo dia, tem que ser forte. E de fato… ele não está errado. Muitos deles, os cadáveres, me atormentam em silêncio, até hoje.

“Deus lhe acompanhe Doutor! Sei que é seu trabalho, mas espero que não matem ninguém hoje!”

Luis, todos os dias, durante dez anos, sempre me disse isso: “Deus lhe acompanhe Doutor!”

Eu não acredito muito em Deus, mas eu sempre respondo, como se fosse um ritual: ” Deus nos acompanhe Luis!”

Coloco meu moletom com capuz, meus fones de ouvido, mãos nos bolsos do moletão, distintivo escondido, arma presa na cintura, longe de vista. Sigo caminhando, atravessando multidões de gentes todos os dias. Sigo em direção ao terminal de ônibus, que sai num túnel cheio de ambulantes gritando mercadorias. De lá passo no centrão, e finalmente chego na delegacia.

Ao entrar no terminal, na faixa do meio ao qual o povo atravessa com pressa, sono e fome, o vendedor de feijões verdes sempre me oferecia dois canecos na promoção por seis reais. Eu apenas abanava a cabeça, sempre em negativa. Todo dia ele me oferecia, na ida e na volta. Nunca comprei. Nos cumprimentávamos sempre, e no olhar dele, tinha sempre a pergunta estampada:

“Quando esse maldito vai comprar feijões?”

Durante oito meses o rapaz chegava no terminal com a carriola de feijões verdes. Quando ele não estava no terminal, ele estava perto da galeria na avenida perto da guarda municipal. Sempre gritando: feijões frescooooooos.

Hoje, na ida, ele estava lá. Pochete na cintura, bermuda, sentado num pequeno banquinho, brincando com os pequenos feijões entre as mãos, gritando o anúncio.

Olhou pra mim, não disse nada. Apenas acenou.

No final da tarde, a jornada dele chegou ao fim.

Apagaram o cara. Execução nua e crua no meio do povo. Nome da vítima: Antônio César Sobral Villela, o Sobral. Eu tinha acabado de voltar de uma ocorrência crime sexual. Estupro. Mulher, jovem, 30 anos, abandonada num terreno baldio com um pedaço de madeira cheia de pregos enferrujados enfiada na vagina. Foi estuprada por mais de uma pessoa, evidências apontam quatro tipos de pegadas diferentes e o esperma também tinha diferentes texturas. Deixei as evidências no setor de provas, tomei uma água, um café e fui para o Terminal. O cadáver estava estirado no chão há quatro horas, aguardando perícia. Sabe como é…

Meu assistente estava nervoso, batendo as pernas na viatura, gesticulando enquanto segurava a prancheta.

“Multidão… Eu sempre odiei multidões. Aqui diz que mataram um vendedor ambulante de feijões no Terminal Central. Imagina o caos… Sabe como é… o espetáculo, o caos, os curiosos…

As velhas gritando: “Deus o tenha…. Misericórdia!”

Chegamos ao local, a cena porcamente isolada. Uma mulher estava roubando os feijões próximos à carriola, que aparentemente foi jogada. A poucos metros, o cadáver estava coberto com um pedaço de papelão segurado com pedras.

Respirei fundo, Coloquei um chiclete de menta a trabalhar na boca, pois de certa forma, me acalma. Multidões. Crimes no meio da multidão me dão desgosto e muito trabalho. Cenas porcamente isoladas. Crianças, mulheres, jovens, velhos, cachorros…

A mulher me viu parado ao lado dela, continuou roubando feijões, ao lado do defunto.

“Senhora, por favor, isso aqui é uma cena de crime, por favor, queira se retirar, pode ter sangue nesses feijões…”

“Preciso dar de comer para meus seis filhos. Você sabe o que é passar fome seu polícia? Sabe? Você sabe? Lavou tá novo! Entende? Você sabe? Sabe?”

Olhei para o policial militar que estava apenas olhando para o nada. Ele acordou pra vida e tirou a mulher de lá, pelos braços. Ela se juntou à multidão, segurando fortemente o saco de feijões, como se fosse um saco cheio de moedas de ouro. Me olhava com ódio:

“Você sabe seu polícia?”

Não. Não sei.

Olhei a cena, os feijões verdes espalhados na via, bem na faixa de pedestre do corredor de ônibus, na via central. Dois tiros à distância nas costas, um no flanco direito e um bem no meio da espinha. O assassino finalizou com um tiro encostado, na nuca.

“Chutaram os feijões dele Doutor. Que dó. Uma vez comprei dois canecos dele. Ele fez promoção, dois canecos por cinco. Levei para o meu pai, ele fez no fogão à lenha do rancho, com carne seca e costelinha de porco. Ele queria por coentro, mas coentro estraga as coisas.”

Lívia, fotógrafa técnico-policial tinha sempre algo muito relevante à dizer, ela sempre tentava, de uma forma até meio incorreta, deixar o ambiente um pouco alegre. Mas às vezes, Lívia falava por demais. Examinando os buracos percorridos pelo projétil, veio-me à cabeça o cheiro de feijão fresco, recém pronto, que minha mãe fazia todo sábado. Sempre me pego nas lembranças, que vão embora rápido, pois preciso ser o mais meticuloso possível. Parece sórdido, mas ao lembrar do cheiro de feijão fresco de minha mãe, brotou um sorriso alegre no meio da minha mastigação de menta. Maldita Livia!

Pagamento de dívida, ele era viciado, estava devendo na biqueira.

Era isso que a multidão dizia.

Deus o tenha

Misericórdia

Deus tenha piedade

Que morte horrível

No meio do povo

Eu saí correndo, o tiro quase me pegou

Que policial gato

Quando eu crescer quero ser CSI

Toda cena, toda multidão, um mundaréu de corpos vivos e falantes, amontoados, comendo pipocas invisíveis e brindando o caos e o sórdido. Velhas, velhos, homens, mulheres, adolescentes, crianças. Todos olhando nosso trabalho, tirando foto, dando palpite, rindo, chorando…

Valmires, agente do IML, me telefona dizendo que está com o rabecão cheio de defuntos, pois teve acidente de ônibus na estrada. Deixaria-os no IML e dentro de 30 minutos chegaria ao local.

Trinta minutos passaram, depois de duas horas e meia de perícia, finalizo meu trabalho. Ao longe, Ramires, com dificuldade tenta entrar no terminal. Depois, mais dificuldade para manobrar. Eu observava, a militar pedia para a multidão se afastar e parar de tirar fotos. A mulher da sacola de feijões roubados me cutucou o braço:

“O que vão fazer com os feijões?”

Ignorei, me afastei. Isso me mata. Aos poucos. Dou um riso. Por dentro, trágico, triste.

O ser humano… o bicho humano… Individualista… Arrogante… Fodido

Mas sagrado.

Deus te abençoe Doutor

É isso que diz o Luiz, todos os dias.

Os feijões À mesa, família, seis crianças comendo, afoitas.

Misericórdia

Deus a Tenha

Deus nos acompanhe

Valmires chegou, posicionou o rabecão, desceu com as luvas já calçadas,

E aí Doutor! Quantos feijões hein! Meu pai sempre fez esse feijão com carne de porco e coentro… Se não fosse o sangue, daria uma boa panelada né?

Valmires, junto com Caio, outro agente, abrem a porta do rabecão, e o fedor de defunto passado invade o local.

Deus o tenha

Misericórdia, que fedor

Deus tende piedade

Jesus Cristo

Como eles aguentam

Que horror…

Olho para os feijões espalhados no chão, vários deles manchados com sangue coagulado. Suspirei fundo, peguei minha maleta. Ao tentar sair da cena, a mulher dos feijões me cutucou de novo.

“Seu polícia, posso pegar os feijões?”

Eu apenas olhei, suspirei, pensei nos muitos laudos a fazer. Apenas olhei bem fundo nos olhos da pobre mulher.

Nada falei.

“Deus te abençoe e te acompanhe seu polícia!”

Entrei na viatura. Fiquei em silêncio observando os últimos trabalhos. Ao retirarem a fita de isolamento, o espetáculo continuou. Os feijões sendo colhidos um a um, como se fosse uma grande mesa de família, ao qual o pai ou a mãe escolhem os melhores feijões. Estava ali, a grande mesa, a grande irmandade, a fome, o desespero, um mundaréu de gentes, corpos vivos…

Uma grande mesa. O ser humano… o bicho humano, fodido… mas sagrado.

 

O Silêncio

Perante a cólera nada é mais conveniente do que o silêncio. (SAFO)

 

Cheguei exausto no ponto de ônibus. Ando completamente estressado, conversando alto com meus próprios silêncios. A ansiedade gritando, ferindo minha mente com prazos e resoluções estouradas. Todo som é uma tormenta, mas o médico com cara de personagem alucinado de desenho animado diz que o que eu tenho é apenas cansaço.

-Você precisa descansar Anderson! Tirar umas férias, namorar, fazer o que ama.

Namorar… NA-MO-RAR

Namorar me deixa ainda mais estressado porque eu sempre tenho de corresponder às expectativas de alguém e eu nunca sou ou serei bom ou bastante para elas. No máximo um cara bonito pra elas mostrarem para as amigas. Ao final, apenas sento na mesa, coço minha barba e fumo um cigarro vendo elas irem embora sem nunca mais voltar. Pratos de comida à mesa, taças vazias, um gozo na boca e outra nos orifícios e mando elas para o limbo do esquecimento, porque nunca vou ser o suficientemente bom pra elas, porque geralmente elas acham que eu sou O CARA.

Mas eu não sou.

Será que eu já fui? Fico perguntando. Lili dizia que eu era encantador. Passados alguns meses ela mudou de opinião e disse para meio mundo que eu fiz da vida dela um inferno e que ela não queria mais olhar na minha cara. Desde então eu deixei a barba crescer, assim ela não tem de olhar para a mesma cara quando nos cruzamos no corredor do fórum. Falando em pelos na cara, dizem que o homem fica mais bonito. De fato, apareceu mais mulheres na minha vida, mas a barba apenas garantiu mais corpos. O tempo era o mesmo, os motéis também, os vinhos, copos e talheres à mesa. Depois, o vazio.. Mas é bom coçar a barba enquanto eu fumo, pensando no que eu fiz de errado. Foram 10 minutos de caminhada do fórum ao ponto de ônibus. Nestes dez minutos eu pensei em tudo isso. Eu só queria silêncio. Eu poderia pensar nas táticas de meditação que minha terapeuta passou. Respira fundo, encher os pulmões, reter o ar pelo dobro de tempo que levou para aspirar o ar, soltar o ar neste mesmo tempo, depois fazer três hiperventilações. Eu fiz. Minha barriga doeu. Fiquei mais ansioso. Fui interrompido. Por uma criança gritando. As palavras de veludo da terapia, as recomendações da terapeuta foram cortadas pela voz estridente indisciplinada.

Acendi um cigarro. A menina continuava gritando. A dona da prole incitava a criança, que estava gritando com a vó que tentava falar ao celular, gesticulando para que a menina ficasse quieta.

– Ooooooooooooo vóoooooooooooooooooooooooooooo. Vóoooooooooooooooooooooooo

A mãe ria, achando engraçado ver a vó da criança irritada.

-Vai lá, grita de novo, deixa a vó irritada!

-Oooooooooooo vóoooooooooooooooooooooooo… olha pra mim vóoooooooooooooo!!!

Gritos. Gritos. Gritos. Ela me irritava, já tinha os meus próprios gritos. Acendi outro cigarro. O ônibus estava atrasado. O lugar era quase ermo, o fórum ficava numa área afastada da cidade, fora o barulho de alguns carros, ônibus e advogados tagarelas, geralmente eu conseguia lidar com o barulho que ali existia. Mas ali, naquele momento os gritos da menina que além de gritar, ria estridentemente, estava cortando-me o fino fio da paciência. Eu olhei ao redor e vi as pessoas em silêncio, visivelmente incomodadas com o próprio silêncio sendo cortado por uma pirralha de talvez uns 7,8 anos no máximo.

-Vai lá filha, grita pra vovó ficar irritada.

-Ooooooooooo vóoooo!!! Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh, olha pra mim vó! Oooooooooooooooooooooo vó… Vem me pegar!

Os berros da criança. Agudos, irritando. A fumaça do meu cigarro entrava nos meus pulmões queimando. A voz ensurdecedora da criança consumia minha paciência, minha paz, meus silêncios.

A menina passava correndo ao meu lado, no beira fio da calçada.

Gritos, gritos, gritos

Ouvi meus próprios gritos, ouvi os gritos das mulheres que eu peguei enquanto eu me concentrava em dar prazer. Ouvi os gritos dos meus primos apanhando após quebrar a janela da vizinha, ouvi os gritos da minha velha mãe chorando na beirada do caixão do meu pai, aquele desgraçado. Ouvi os gritos de minha irmã que gritava enquanto meu ex-cunhado batia nela sem motivo.

Ela passou correndo novamente. Gritando. Veio um ônibus. Apenas um empurrão. Não teve tempo para freios, nem reações. Empurrei a pirralha na frente do ônibus.

De repente tudo ficou silencioso numa argamassa de sangue, vísceras e ossos. Ao menos pra mim. Pra sempre.

 

 

Engole

“Vede a criança, rodeada de porcos a grunhir,
Desarmada, encolhendo os dedos dos pés.
Chora, não sabe fazer mais nada senão chorar.
Será alguma vez capaz de ficar de pé e de caminhar?
(Friedrich Nietzsche, in “A Gaia Ciência”)

Quando eu era menino, meu pai tinha uma criação de porcos. Nós éramos em três meninos e uma menina. Quando não tínhamos obediência para com ele, ele nos mandava para o chiqueiro de porcos e lá tínhamos de ficar o dia inteiro, no meio da sujeira e dos grunhidos. Nosso pai sempre foi muito rígido com tudo, até com ele mesmo.  Nunca nos deu um abraço, um elogio. Nada. Ele sentava à mesa na hora das refeições e entrelaçávamos as mãos para as orações. As mãos de minha mãe sempre tremiam. Eu achava que elas tremiam apenas em dias chuvosos, ou prenúncio de chuva, pois ela sempre dizia:

“Uma tempestade se aproxima querido. Eu tenho medo de tempestade”.

Depois, com a idade, descobri que minha mãe sempre tremia, mesmo em dias de céu limpo e ensolarados. Ela tremia, em todos os momentos aos quais meu pai estava por perto.  As mãos dela era de uma delicadeza áspera, mas ao mesmo tempo cheia de ternura, ainda que as mãos tremessem…

De medo.

Hoje eu entendo…

Fazíamos as orações e comíamos sempre religiosamente no mesmo horário. Após as orações mantínhamos os olhos baixos no prato de comida e as bocas ocupadas, mastigando e bebendo em silêncio. Um dia o silêncio foi cortado porque minha irmã saiu da mesa e não pediu licença. Ela foi dormir com a boca sangrando e com o rosto com um grande hematoma que demorou dias para sair. Um único tapa, e o sermão enérgico e cheio de ódio de meu pai:

– Engole o teu choro e peça desculpas agora…

-Mas… Mas…

-Engole…

-Des-des-culpa pai…

-Engole teu choro, fale mais alto. Eu não ouvi. Vocês ouviram?

Eu e meus irmãos engolíamos a sopa rasa à seco e em silêncio.

-Não ouvíamos… Mais alto irmã… Não ouvimos.

Não ousávamos contrariar os sermões do pai. Se ele dizia que não ouviu nada, todos nós concordávamos com ele.

– Des-des-des-cul-pa.

– Suba. E você vai limpar o chiqueiro amanhã. Suba em silêncio. Engole esse teu choro que se eu te escutar chorando de novo vai apanhar até desmaiar.

Naquele dia a sopa rala foi ainda mais seca que as outras. O pão, feito à tarde, parecia que foi feito dias atrás, deixado ao ar livre, até endurecer. Comíamos em silêncio, as orações eram o único momento ao qual escutávamos nossas próprias vozes.

No dia seguinte, fui procurar minha irmã no chiqueiro. Meu pai ordenou que ela o lavasse e trocasse a lavagem velha dos porcos. Os grunhidos dos porcos sujos e imensos eram altos, a imundície continuava lá, espalhada, as larvas consumiam o resto de lavagem. Minha irmã estava encolhida num canto, com os joelhos abraçados, chorava alto, bem alto, mas os grunhidos dos porcos abafavam o choro. Ela sempre fazia isso. Chorava no meio dos porcos, da imundície, dos grunhidos, pois no meio dos porcos, ela não precisava engolir o choro.

-Engole…

-Engole… Issoooo, engole tudo…

-Engole… engole. Boa garota…

-Engula. Engula tudo…

-Engole sem cuspir? Até a última boca, sem chorar?

Palavras recorrentes ditas à minha irmã quando abandonou a casa aos 17 anos e foi morar na cidade, num cortiço-prostíbulo, vendendo o corpo por 30 reais a hora, para garantir a sobrevivência.

Ela engolia o choro, engolia álcool barato, engolia fumaça de cigarros paraguaios, engolia fumaça de maconha para relaxar, engolia as porras, engolia o orgulho, mas nunca mais voltou pra casa e para os sermões do pai.

O Cruzamento

“Não passas de uma alma carregando um pequeno cadáver”

 

Há uma lenda que ronda esta cidade há 5 anos. No cruzamento da Avenida dos Alemães com a Alameda São João, às duas e meia da manhã da primeira quinta feira do mês, se você estiver nesse horário em frente à primeira sinaleira em frente à Padaria dos Americanos, encontrará o seu fim. Não há censura, não há idade. Qualquer ser humano, encontrará o fim da vida ali. A Morte aparece e lhe conta um spoiler. Um spoiler do fim da sua plenitude, não importa se mesquinha ou gloriosa.

Algumas pessoas que eu conheci, morreram dias depois, após o “encontro”. Mortes horrendas. Mas eu não acreditava nisso. Eram boatos, as pessoas que morreram tinham uma vida suspeita, e em torno das coisas sórdidas, cria-se lendas. Eu não acreditava até acontecer com Dona Tânia, uma velha (literalmente) amiga que tagarelava comigo fazendo crochê nos finais de tarde. Na verdade ela tagarelava, eu apenas ouvia. Eu sempre passava na casa dela aos finais de tarde, para tomar um café e ouvir suas histórias. Na verdade, ela tentava me ensinar à fazer crochê: “Uma mulher prendada deve saber fazer crochê, algum tipo de artesanato”.

Eu não sabia fazer nada. Nunca soube. Eu acho.

Mas eu sabia observar. Ela tinha nas mãos marcas de queimadura. Diz ela que foi o pai que queimou as mãos dela dentro de um tacho de água quente, porque ela mexeu onde não devia. Desde então, Dona Tânia sempre teve medo de colocar as mãos naquilo que segunda ela “não lhe pertence”. Um vez ela me acompanhou numa loja de cosméticos. Ela gostou de um batom, um vermelho fechado, cor de telha molhada. Depois da discussão “marrom” ou “vermelho”, fiquei observando se ela pegaria o batom. Observei que as mãos dela tremiam. Eu disse: “Pega, experimenta o provador”. Ela se aproximava com as mãos trêmulas, mas as encolhia e apertava as mãos e dedos junto ao corpo, “Não posso”. O rosto de Dona Tânia era um misto de dor e tristeza. Ela só experimentou depois que a vendedora com muito jeito, explicou que era provador e que ela poderia pegar. As mãos dela tremiam tanto, que o batom saiu torto. Ela se irritou e disse que estava velha demais para “se atrever à vaidade”.

“Ainda hoje, aos 75 anos de idade, choro sozinha nesta poltrona. A lembrança de meu pai é só dor. Eu queria amá-lo. de verdade, mas o amor vai embora toda vez que eu olho para minhas mãos e vejo as marcas das queimaduras.”

Depois de muito tempo tentando aprender a fazer crochê e uma fileira horrenda de pontos entrecruzados de maneira porca, Dona Tânia chegou à conclusão que eu era apenas uma moça simpática, uma boa ouvinte de histórias, mas nunca uma “mulher prendada”. Algumas histórias ela contava mais de uma vez, mas pra ela, eram inéditas. Eu não falava nada, deixava ela falar. Ela ficava muito feliz. Numa das histórias, Dona Tânia contou-me do “Cruzamento”. Que receberia um sinal, um convite para saber qual seria sua morte. “Quero estar preparada, eu vou ao cruzamento, assim que eu receber o sinal.

Uma semana depois, ela me chamou pra tomar café. Foi numa quinta-feira, primeira quinta-feira de um gelado mês de julho. Ela estava usando luvas, e eu não via mais as cicatrizes de queimadura das mãos. Ela estava usando batom. O Batom. Aquele que ela disse que era pura vaidade. Estava impecavelmente vestida, embora as roupas estivessem cheirando à mofo. Ela carregava no pescoço um colar de pérolas genuíno, dado pelo falecido marido, às vésperas da morte. “Foi o Dito que me deu, no nosso jantar de despedida. Ele sabia que estava morrendo, mas queria me presentear de alguma forma”.  Perguntei porque ela me chamei, se aconteceu alguma coisa, pois ela estava toda elegante, e eu estava acostumada a vê-la usando calças velhas, chinelos ou pantufas, ou produções de crochê que ela fazia pra ela mesma. Ela me deu várias de presente, mas eu só usava quando ia visita-la, achava-as horríveis, mas eu vestia apenas para vê-la sorrir.

“Meu pai me visitou”.

Mas o pai dela morreu. Anos atrás. Deu um tiro de espingarda na própria cabeça e Dona Tânia teve de limpar os ossos e massa encefálica do próprio pai, durante dois dias.

“Você sabia que quando a massa encefálica seca, parece pedacinhos de concreto? Parecia que a parede e teto tinha traços de pontinhos de cimento… como chama mesmo??” , “Chapisco”, eu disse. “Isso… eu fiquei dois dias raspando pedaços daquele desgraçado”.

Eu achei que eram os calmantes, mas depois me disseram que os tarja preta estavam intactos ao lado da cama de Dona Tânia…

Dona Tânia contava empolgada, o reencontro com o pai falecido…

“Então… meu pai apareceu ontem. Disse para eu me arrumar para o grande dia. Ele disse que eu poderia mexer nos seus papéis e canetas tinteiro, porque minhas cicatrizes estão intactas, e não vai mais doer, porque ele me perdoou.”

“Ele não vai mais brigar contigo Dona Tânia. Seu pai já morreu, teu medo deveria ter morrido junto, não é?”

Dona Tânia nunca me ouvia, nesse aspecto.

“Olha… peguei o baú dele no porão… olha que lindos esses papéis… e essa caneta de pena. A tinta do vidrinho ressecou, mas eu fiz uma boa limpeza e substituí o conteúdo. Ele disse que tudo que é dele, agora é meu. Ele estava lindo, e amoroso. Pai me deu um abraço, ele nunca me abraçou, em 75 anos de vida, ele nunca me abraçou tão forte. Ele quer ser bom novamente”.

“Porque você está usando luvas Dona Tânia? Nunca te vi usando luvas, nem mesmo no frio. As cicatrizes não doem mais?”

“Pai me disse que dói à ele ver as cicatrizes”

Ela me serviu café, fez bolo e torta. Ela sempre comprava coisas prontas. Desta vez, ela mesmo fez. A casa estava impecável. O pó tirado. Apareceu de repente quinquilharias, estátuas e quadros. Vários papéis e livros espalhados pela casa.

“Era tudo dele. Agora posso mexer em tudo”

Aquilo me perturbou, a ponto da torta invertida de maçã não me descer mais à garganta. O café tornou-se áspero e não era mais uma bebida incólume e cheia da razão. Me despedi, e aquela imagem de Dona Tânia, maquiada, de luvas e casaco longo cheirando à mofo e saudade, fixou na retina.

Encontrei Dona Tânia 5 dias depois, antes do nosso encontro semanal. A polícia me ligou, pediu pra eu comparecer à casa dela. Cheguei à casa, estava  cheia de viaturas e pessoas, desde o carteiro, vizinho, taxista e o entregador de jornal. Um cheiro muito forte emanava dali. Eu já pensei o pior.

“Você que é Dona Beatriz?”, “Sim”, “O que você é dela?”, “Quase uma neta”. Ela deixou um recado pra ti…”

E entregou-me uma carta, um papel velho, timbrado, com marca d’água do pai de Dona Tânia. No papel dizia:

Bea, fui no cruzamento. Eu me vi. Morta. Um carro de mortos apareceu, aquele que teu pai trabalhava, carregando os defuntos. O carro parou, meu pai desceu dele, abriu as portas e tirou a padiola. Eu estava lá dentro Bea. Estava toda queimada, com o corpo cheio de bolhas. Meu pai me pediu perdão por tanta dor, mas que para ser perdoado, eu deveria compreender a minha dor.

Deixei chá gelado e bolachas pra ti na geladeira. Meu pai tinha o mesmo gosto de livros que você, separei os livros pra ti. Estão na estante, aquela bonita, de madeira de lei que você gosta. Pode ficar com ela e os livros. E o jogo de chá que você adorava. Depositei 50 mil pra ti numa poupança, cujo número está ao final da folha. Eu sei que você é “uma ferrada na vida”, como você sempre disse. Sempre quis que você acreditasse que isso é falso, mas você não acredita. Eu acho que aquele moço não gosta de você. Ele é apenas um fósforo, uma chama que acende, apaga e você em vão, tenta acender novamente. Te amo Bea. 

Que Deus me perdoe. Que você me perdoe.

PS: quero ser cremada. Coloque minhas cinzas no vaso junto ao Dito”

Respirei fundo. Entre lágrimas tentava eu digerir aquele soco no estômago proferido em letras de velha. Acompanhei o policial. Atravessei a casa, que exalava um cheiro de coisas velhas, alfazema, rosa e ranço de cadáver. Eu me lembro bem do cheiro. Meu pai, famoso papa-defuntos da cidade, me levava para o necrotério quando eu era criança, ao qual eu brincava de Barbie na sala de ornamentação, em meio à caixões e coroas de flores. O barulho de ossos quebrados para fazer vestir as roupas em cadáveres endurecidos, fez parte da minha vida e isso se tornou normal.

Ao subir as escadas e entrar na suíte, o cheiro ficou mais forte. Não tinha mais traços de rosas, nem almíscar, nem mofo, nem pó. Era apenas ranço de cadáver. Ranço de Dona Tânia no quarto e sobretudo no banheiro. Sopa de Dona Tânia na banheira, pedaços de pele, solta, um líquido viscoso, e o braço e parte das pernas coberto de queimaduras e carne podre. E o calor, um calor dos infernos. Várias fotografias do pai espalhadas, pregadas na parede, um altar cheio de cera de vela, com Nossa Senhora Aparecida, Santo Antônio e São Miguel. metade da cara comida por Borges, o gato.

“Dona Tânia está morta há cerca de 5 dias. Achamos que foi um acidente, mas encontramos a carta. Ela provavelmente morreu cozida. Encheu a banheira com água quente, o que já provoca uma queda na pressão. O ar-condicionado estava ligado no ar quente. O banheiro virou uma sauna, e a banheira um caldeirão. Ela está com queimaduras pelo corpo inteiro. Ingeriu um coquetel de remédios, que talvez tenha sedado, e talvez, ela não tenha sofrido tanto.”

Cuidei do velório, avisei os filhos que estavam no exterior. Passei uma semana sórdida, cheia de avisos tristes, sem aquarelas furta-cor, apenas tons cinzentos. Afundei-me no próprio desespero.

“Você é uma ferrada na vida” – diz a rosto de Dona Tânia carcomido pelo gato, no box embaçado do banheiro.”

Estava tomando banhos quentíssimos, a minha pele saía vermelha, e de uma certa forma, ainda que metafórica, eu estava tentando entender a dor de Dona Tânia, a pele escaldada até a morte. Disseram que ela estava sedada. Será que doeu? À mim doeu, até hoje dói.

Nunca contei pra ninguém que Dona Tânia foi ao cruzamento da Avenida dos Alemães com a Alameda São João. Guardei pra mim, durante três meses. Depois desse tempo, descobri uma vontade imensa de saber qual seria o meu fim.

Mas o sinal nunca veio. Até que um dia um poema de Ezra Pound saltou-me aos olhos, e me perseguiu exaustivamente,

“O que amas de verdade permanece, o resto é escória
O que amas de verdade não te será arrancado
O que amas de verdade é tua herança verdadeira
Mundo de quem, meu ou deles
Ou não é de ninguém?
Veio o visível primeiro, depois o palpável
Elísio, ainda que fosse nas câmaras do inferno,
O que amas de verdade é tua herança verdadeira
O que amas de verdade não te será arrancado”

Interpretei o poema de Ezra como um sinal. Eu, inclusive, sonhei com este poema, ecoando em todos os lugares que eu frequentava, à ponto de não saber ao certo, o que era real, o que eram vozes. Vesti a minha melhor roupa, o sapato mais impecável, o batom vermelho, um penteado elegante. Duas e meia da manhã eu estava atravessando o cruzamento da Avenida dos Alemães com a Alameda São João, após um motorista do Uber que eu solicitei me deixar numa rua das proximidades. Ele deve ter achado estranho, mas eu inventei uma história que teria uma festa de casamento que aconteceria de manhã. Eu estava indo para encontrar-me com amigos para seguirmos viagem estrada afora. Eu acho que ele acreditou. Duas e meia da manhã é um horário plausível para se pegar a estrada sem grandes preocupações para um casamento matutino numa cidade distante.

Estava quase desistindo dessa loucura quando ao longe um carro papa defuntos apareceu. Todos os sons desapareceram e um vento gélido tremia meu corpo. Não sabia, ao certo, se era frio de temperatura, ou frio de medo.

“O que amas de verdade é tua herança verdadeira
O que amas de verdade não te será arrancado”

As palavras de Ezra ecoaram na minha cabeça, naquele instante. O carro estacionou um pouco à minha frente. A porta do motorista se abriu. Era meu pai.  Da outra porta, uma mulher caolha com a boca torta e careca. Achei estranho, pai tinha se aposentado do papa-defuntos e o Jurandir, seu ajudante, ainda trabalhava no IML, no lugar antes ocupado por pai.

Meu pai tinha um semblante sério por demais na cara. Muito mais sério do que eu estava habituado. Não falou uma palavra. Estava tudo certo até então, porque ele realmente não falava muito comigo. Abriu a porta do rabecão, tinha uma bicicleta amarela, toda enferrujada e retorcida. Era a minha bicicleta. Eu ganhei ela quando eu tinha sete anos e não me esqueci até hoje que me pai me pegava pelo braço e me dizia que eu não conhecia nada da vida e era uma criança ingrata.

“A bicicleta, pai, continua velha e enferrujada. Eu sei que você vai virar pra mim, eu, mulher, com trinta anos nas costas, e dizer: você não conhece nada sobre vida”, e finalizar,  com o bigode cheio de sopa, “você é uma criança ingrata”. Você sempre me dava sermões à hora do jantar, com mamãe e irmãos à mesa, comendo em silêncio, a sopa de galinha que você fazia toda semana.

“E conheces?”

“Conheces o que?”

“E conhecer alguma coisa da vida, agora?”

“Não… ainda não”.

“O que você conhece?”

“Nada”

“O que você ama?”

“Minha família, meus livros, meus gatos, meus amigos”

“Tens amores?”

“Sim”

“Quantos?”

“Tive vários, um de cada vez.”

“Foram verdadeiros?”

“Apenas de minha parte”

“O que acontecia?”

“Veio o visível primeiro, nunca o palpável”

“És tola. Eu sempre lhe disse. Tola num mundo de sonhos, de amores que acha que são verdadeiros, mas nunca foram reais. Nunca me escutou”.

“Só tem essa bicicleta enferrujada aí dentro? Cadê o meu cadáver?”

“Tenho três cadáveres seus aqui dentro. Queres ver, pequena cabeça de vento?”

“Não vim aqui à passeio, pai…”

Meu pai tirou a primeira padiola. Jazia ali uma criança branquela, magrela, de cabelos pretos, disléxica e de dentes tortos.

“Eu não morri, porque estou aí? Do que eu morri quando criança? Eu estou viva de verdade?”

“Morrestes de Tristeza.”

“Por que? Você nunca soube, como soubestes agora, que eu era uma criança triste?”

“Lembra quando sua mãe tentou suicídio na tua frente? Foi tua primeira morte. Quer que eu explique ou é burra demais para entende metáforas?”

“Não. Não precisa explicar nada. Eu tentei me matar engolindo veneno, mas você me salvou. Você ficou bravo comigo quando eu sai correndo e bati a cabeça na quina do móvel e desmaiei. Você disse que eu quase morri, que eu poderia ter morrido, pois eu dava-lhe trabalho. Eu tomei veneno, passei mal e você achou que era intoxicação alimentar. Eu tentei não ser um estorvo na tua vida.”

“Eu usei muitas palavras duras. Foi desnecessário. Me desculpe.”

Colocou a padiola com meu cadáver infantil envenenado dentro do carro, com ajuda da Mulher Caolha.

Puxou a segunda padiola, era eu adolescente. Igualmente magra, igualmente branca, com todos os dentes arrancados da boca, a cara deformada, os seios e nádegas decepados. O nariz quebrado.

“O que você sentia, quando tinha seus dezesseis anos?”

“Eu me sentia como na música de Billy Idol, aquela que você cantava enquanto cortava cebolas na cozinha.”

Meu pai tirou uma cebola da padiola. A cebola estava ensaguentada, e com uma faca que trazia dentro das botas, começou a picar a cebola, em quadradinhos impecáveis. As cebolas em cubinhos iam caindo em cima do meu corpo destruído, enquanto ele cantava:

Well I’ll do anything
For my sweet sixteen
Oh I’ll do anything
For little runaway child

Well, memories will burn you
Memories grow older as people can
They just get colder
Like sweet sixteen

“Você nunca cortou as cebolas do jeito que eu lhe pedia. Mas fazia, do seu jeito. E você sempre chorou muito para cortá-las. Nunca soube dizer, doce garotinha de dezesseis anos, se você chorava de verdade ou se de fato a culpa era da cebola. Sabe me dizer porque está morta nessa padiola?”

“Eu era uma adolescente feia. Me chamavam de magrela, desbundada, despeitada, nariguda.”

“Porque está com dentes quebrados, e faltando mais da metade?”

“Porque eu não gostava do meu sorriso, nem eu, nem eles”

A Mulher Caolha tirou o celular do bolso, tirou-me uma foto.

“Olha o passarinho querida”

Eu não consegui sorrir pra foto.

“Você nunca sorriu para fotos querida”

“É… nunca.”

Estamos chegando ao fim querida. Queres ver?

“Sim”

Ele e a Mulher Caolha tiraram a terceira padiola.

Estava eu ali, um corpo recente, na minha recente. Minhas pernas estavam quebradas, uma quase decepada, meus braços fraturados, um deles com fratura exposta. Eu tinha apenas um sapato calçado, o outro pé estava esmagado. Estava imersa no meu próprio sangue que saía da área fraturada e do ventre, mas parecia que eu sangrava por todos os poros. Eu estava com o vestido preto eu estava usando e o mesmo sapato. O mesmo batom vermelho, e o delineado borrado nos olhos. Meus olhos estavam arregalados, e a minha boca, muito aberta, como se eu tivesse soltado um grito.

“Isso é tudo minha querida. Você gritou muito querida. Sentiu muita dor, só posso dizer isso.”

“Me explica pai, não vai embora!”

“Amanhã, talvez, no jantar… “

“Por que talvez? Por queee?? Hey!!!”

“Aguarde amanhã, os sermões do pai…”

“Talvez”

Foi a última palavra que ouvi do meu pai. “Talvez”. Entrou no rabecão e foi embora. Eu  vi apenas as mãos manchadas dele, acenando.

Fiquei um tempo, sentada na sarjeta, pensando naquela loucura toda. Levantei-me, arrumei o vestido, tinha usado a barra dele para limpar as lágrimas, calcei os sapatos.

Fui atravessar o cruzamento, estava aturdida, confusa, não ouvia nada, apenas vozes. Vozes de Ezra Pound:

“Mundo de quem, meu ou deles
Ou não é de ninguém?
Veio o visível primeiro, depois o palpável
Elísio, ainda que fosse nas câmaras do inferno,
O que amas de verdade é tua herança verdadeira
O que amas de verdade não te será arrancado”

Tão confusa que não vi um carro em alta velocidade. Ele passou em cima de mim, gritando, com a cabeça para fora do vidro:

“Vadia”

Não obstante, voltou e passou em cima de novo, de ré:

“Vadia”

Era o motorista do Uber, aquele que me deixou nas proximidades, antes de eu conhecer meu trágico fim.  Ele não acreditou na minha história. Achou que eu era uma prostituta.

Eu apenas soltei um grito, meus maxilares estavam quase num ângulo de noventa graus. Olhei pra cima e apenas vi meu pai, com olhos de desaprovação, segurando a famosa pá de raspar pedaços de gente morta grudada no chão.

“Tolinha”

E então tudo escureceu. Sobrou apenas um gosto amargo na boca, misturado com meus dentes quebrados.

 

Egon-Schiele-Death-and-the-Maiden

Egon Schiele – Morte e a Dama

 

Irene

Irene… Irene…

Ele balbuciava o nome dela sentado num canto do escuro quarto. Raios de sol já anunciavam a manhã chegando. Na cama, lençóis manchados, em desalinho.

Irene… Irene…

Irene costumava sentar-se numa velha poltrona com espuma solta, enrolada apenas numa toalha… Ficava horas e horas lendo livros, com os seios expostos, o cabelo molhado espalhado no busto, num contraste entre a pele branca e os negros cabelos.

Irene… Irene…

Ele balbuciava o nome dela, com a garganta dolorida, e um frio que nunca passava. A boca seca, as mãos trêmulas e o fedor do matadouro de porcos que nunca passava. Se abrisse as janelas, teria a visão dos urubus empoleirados na cerca esperando os porcos pararem de gritar.

Por que os porcos choram? – perguntava Irene…

Irene, quando viu as lágrimas descerem dos olhinhos misericordiosos dos porcos diante da morte, nunca mais comeu carne.

Não consigo dormir querido… Os porcos estão gritando… Faça-os parar, por favor.

Os gritos dos porcos na fila do abate foram enlouquecendo Irene. Aos poucos, assim como a camiseta suja de sangue do marido, voltando para almoçar.

Estou com fome querida…

E o cheiro de ferrugem eviscerada enchia a cozinha.

Na hora do almoço, os porcos paravam de gritar para dar lugar aos gritos dela enquanto sodomizada com as mãos amarradas para trás.

Irene… Irene… Você amava isso.

Dominação, submissão.

Irene… Não me abandone Irene!

Saiu do canto escuro do quarto, entrou no caótico e sujo banheiro. O espelho quebrado denunciava vários personagens, vários sorrisos sádicos, piadas sujos de humor negro, um riso forçado, ares cruéis vomitando sangue e obscenidades.

Molhou as mãos, lavou o rosto, coçou a barba áspera perto das têmporas. A água fria paralisou a face. Arrancou as roupas, foi para o banho quente e mordaz. Um pedaço velho e de sabonete jazia nas imundícies do box cheio de limbo. Os azulejos antes brancos, misturavam-se na brancura do corpo sinuoso de Irene. O riso dela abafava-se quando ele tocava subitamente entre as pernas roliças e fundiam-se em um só contra a parede entre espasmos, gritos e prazer. Ele sabe que para Irene as lembranças são como quadros abandonados em corredores escuros de museus decadentes.
Irene… Você não se importa mais.
 O sabonete velho não mais faz espuma.

Irene… Irene…

Irene, indefectível, simples… Humana… Irene nua, Irene de quatro, Irene de joelhos, Irene gritando, Irene gemendo, Irene implorando…

Lembranças que passam como frames.

Masturbou-se numa tristeza que doía.

I-RE-NE…

Vestiu a última peça de roupa limpa disposta no armário. Desceu as escadas, devagar, em passos leves, segurando no corrimão, com medo da própria queda.

Irene… dizia ele, enquanto descia as escadas, na dor cambaleante de quem já se cansou de silêncios.

Fale comigo Irene. Pare de me torturar…

Irene ignorou. Irene apenas fala com os olhos.

Ele sofre de refluxo estomacal cada vez que senta ao lado dela e tenta uma aproximação.

Irene estava sentada na poltrona da sala em volta da mesa de jantar com os olhos mirando o infinito, em um universo particular.

Fale comigo Irene…

Irene não escutava nada. Mas ela tinha um sorriso cheio de silêncio, no canto da boca.

Ao chegar na sala, Irene o ignorou. Continuou olhando para a janela com as cortinas fechadas. Ele abriu as cortinas, deu-lhe um sorriso na espera de uma retribuição. Os urubus estavam nas cercas, nas árvores, alguns com as asas abertas, outros pulando de jeito engraçado pra um lado e para outro. O fedor do matadouro de porcos os atiçavam, o mau cheiro, de carne apodrecida. Ele já não se importava mais. Ele acreditava que Irene também se acostumou, pois ela não reclama mais.

Irene… Você sempre odiou esse lugar…

O sol iluminava o corpo de Irene. Ela continuava sorrindo tristezas com os olhos, continuava dolorida, horrorizada com a paisagem cheia de urubus. Irene odiava aquele lugar, odiava o cheiro, as moscas. Moscas nas janelas, moscas em todos os lugares. Ela, pobre mulher, fragmentada, com as asas partidas, sem ter por onde fugir, presa em uma cadeira.

Irene, você não come, você não bebe. Por que você está fazendo isso comigo Irene? Eu lhe prendi tanto assim? O que eu fiz pra você?

Nada… Você não fez nada… – disse os olhos de Irene.

Ele acendeu um Luke Strike, deu uma tragada.

Quer um cigarro pelo menos? A comida que eu lhe fiz ontem você também não comeu. Faz sete dias que você não come… Irene… Fale comigo Irene…

Ele colocou metade do cigarro na boca dela. Os lábios, semiabertos,  pintavam uma paisagem de sorriso triste e pálido. O cigarro queimava, envenenando o ambiente, com as cinzas caindo no vestido.

Ele se ajoelhou aos pés dela, afagou-lhe as pernas, afastou-as, acariciando as coxas. Olhou para Irene, o rosto pálido, cheio de sardas, os olhos inchados cheio de olheiras.

Sua insônia piorou Irene. Vai ficar doente desse jeito. Deixe-me cuidar de ti…

E enfiou três dedos entre as pernas… E lambeu os três dedos.

Você nunca teve um gosto tão forte quanto agora… Aceita um café querida?

Irene sorriu com o olhos…

Isso é um sim? Você nunca negou um bom café!

Ele foi ao armário, pegou a cafeteira italiana e o pote de café extra-forte. Matou a barata que passeou em volta dos pés. Outra subiu pelas pernas. Ele chacoalhou as pernas, como numa dança insana. A barata caiu e ele pisou em cima, veio outra, mesma coisa.

Irene… você descuidou da casa. O que está acontecendo contigo Irene? E as lembranças?Lembra querida? Você gostava de dançar. Você me chamou pra dançar várias vezes, mas eu sempre recusava. E quando eu finalmente aceitei, você me pegou e conduziu. Hoje sou eu que cuido de você querida. Eu lhe conduzo, e faço isso porque eu te amo.

O café começou a subir com a pressão dentro da cafeteira…

Querida, o café… Quer mais um cigarro? Prometa pra mim que vai comer. Se fizer isso, prometo vou levá-la para ver o pôr do sol, vou-lhe tirar deste inferno, eu não vou mais matar os porcos, vou abrir outro negócio, e os abutres vão embora da nossa cerca. E essas moscas? Eu vou proteger a casa inteira. Eu vou proteger você. Promete? Promete querida?

Os olhos dela sempre concordavam com tudo, e deles, dos olhos de Irene, um grito interno que partia sem voz, era um pedido de liberdade.

Ele levou as torradas com mel e uma xícara de café duplo e sem açúcar. Era assim que ela gostava, de coisas fortes e intensas. O aroma do café misturava-se com o ar pútrido vindo do matadouro. Irene continuava com aquele olhar.

Está calor querida, deixe-me tirar suas roupas?

Ele abriu os botões do vestido com os dentes.  Rasgou o tecido com uma força bruta de um homem sedento, beijou cada mamilo, as linhas do pescoço, beijou a boca, a boca inteira como um garotinho afoito que não sabia beijar. A pele dela grudava no corpo dele, o cheiro dela tempestuava os poros… Um sexo sujo, sedento e selvagem. Quase um canibalismo. Ele transou como um animal, ela era sua presa, indefesa, tão paralisada, fria, cansada, se desmanchando, pouco a pouco, e sua alma se esvaindo, o corpo aos poucos caindo ao chão. Mas ele a amava… Ela o amava. Seu corpo se esvaiu, explodiu. E nele a sujeira rastejava, o desgosto pousava. Ele gania, como um animal, um lobo predador. Um animal fragmentado na própria dor e desespero.

Irene caindo da escada, degrau a degrau…

Ele se lembra disso enquanto penetra nas frias carnes de Irene. Ele urra de prazer enquanto as lágrimas de tormenta escorrem…

Irene caindo da escada. Irene batendo a cabeça, Irene desacordada. Irene dizendo: Eu sempre te amei. Mas agora…

Nunca mais.

Você precisa ir embora Irene. Para sempre.

Os urubus crocitavam, pulando de um lado para o outro.

Chegou a hora querida… Está na hora de você ficar livre.

Beijou-a, mordendo os lábios. Irene sorriu, depois de sete dias sem ter expressão alguma no rosto.

Mas eu quero partir com teu gosto nos lábios.

Beijou-a novamente, mordendo os lábios, enquanto as larvas caiam das órbitas oculares.

Não chore querida… não chore. Eu sempre vou te amar, mas agora chegou a hora partir.

Pra sempre.

Tirou as próprias roupas, colocou o corpo decomposto de Irene no chão. Sentou completamente nu na poltrona onde o corpo de Irene apodreceu durante 7 dias seguidos, após ter caído da escada depois de uma sórdida discussão sobre divórcio.

Lembra Irene? Quando você chegava do trabalho, eu pedia pra você arrancar as roupas, deitar-se no chão e se tocar só pra mim? Eu sentava nessa poltrona e apenas te olhava. Você sempre foi uma sádica desgraçada, submissa e sem limites.

Irene não se tocava mais. Mas ele se tocou de novo e jorrou o resto de seu gozo, nos restos do que um dia foi a mulher que amava.

Irene… Irene. Adeus Irene.

Pegou a motosserra. Partiu Irene em pedaços: braços, pernas, tronco, pés e cabeça.

Abriu a porta, partiu ensanguentado levando numa carriola os pedaços e vísceras de Irene. Os urubus crocitavam e voaram para o lado oposto.

Os porcos ganiam, de maneira ensurdecedora. Estavam três dias sem comer.

Você nunca gostou deles né Irene? Porque sabia que todos iriam morrer, de forma cruel. Você odiava crueldades, mas adorava quando eu lhe amarrava e batia. Com força.

Esfregou as vísceras de Irene no corpo, abriu a porta do chiqueiro. Jogou os pedaços de Irene aos porcos. Deixou a cabeça por último, levantou-a para o alto:

Olha isso Irene… Eis o que nos restou. Jogou a cabeça dela longe, pegou o revólver que trazia junto ao corpo na carriola. Um único tiro certeiro, de dentro da boca cujo último nome sempre foi…

Irene.

Mortos não tem expressão

Todos os dias eu acordava às seis horas da manhã numa preguiça imunda. Uma preguiça quase que de gente morta. Acariciava o gato e partia para o banheiro arrastando meu corpo, este enorme fardo de colesterol e triglicérides nas alturas. Em resumo, sou um grande filho da puta gordo e preguiçoso. Em dias de frio, lavo apenas as partes. O cheiro de sabonete ia embora após o preparo de três defuntos. O fedor de líquido cavitário já não me incomodava mais. Quem é agente funerário, ou se conforma ou… Se conforma. Eu entrei numa vida cheia de conformismos… Ela começou a se desmoronar quando me dei conta que parte das minhas ilusões foram perdidas:

Mortos não tem expressão.

Nenhum deles.

Já perdi as contas de quantos defuntos eu já preparei. Quando ainda existia um rosto, todos eles, não tinham expressão.

Nos filmes de terror que eu assistia, os Mortos tinham expressão. Começou aí a minha sina.

Eu tinha um amigo que realizava stand-up comedy na região em que eu morava. O nome dele era Marcelo Moreira. O apelido dele era Moreira. Particularmente, “O Moreira”. Era o cara mais engraçado da turma. Um dia ele foi me procurar na funerária. Mandou-me uma mensagem via Whatsapp:

“Estou no saguão do velório da senhora Vanessa Dias Guzmão”.

Eu estava terminando de colocar crisântemos nos caixões de uma mãe e filha mortas pelo marido surtado. Sabe, esses caras loucos que matam a família e depois se suicidam? Pois então, já era o terceiro caso no mês, mas eu já estou calejado de tragédias. Dei um belo rosto para as cabeças explodidas da mãe e filha: sete horas de reconstrução facial… E nenhuma expressão. Na foto para molde as duas sorriam. Mas era apenas na foto.

“Ohhh ela parece estar em paz… Que serenidade”

É isso que os familiares diziam. Eu olhava para as duas defuntas e elas continuavam sem expressão nenhuma. Totalmente apáticas. Olhei para o rosto da mãe:

Sorria desgraçada… Ou tu eras uma infeliz a vida toda?

A morta olhou pra mim e abriu um sorriso. Mas são devaneios. Ela continuava sem sorrir e com cara clichê de defunta.

Mortos não tem expressão…

Eu sempre pensava assim. Até eu ouvir risos no saguão dos velórios. Era O Moreira.

Tirei meu jaleco, ajeitei os cabelos, e fui até o saguão, fingindo serenidade. Ao redor do caixão de Dona Guzmão, entes queridos e familiares gargalhavam em alto e bom som.

Risos. Gargalhadas…

Num velório, em pleno inverno.

O filho da puta do Moreira era tão bom na arte do riso, que fez as pessoas rirem num velório. Neste dia, O Moreira virou uma lenda. A família Guzmão sempre ia nos espetáculos de piadas:

“Esse cara nos fez rir no enterro da Vovó!”

Eles sempre contavam essa história.

Cinco meses depois, O Moreira jazia frio e roxo na minha mesa. Morreu de enfarte, talvez de tanto rir e fazer rir, ou por ter zombado da Morte, naquele dia do velório.

Mortos não tem expressão. Foi isso o que meu professor de conservação de cadáveres me disse. A voz do desgraçado ecoava na minha cabeça e pelas quatro paredes do laboratório de preparação de defuntos. Enquanto eu preparava o corpo do Moreira, tirando a merda do intestino, drenando sangue e outras coisas que a maioria das pessoas nem sonha que seja feita antes de ver tudo bonitinho, asséptico e cheio de florzinhas, eu ria sozinho lembrando das piadas que ele contava, fazendo a multidão do teatro rir em uníssono.

O Moreira morto não tinha expressão alguma no rosto. O Moreira era um cara que sempre estava rindo. Ele estava indo para um caixão, todo ornamentado, com o rosto coberto de base chinesa vagabunda e aquela mesma cara de defunto que todos os defuntos possuem.

Mortos não tem expressão… Mortos não tem expressão.

Com exceção do Moreira.  Uma hora antes do velório, quebrei-lhe os maxilares e abri um sorriso na cara do desgraçado, mostrando todos os dentes com facetas de porcelana que ele meteu nos dentes. Um sorriso. De ponta a ponta, sustentado com linha cirúrgica, numa técnica que desenvolvi ao longo dos anos porque sempre quis encher os defuntos de sorrisos.

Um lindo sorriso risonho, pois O Moreira era o cara mais feliz e engraçado que passou na minha vida.

A família está me processando. Fui demitido da funerária. Nunca mais consigo emprego na área. Mas eu tenho certeza que O Moreira está fazendo uma boa piada sobre isso, lá no céu dos comediantes.

Mortos não tem expressão…

Menos O Moreira.

 

A Foda

“pura convenção achar o sexo obsceno” – Lygia Fagundes Telles, “As meninas”

A xícara de café estava quente, cheia e densa. Meu corpo, tremia, numa ode de obscenidades, enquanto sorvo o café, aperto as coxas, uma na outra, numa tentativa frustrada de tentar conter o gozo. Para quê conter? Eu poderia ir ao banheiro, deixar as coisas numa prateleira, dentro da cabine, abaixar minhas meias e me tocar até não sentir mais minha própria musculatura, tensões e nervos à flor da pele. Mas eu não poderia gritar. Não poderia gemer. Eu gosto do grito, do sussurro, a voz, a boca, o gemido. Todos os sons do prazer estarrecido são como uma sinfonia para os ouvidos. Fazem parte do meu, do seu prazer. Tomei mais um gole de café, apertei-me mais um pouco, coxa contra coxa, mais um espasmo, mais uma onda de calor. Penso mais uma vez no poder sinuoso e úmido das palavras. Palavras são como flechas certeiras:

” Estou procurando um lugar para lhe comer em pé”

Comer, foder, meter, transar, fazer sexo, gozar.

Em pé.

Há uma força irresistível no ato. As mãos, fortes , o corpo, a sustentação, as mãos segurando as coxas, num ato de compressão de dedos e pele, em suspensão. O corpo, o meu, prensado na parede, palavras de baixo calão ao pé do ouvido:

“Cala a boca e me chupa”

E então eu tomo o teu vinho. Faço de teu pau a minha taça. Tomo até o último gole, até tuas pernas e teu gozo convulsionarem em espasmos e gemidos. No último gole, na borda da taça, limpo o canto da boca e alcanço com a língua a sinuosidade de tua virilha. Alcanço-lhe o peito, o pescoço, afundamos nossos corpos e prazeres um no outro, contra a parede, entre gemidos e espasmos tornamos-nos licores um do outro. Lábios nos lábios, deixo as palavras bonitas e bem colocadas do lado de fora:

Cala a boca e me fode. Com Força.

O apanhador de gritos

Sou um eterno apaixonado pelo som mais aterrorizador que pode sair da garganta de um ser humano: o grito. Qualquer tipo de grito, mas aquele que eu mais amo é o grito que exprime dor e desespero.

Em minha casa tenho uma sala de torturas. Coloco um anúncio no jornal que é publicado duas vezes por semana nos classificados de vários jornais. Também publico anúncios nas redes sociais, através de fóruns e grupos de Facebook. Muitas pessoas me procuram. Eu me alimento e gozo a partir do grito delas. É tudo realizado com muita responsabilidade, pois eu respeito os limites. Quando imploram por misericórdia eu paro. Eu amo quando os olhos se enchem de lágrimas, a pele fica tensa e cheia de marcas, os músculos e tendões retidos, e aquela boca tremendo de dor. E os olhos que ficam pequenos, de tanto se apertarem de dor e tensão… O som da dor… impecável, avassalador, trêmulo… de nervos e partes baixas. Mas não faço sexo. Não tenho interesse no sexo, por mais que 80% dos que me procuram implorem por isso, eu não tenho interesse algum. Quero apenas a dor e o barulho dos gritos, acompanhados por “1812” de Tchaikovsky.

Um dia recebi uma mensagem no Whatsapp. Uma moça muito bonita e dona de uma delicadeza digna de realeza, isso à medir-se apenas pela foto redonda do perfil. Na mensagem, ela me disse que adorava sentir dor, mas que ela tinha limitações e acreditava que eu poderia ajudá-la. Marcamos um encontro numa cafeteria, para falarmos da proposta e caso ela topasse, iríamos para minha residência.

Ela chegou usando um vestido branco, com um cinto azul e um lenço de organza vermelha no pescoço. Ela estava longe de ter um perfil agressivo. Tudo nela era delicadeza e pureza. O nome dela era Lúcia. Lúcia era linda. Eu adoraria escutar todos os gritos de dor, desespero e misericórdia que emanariam daquele ser. Mas, Lúcia era muda. Nunca falou, nunca gritou. As cordas vocais dela nunca emitiram nenhum som. Ela usava linguagem de sinais para comunicar-se, mas eu não entendia, então conversávamos um com o outro pelo celular, mesmo que lado a lado. Foi nessas conversas que ela me contou que gostava de apanhar, mas que nunca conseguiu expressar seu prazer em forma de gritos. Ela me disse:

“Quero que você capture o meu grito”.

Ela queria que eu conseguisse capturar o grito dela, porque o prazer dela nunca era completo. Estava ali um desafio. Eu amava os gritos. Como eu conseguiria sentir prazer com alguém que não tinha aquilo que eu mais amava?

Fizemos sessões de spanking, amarrações e eletrochoque usando vários tipos de instrumentos. Lucia sentia prazer, Lucia chorava como uma criança, e as lágrimas que escorriam daquele rosto rubro de agonia por culpa de meu chicote, eram protagonistas de uma beleza que nenhuma pessoa com cordas vocais plenas e perfeitas conseguiam emitir.

Lucia fazia das próprias lágrimas, os seus gritos. Os gritos mais perfeitos, descendo dos olhos, sem nenhuma diluição. Puro, belo, triste e sem precedentes. Uma natureza selvagem. E sem som. Eu não aguentei. A carne estremeceu.

Fizemos sexo.

Lúcia conseguia exprimir o prazer em forma de silêncio. Isso extravasou todas as minhas convicções de que quanto mais alto, trêmulo e desesperado fosse o grito, mais prazer eu teria. Eu já não sou mais um sádico pervertido em busca de gritos. O silêncio de Lúcia agora me basta.

 

Nocaute: O Único, Misofonia, Os olhos misericordiosos e a Vaca Amarela

“Em um combate travado entre um texto apaixonante e seu leitor, o romance sempre ganha por pontos, enquanto o conto deve ganhar por nocaute.” (Julio Cortázar)

1 – O ÚNICO

Estávamos passeando alheios à vida e suas carnificinas diárias. Entre pichações, estátuas que contam histórias, bancos solitários, bancas de novos e semi-novos, eu escutava atentamente Horácio enquanto um poema de Julio Cortázar ecoava na minha cabeça tão baixinho que tão somente eu poderia ouvi-lo. Horácio era um amigo, um exímio contador de histórias, capaz de fazer qualquer pessoa parar para ouvi-lo. Ele era único.  O único homem que fez-me calar e apenas ouvir. Não poderia haver num mesmo universo, um homem igual à ele. Muito menos com “quase” o mesmo nome.

Lembro-me bem, quando atravessávamos o cruzamento, e numa brincadeira entre amigos exclamei:

– Ohh grande Horácio Almeida Smithzer, único de seu reino e nome!

– Acredita que eu não sou o único de seu nome? Tem um homem que se chama Horácio Alexandre Almeida Smithzer!

-Parente?

– Se for, é muito distante. É… infelizmente eu não sou o único. E também não sou tão alto. Tudo lenda.

Mais tarde, debrucei-me na minha dupla personalidade. Procurei por Horácio Alexandre Almeida Smithzer. Fiz isso madrugadas à dentro.

Bastou-me duas semanas de investigação, lábia, sedução e muita engenharia social. Eu sou muito boa nisso sabia? Descobri tudo à respeito do “outro com quase o mesmo nome”. O “outro” era um homem feio, baixinho, meio nojento e desprovido de qualquer charme intelectual. Além de tudo, era um acumulador compulsivo, de calcinhas usadas à potes de qualquer coisa. Menos livros. Se acumulasse livros, talvez eu teria  um pouco de compaixão. A única coisa digna de se acumular são livros. Ele, minha vítima, tinha gatos: vários deles, mas isso, nem de longe, o salvaria de sua infame existência, cujo único charme era ter quase o mesmo nome de uma pessoa que deveria ser o único de seu próprio nome. Na terceira semana, numa noite fria de segunda-feira, eu o matei silenciosamente. É dessa forma que eu sempre faço. Na surdina. SEMPRE.

“Um rei sempre olha nos olhos do gato” – diziam os antigos. Horácio, meu amigo, conversa comigo olhando nos meus olhos. Eu sempre matei olhando nos olhos. Horácio Alexandre Almeida Smithzer,  foi morto dormindo, babando e com os dois olhos e testa perfurados pela minha .44 Magnum com silenciador. Foi enviado diretamente para o inferno, com uma passagem só de ida. Eu sou uma rainha, mas ele não era digno de se olhar nos olhos. Por isso atirei neles, uma bala para cada olho, ao qual preenchi as órbitas explodidas com ração de gato. Gatos adoram caçar comida dentro de lugares fechados. Ficam cavocando, buscando a comida com as patinhas. Por puro prazer e instinto.

Agora, meu amigo Horácio, era o único de seu nome, porque eu sou uma filha da puta que ama apenas a exclusividade. Horácio Almeida Smithzer não era mais um homem cujo nome era quase duplicado nesse universo de coisas efêmeras e mesquinhas.

Um dia, descobri que do outro lado do globo existia uma mulher com o mesmo nome que o meu. Contei essa história triste no primeiro café duplo sem açúcar numa sórdida manhã de domingo com o Horácio original.

– Eu também não sou a única de meu nome… Existe uma mulher na Arábia Saudita com o mesmo nome que o meu.

-Podíamos matá-la… hahahahaha

Por essas e outras, Horácio sempre será o único de seu nome.

 

 

2 – MISOFONIA

 

Alessandra era linda. Compreensiva, dona de um rosto e corpo de medidas perfeitas. Além de tudo, era extremamente inteligente. Mas Alessandra tinha um problema. Ela comia de boca aberta, fazia barulho para sorver sopa e demais líquidos quentes e isso era o que eu mais odiava na vida. Meu pesadelo era levá-la ao cinema ou ao parque, pois ela comia pipoca, amendoim ou chips de uma maneira absurdamente irritantes. Mas não pense, meus caros, que isso sempre foi assim. A viborazinha me enganou!

Eu sempre saiu para comer sozinho. Até mesmo em confraternizações em família, eu fazia apenas a social. Quando começavam a fartar os pratos de comida, eu me retirava para o meu quarto, longe de todo tipo de barulho que envolvesse bocas mastigando. Eu só me alimento usando fone de ouvido, pois o barulho de minha própria boca mastigando também me irrita. Passei por 4 psicólogas. Nenhuma resolveu o meu problema. Aprendi, à meu modo, a lidar com o meu próprio fardo.

Quando eu saía com alguma garota, eu à convidava para jantar ou ir ao cinema. Se fizesse barulho para comer, eu a dispensava. Dava um belo de um “perdido”, como diz meu sobrinho de 18 anos. Flertar e testar mastigações femininas era um exercício de alta tortura, mas chegou uma hora ao qual eu cansei de me masturbar no banheiro vendo vídeos pornôs no celular. Pornô no mudo. Barulho de sexo oral também me irritava, afinal eram bocas quase engolindo outras coisas. Quando eu fazia sexo, era sempre com som alto. Usar fone de ouvido poderia ser ofensivo. Eu sou, acima de tudo, um gentleman.

Bom, eu estava falando da Alessandra. Ahhh a Alessandra, essa dissimulada ao qual eu me casei. Na minha concepção, uma verdadeira dama jamais faz barulho para comer. E nada de amendoim (em pasta pode, desde que puro, sem torradas, pois fazem “crec”), batatas chips, mandiopã, massa folheada entre outros… Poderia ser a mulher mais linda, meu coração se partia em pedaços. Mas Alessandra… Ahhh!!! A vadia era mestra. Ela soube disfarçar. Revelou sua verdadeira deglutinação após 1 ano de casamento!

Mas eu resolvi… Afinal, eu amo muito Alessandra.

Um belo dia, inventei que eu teria de trabalhar até mais tarde. Comprei capuz, máscara, luvas e um revólver de brinquedo. Invadi minha própria casa, simulei um assalto. No primeiro grito de desespero, eu a ataquei, Quebrei-lhe o maxilar e abri um ângulo de 90 graus esgarçando-lhe os maxilares daquele rostinho tão lindo. Hoje ela se alimenta via sonda e eu sempre seguro suas mãozinhas bem-feitas e delicadas enquanto uma mistura pastosa e bege entra pelas narinas.

3 – Olhos misericordiosos

Coloquei mais um nome na lista: Miranda.

Que belo nome! Um som de anjos para os meus ouvidos. Seria ela a próxima. Eu mato pessoas sabia disso? Sabia? Sou mestre nisso. Mas eu mato porque tenho um fetiche, porque sou apaixonado pela bela e sórdida visão dos olhos em súplica. Em verdade vos digo: não existe olhar mais lindo do que os olhos implorando por compaixão e misericórdia.

Miranda era dessas carolas de igreja, que não faltava na missa e estava sempre fazendo caridade, visitando enfermos, asilos e doando altas quantias de dízimo. Cansei de matar putas e moradoras de rua. Eu queria algo que aos olhos da sociedade era algo nobre. É preciso sempre variar o cardápio. Nada melhor que uma igreja frequentada pela alta sociedade. Miranda sempre se confessava todo domingo, após a missa da manhã. Eu sentava no banco da igreja e aguardava para ser o próximo da confissão. Um bom homem deve sempre confessar seus pecados. Miranda saia da salinha da confissão com os olhinhos cheios de pranto. Que coisa mais linda! Eu sempre lambia as lágrimas e olhos de minhas vítimas. É sempre um êxtase, um ponto alto de clímax, mais prazeroso que a penetração, pois afinal, o sexo era apenas isca.

Depois de dez “paz de cristo”, 3 tardes de voluntariado no asilo dando papinha e dançando com velhinhas caquéticas, 2 dias distribuindo brinquedos para crianças e pagando propina para dizerem o quão maravilhoso eu era, Miranda me chamou para tomar café em sua casa após a missa. Ela, tolinha, caiu na minha lábia e estava apaixonada, pois ela estava com aqueles olhos que somente os tolos apaixonados possuem. Exatos três cafés, um copo de água e uma taça de vinho da sacristia, ao qual eu, bom moço, acompanhei em igual quantidade, nós estávamos na cama dela cometendo vários pecados em série. Que mulher fogosa e sem limites. Foi assim durante uma semana. Eu não consegui matá-la. Estava apaixonado. Na segunda semana, Miranda me disse que queria selar nossa união. Me chamou de novo para sua casa, como todas as vezes. A mesa estava impecável, e ela estava com um olhar capaz de derrubar um muro. Três taças de vinho depois, eu estava na cama dela. Ela estava emocionada, chorando. Lambi-lhe os olhos e as lágrimas, e quando eu estava quase com as minhas grandes mãos no pescoço dela, a minha visão escureceu, e eu comecei a ver o quarto impecável de Miranda girar e se transformar numa série de borrões. A cadela me dopou. Colocou alguma droga no meu vinho ou naquela comida de dona de casa impecável que ela sempre preparava. Agora, todo dia ela arranca alguma parte de meu corpo e come. É por isso que a desgraçada vivia na Igreja e no confessionário. Hoje, são meus olhos que pedem misericórdia, mas só o olho esquerdo, porque o olho direito ela comeu na noite anterior.

4 – Vaca Amarela

A sala de aula estava um caos insuportável. As crianças berravam como pequenos demônios. Julia, a professora estava à beira de um ataque de nervos.

“Qualquer dia eu mato um!” – pensava ela, murmurando entre-dentes, quase alto.

Lembrou-se de uma brincadeira de sua infância. Chamava-se “Vaca Amarela”.

“É ISSO!!!” – falou alto, batendo na mesa, numa felicidade beirando o desespero, afinal, a brincadeira da Vaca Amarela sempre funcionava, pois ninguém, em sã consciência queria comer a merda da vaca amarela. Julia explicou a brincadeira e cantou a música. No enorme silêncio de 5 segundos, Rodolfo de 10 anos olhava pra ela e dava risada. Nunca uma criança teve um olhar tão cruel. “Demônio infeliz!”…

“Qual a graça Rodolfo? Quer me contar?”

“Papai sempre brinca de Vaca Amarela comigo e mamãe. Mas ele chama de outro nome. E eu sempre ganho. Mamãe sempre perde. Quer que eu te ensine?”

Julia se agachou para ficar na mesma altura de Rodolfo. Velha tática para ganhar respeito e confiança de pequenos projetinhos de gente.

“Como é a brincadeira? Me mostra!”

Rodolfo deu-lhe dois socos seguidos: um no maxilar e outro no olho direito. A classe se encheu de silêncio.

“É assim Tia Júlia! É assim que meu papai faz a minha mamãe calar a boca.”